PCC e caminhoneiros — FALSO SALVE GERAL



Está correndo nas redes sociais um suposto Salve da facção Primeiro Comando da Capital, PCC 1533, constando a assinatura do Geral dos Estados e Países, onde estaria conclamando os membros da facção à botar terror como apoio à greve dos caminhoneiros.

A facção paulista não se envolve em questões políticas — sua luta é contra a opressão do Sistema Carcerário. Todo ato de terrorismo e vandalismo é repudiado pela facção por prejudicar a população.

O movimento dos caminhoneiros é uma manifestação legítima de indignação contra os abusos cometido pelo governo, e está tendo apoio público.

Cabe ao governo resolver essa questão que eles mesmos criaram, no entanto aqueles que se encontram dentro do Sistema Prisional, não podem ser ainda mais sacrificados do que já são.

Se alguém quer usar o Primeiro Comando da Capital como desculpa para o uso da força contra os caminhoneiros, deve procurar outro culpado.

Bem, foi mais ou menos isso, só que com outras palavras que afirmou o Geral do MGI —em caso de dúvida o membro da facão deve sempre procurar o salveiro ou o sintonia para não ser chamado para dar explicações por infração prevista no Dicionário:

4. Atitude isolada: Fica caracterizada quando um integrante ou companheiro age sem buscar a Sintonia ou responsável pela quebrada, sendo agressão, morto, ou algo que venha a prejudicar alguém ou denegrir a imagem do Comando. Punição: 90 dias quando de natureza leve ou cobrança com análise da Sintonia.
 33. Mau exemplo: Fica caracterizado quando o integrante foge do que rege a nossa disciplina, não passando uma imagem nítida da organização, quando se coloca como faccionário diante da massa, desrespeitando e agindo totalmente oposto ao que é pregado pela facção. Punição: exclusão e fica sendo analisado pela irmandade local e pela Sintonia.

FALSO COMICADO GERAL PCC 👇🏽. 25/05/2018
Nois da sintonia geral viemos através deste comunicado deixar claro que vamos entrar na luta pelo Brasil ,pelo povo brasileiro ,não vamos admitir esse governo corrupto brincar com a cara de nossas famílias de nosso povo ,lutamos pela igualdade ,pela paz ,mais chegou o momento de não ficar mais qeto de braços cruzados apartir de hoje o pcc primeiro comando da capital entrará nessa guerra contra o governo em apoio aos camiioneiros e a toda nação brasileira a sintonia geral dos estados e países deixa bem claro que a guerra vai começar ,nossos irmãos e compenheiros já estão sofrendo as consequências dessa grevi justa e por estar do lado do povo entraremos na guerra ,nossa luta e contra esse estado falido é corrupto ,atenção população vamos deixar bem claro para todos que qen estiver desfilando de carro na rua sofrerá as consequências ,estamos em apoio aos camiioneiros ,não é justo eles estar passando fome nas beiras de estradas ,enquanto o resto do povo fica brigando pra abastecer seus carros com gasolina cara ,outra entra na guerra a favor dos camiioneiros ou nun sai de casa o negócio é o seguinte vamos mandar taca fogo geral em tudo qe e do governo ,vamos colocar fogos em postos de gasolina ,en tudo qe não aderir nossa causa apartir de hoje será um por todos e todos por um e para quebrar geral vamos jogar o estado no chão repassem pra geral pra todos irmão e companheiros e população da rua e sistema repassem para todos os grupos vamos ajudar para o Brasil . Ass sintonia geral dos estados e países

A imprensa e o Primer Comando de la Capital

Bordoada seca em mim, que não deveria merecer

Ninguém sente mais pena que eu sinto de você, que padece lendo este artigo. Ninguém sofre mais do que eu sofro ao perceber que, por algum infortúnio, você acabou neste palavreiro tedioso. Por isso peço a você que leia apenas o próximo parágrafo e deixe este site...

É mais ou menos assim que em 1920, Rui Barbosa começa seu discurso de 37 páginas intitulado A imprensa e o dever da verdade, cuja estrutura utilizo por culpa de Valeria e de Márcio, que chamaram minha atenção para o tema: a verdade da imprensa e o PCC

Perceba, não é de meu gosto dar canseira, escrevendo palavras vãs, quando se poderia chegar diretamente ao ponto, mas só assim posso apresentar como se deve o artigo El grupo más temido de Brasil ya aspira a controlar el narcotráfico de América Latina.

