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Mestre dos meus dias!

Desvestido de qualquer título acadêmico, no entanto seu saber era inato.

Semeava os grãos do milho – três em cada cova