A repórter Valeria Saccone me colocou entre o cutelo e a parede com a publicação desse artigo no periódico espanhol El Confidencial. Senti como se minhas posses fossem-me retiradas de súbito por salteadores. Ela, com poucas palavras, humilhou-me e calou-me.


Uma visão clara e abalizada sobre a facção PCC

Valéria contou a história do PCC de forma que alguém que nunca ouviu falar da organização criminosa pudesse entender, e, ao mesmo tempo, fez uma análise profunda sobre sua atual situação e o seu impacto em todo o mundo.

Ela me humilhou e me calou com uma bordoada seca que eu não merecia ao mostrar como se pode fazer uma matéria jornalística de qualidade, levando não apenas a informação ao leitor, mas também lhe proporcionando prazer na leitura.

Foi por conta do artigo de Valéria, que se espalhou como fogo na palha por diversos sites latino-americanos e asiáticos, que parei para reparar nas diferenças entre as notícias transmitidas sobre o Primeiro Comando da Capital nas diversas nações.

Para isso, pedi ajuda aos universitários, e quem me socorreu foi Márcio Barbosa Norberto, com a tese Olhar para a fronteira: o fazer jornalístico em Laz Voz de Cataratas, Gazeta Diário de Foz do Iguaçu, e Vanguardia.

Quem tem telhado de vidro...

Brasileiros viralizaram memes e comentários xenófobos quando se noticiou que refugiados sírios viriam para o país, outros, seguindo a mesma linha, exigiram que a fronteira com a Venezuela fosse fechada para evitar a entrada de integrantes das FARC (isso mesmo, das FARC!).

Márcio nos conta que o periódico paraguaio Vanguardia utilizou 21% de seu espaço falando sobre comércio, arte e cultura, saúde, cidadania, migração, infraestrutura e política, e 79% sobre controle de fronteiras, tráfico de drogas, contrabando, crime e organizações criminosas...
“... criando representações estereotipadas acerca do brasileiro de modo geral. Ao se referir ‘el extrangero’ o portal indica que o suposto membro do PCC não faz parte da nação paraguaia [... e] a imagem que se cria do brasileiro é a de traficante, criminoso, entre outras marcas que carregam este sentido.”
O preconceito alheio é tão bem fundado quanto o nosso, e não se pode culpar a facção por ter atravessado a fronteira, afinal, foi uma decisão nossa esconder o problema até que ele se tornou tão grande que não pôde mais ser oculto sob a peneira.


A imprensa esconde o verdadeiro inimigo


Márcio conta que a imprensa paraguaia trata com naturalidade a corrupção e a ação das organizações criminosas — essa representação do discurso jornalístico reforça o imaginário popular e busca ofuscar o real inimigo, ao que Rui Barbosa resumiria mais ou menos assim:


Vede, senhores, vede se não é a clandestinidade, a hipocrisia, a mentira o que eles querem. A culpa do Primeiro Comando da Capital está mais em desnudar uma praga pública, de cuja existência todos sabem, todos se lastimam, todos se aterram, mas na qual poucos ousam pôr a boca.
Quem há de encarar aqueles que dispõe da vida e da morte, dando ou tirando a honra, erigindo ou demolindo reputações, convertendo a santidade em corrupção e a corrupção em santidade? Acusemos os estrangeiros ou acusemos os criminosos de sempre.
A imprensa acompanha o que se passa perto e o que se passa longe, enxerga os que tramam, sonegam e roubam a nação e a sociedade, mas se acautela e aponta dedos acusatórios em outra direção, sem ver o verdadeiro mal se vive, e essa é a condição em que vivemos.


Ninguém sente mais pena que eu sinto de você que, por algum infortúnio, acabou tendo que trabalhar para os grandes meios de comunicação, que são obrigados a fazer coro aos discursos dos governos, das empresas e dos políticos que ditam a linha editorial.

A imprensa paraguaia e o Primer Comando Capital

O Paraguai é a principal base de operações da facção paulista fora do Brasil — milhares de brasileiros e paraguaios trabalham, direta ou indiretamente, para a facção nas mais diversas áreas de mercado — legal e criminoso, formal ou informal — e como agentes públicos.

Toneladas de drogas, armas, cigarros e outros produtos são comercializados, sob os olhos complacentes da administração pública, que mostram seus dentes e ocasionalmente abocanham alguns membros, mas sem matar a galinha dos ovos de ouro.

Raíssa Benevides Veloso e Francisco Paulo Jamil Marques explicam que os profissionais da imprensa compram as informações passadas pela polícia sem questioná-las, e essa prática, além de ser mais cômoda, adequa-se aos interesses das editorias e daqueles que querem manter o controle social.

Entendo as razões pelas quais a mídia local age dessa forma, difícil mesmo é entender por que o Paraguai é a única nação de língua espanhola a denominar a facção de “Primer Comando Capital” sem o “de la” — será que foi usado para pagar propina? — foi mal, preconceito meu.

A imprensa hispânica e o Primer Comando de la Capital

Há anos acompanho diariamente as publicações sobre a facção Primeiro Comando da Capital em todo o mundo e, para mim, tornaram-se nítidas as diferenças nas formas narrativas da imprensa hispânica sobre os fatos envolvendo a organização criminosa:


  • Reportagens Especiais: Argentina, Colômbia e Espanha apresentam reportagens elaboradas, através pesquisa e com análise de especialistas, apresentando a organização criminosa como uma estrutura internacional de narcotráfico internacional e controle social nas periferias das cidades e no sistema carcerário.
  • Bandeira política: na Bolívia a facção é demonizada, e o ministro do governo Carlos Romero assume o papel de paladino da Justiça.
  • Varejo criminal: o Paraguai se detém ao noticiário policial diário, com reprodução do que é recebido dos órgãos policiais ou judiciários.
  • Citações ocasionais: as demais nações latino-americanas contentam-se em reproduzir publicações de outras nações e vez por outra há alguma reportagem especial.
Perceba, não é de meu gosto dar canseira, colocando palavras vãs, quando se poderia chegar diretamente ao ponto, mas a repórter Valeria Saccone me colocou entre o cutelo e a parede, e resolvi não me calar diante da humilhação na qual seu artigo me jogou.



As pesquisas pelo Primer Comando Capital pelo mundo

Os gráficos abaixo estão vinculados ao site do Google Trens, portanto a informação que estiver aparecendo talvez não seja a mesma que está vindo para mim no momento em que escrevo.

O primeiro gráfico  mostra um quadro que tem se mantido inalterado por muito tempo — o Paraguai é de longe a nação que mais se preocupa com a organização, seguidas pela Bolívia, nação chave na estratégia da organização, seguidas das demais.

No entanto, no último ano a Bolívia superou em muito o Paraguai no interesse pela facção. O assalto aos carros fortes por si só não justificariam o aumento brutal do interesse, mas a facção passou a ser utilizada como bandeira política pelo governo.



Veja o PCC nos principais jornais hispânicos

O interesse pela facção no meio digital apontado pelo Google Trends se reflete nas matérias produzidas pela imprensa, e o Paraguai que mais pesquisa sobre a facção, também é aquele que a imprensa mais fala sobre o assunto.

O periódico paraguaio Ultima Hora já abordou desde 2004, segundo o Google, o assunto 33.100 vezes no momento que faço essa pesquisa, quando a média dos outros meios de comunicação fora do Paraguai gira em torno de 100 artigos citando a facção.

Abaixo, organizado em ordem de número de abordagens estão postas as principais publicações em Espanhol — cada imagem é um link para a busca do Google.

Paraguai — Ultima Hora Paraguai - PCC 1533 ultima hora
Bolívia — La Razón Bolívia - PCC 1533la razón.jpg
Argentina — La Nacion Argentina - PCC 1533 la nacion diario
Espanha — El País Espanha - PCC 1533 elpais
Argentina — Clarín Argentina - PCC 1533 el clarin diario
Equador — El Comercio Equador - PCC 1533 el comercio
Argentina — Página 12 Argentina - PCC 1533 pagina 12.jpg
México — El Periódico de México Mexico - PCC 1533 el periódico
Peru — El Comercio Peru - PCC 1533 el comercio
México — El Universal Mexico - PCC 1533 el universal
México — La Prensa Mexico - PCC 1533 la prensa
México — La Jornada Mexico - PCC 1533 la jornada
Espanha — ABC Espanha - PCC 1533 abc
Uruguai — El Observador Uruguai - PCC 1533 el observador
Uruguai — Montevideo.com Uruguai - PCC 1533 montevideo
Espanha — El Mundo Espanha - PCC 1533 el mundo
México — Excelsior Mexico - PCC 1533 excelsior
Chile — El Mercurio Chile - PCC 1533 el mercurio
Colômbia — Colombiano Colombia - PCC 1533 colombiano.jpg
México — Crónica Mexico - PCC 1533 cronica
México — Milenio Mexico - PCC 1533 milenio
Espanha — La Razón Espanha - PCC 1533 la razón

O Governo perdeu o controle dos presídios?

A revolta dos Guardiões do Estado (GDE 745)

É fácil ficar berrando que não se negocia com preso, mas Anália e Wellington já haviam avisado: a coisa não é bem assim.

Com doze agentes penitenciários para gerir mais de mil cativos na Penitenciária Industrial e Regional do Cariri (PIRC), o Estado deveria se colocar em seu lugar, e fazer o que tem feito desde os tempos da Colônia: garantir a governabilidade através da negociação.

No entanto, o governo preferiu pagar para ver, endureceu as regras, e os aliados do Primeiro Comando da Capital, a facção cearense Guardiões do Estado, mandaram um recado: “devagar com o andor que o santo é de barro!”, e atacaram prédios públicos no Cariri, em Juazeiro do Norte.

A polícia prendeu alguns dos integrantes da facção GDE 745 que participaram da ação, mas o prejuízo para os cofres públicos, a sensação de insegurança transmitida para a população, a impunidade dos líderes criminosos e a impotência do Estado ficaram.

O que você sabe sobre o controle do Estado?

Você, assim como eu, talvez se pergunte se o governo perdeu o controle sobre o que acontece dentro dos presídios. Lamento dizer, mas Analía e Welliton afirmam que nós nem temos chance de entender o que está realmente acontecendo.

Se for esse seu caso, assim como é o meu, sugiro que, assim como eu o farei, volte para sua linha do tempo e seus grupos do Facebook e WhatsApp para postar suas opiniões sobre memes, fotos e manchetes de fake news.

Os sociólogos Analía Sória Batista e Welliton Caixeta Maciel desconstroem o conceito de controle social exercido pela sociedade no artigo Prisão como gueto: a dinâmica de controle e de extermínio de jovens negros pobres, publicado pela UNESP.

Nós, pelo menos foi a impressão que tive ao ler o texto, vivemos em um mundo imaginário, acreditando no coelhinho da Páscoa, no Papai-Noel e na aplicabilidade do Positivismo e dos ideais iluministas de Rousseau.

O sangue lusitano corre em nosso tecido social

Você se lembra de Ganga-Zumba? Eu nunca tinha ouvido falar, mas era ele quem controlava o Quilombo dos Palmares e, quando viu que a casa ia cair, fez um acordo com a Coroa Portuguesa para evitar o massacre. Não me acuse de spoiler, você já sabe que deu errado, o sobrinho dele, chamado Zumbi, recusou o acordo e o resultado foi uma carnificina.

Faz parte da cultura lusitana de base católica, herdada por nós, evitar o quanto possível a interferência armada do Estado nos conflitos. Não que os lusos tivessem uma queda nata e à frente de seu tempo para o liberalismo, mas conheciam as limitações do aparelho repressivo de seu Estado..

Enquanto as outras nações europeias começavam a discutir se o poder dos nobres adivinha do poder de Deus, Portugal já tinha um Estado constituído e contato com pessoas de todo o mundo, adquirido por meio das navegações marítimas.

Sobreviver no canto do continente europeu fez daquele povo especialista em conhecer seus limites. Negociar com o outro foi uma ferramenta de sobrevivência trazida para as terras brasileiras, algo visto nas tentativas de barganha com os revoltosos de Palmares.

O habitus de relacionamento entre Estado e sociedade

Sei que o mundo ideal é aquele baseado no neoliberalismo, afinal, procuro ser uma pessoa politicamente correta, e hoje o correto é defender as ideias liberais, principalmente no que tange a vida dos outros.

Pressiono o governo para que me garanta aposentadoria, saúde, segurança, educação e infra-estrutura, mas defendo que o Estado deve interferir minimamente em minha vida — quanto maior for meu poder de influência, mais conquistas terei.

Os governantes nada mais fazem que gerir os interesses diferentes, pressionados pelos mais diversos grupos sociais, e nosso sangue lusitano entra em ação para manter a governabilidade, atendendo, na medida do possível, a todos.

Quanto maior é a capacidade do governante de fazer o controle social por meio da autogestão das diversas comunidades sob seu julgo, melhor será seu resultado administrativo e de manutenção da paz — foi assim na Colônia e é assim hoje.

Evitando o ponto de ruptura

A arte de negociar chegou ao fim por decisão de Zumbi, que assumiu Palmares e resolveu que a liberdade não se negocia. Por sua vez, os portugueses mandaram Domingos Jorge Velho até lá, que arrasou a vila. À custa de muito sangue, para os dois lados, Zumbi se tornou herói e Palmares um símbolo.

A arte de negociar chegou ao fim por decisão de Fleury, que assumiu o governo e resolveu que não se negocia com presos amotinados. A história se repetiu, e o Cel. Ubiratan arrasou o Carandiru. Dessa vez, também à custa de muito sangue, nasceu o Primeiro Comando da Capital, e Marcola se tornou herói e o PCC um símbolo.

Analía e Welliton analisam as dinâmicas de violência e de negociação entre o Estado e as facções criminosas, levando em conta os complexos processos sociais de produção, controle social e manutenção que formam os guetos — a lógica vale tanto para os atuais presídios, as regiões periféricas e as ocupações urbanas e rurais quanto para os antigos quilombos.

Todos nós estamos o tempo todo sob o julgo do Estado, que interfere de forma abstrata e generalizada em nossas vidas, impondo sua autoridade, e assim também ocorre dentro dos guetos — Zumbi e Fleury optaram cada um por um lado quebrar o equilíbrio.

O controle do estado sobre a massa carcerária

Os meios de comunicação e os políticos defendem soluções fáceis e aceitas pelo público, e o presídio sob controle total dos agentes penitenciários faz parte dessa plataforma, alternativa que tem, no mundo real, tanta chance de se concretizar hoje como se tinha no século XVII.

Quando a facção paulista Primeiro Comando da Capital utiliza os presídios como centros de operações internacionais, fica claro que o Estado perdeu autoridade, no entanto, a pacificação do no sistema prisional prova que o Estado se mantém no controle.

O autogoverno carcerário é responsável por evitar fugas e garantir o retorno das saidinhas e a vida e a segurança de funcionários e sentenciados nos presídios — ou alguém imagina que um preso estuprado, roubado ou ferido por outro preso vai chamar o carcereiro e pedir para ir para a delegacia de polícia para fazer um boletim de ocorrência?

Abandonando o moralismo para entender o mundo real

Analía e Welliton apresentam números que demonstram que a estrutura social vigente nos presídios, periferias e ocupações contemporâneas foram edificados a partir das décadas de 1970 e 1980, com o envio seletivo de negros pobres para o encarceramento.

Nas décadas seguintes, acrescentou-se ao ambiente prisional jovens, quase sempre pobres e negros com envolvimento com o tráfico de drogas, que traziam consigo das ruas experiência de guerra entre gangues pelo domínio de biqueiras.

A violência e a crueldade sempre existiram dentro das prisões, mas eram atos de desajustados violentos, repudiados e temidos pelos demais; agora, essas forças são organizadas, aplicadas pelos soldados do tráfico sob liderança.

A massa carcerária ganhou um autogoverno com seu próprio sistema de segurança pública, com organização, liderança e aceitação na comunidade que representa, e o Estado Constituído assistiu, depois de cinco séculos, à chegada da paz nos cárceres.

Em um eterno movimento pendular

As chacinas dentro dos presídios do Norte e do Nordeste e a queda de braço entre os aliados Guardiões do Estado e o governo provam que nem tudo são flores nesse processo. O custo da paz pode ser muito violento, e sua estabilidade depende do uso da força e da negociação, e nunca será definitiva ou terá limites bem delineados.

A mídia, em busca de espetáculo, cobra das autoridades uma maior presença do Estado no controle do dia a dia carcerário, assim como alguns políticos que visam lucro eleitoral. No entanto, a realidade é que o governo não tem condições efetivas de gerir essa questão — alguns acreditam que com a privatização dos presídios, quem sabe?

Em Portugal do Século XV, já analisava-se a capacidade real de ação do Estado. Eles agiam por pura emoção, e o mais incrível é que os antigos lusos ainda sequer tinham recebido as luzes do Iluminismo e do Racionalismo.

Por isso, sugiro que você faça como eu: volte para sua linha do tempo e seus grupos do Facebook e WhatsApp para postar suas opiniões sobre memes, fotos e manchetes de fake news, em que nossos amigos neoliberais e progressistas podem demonstrar para seus iguais que têm razão, sem se preocupar com a opinião de Analía e Welliton.

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Está correndo nas redes sociais um suposto Salve da facção Primeiro Comando da Capital , PCC 1533, constando a assinatura do Geral dos E...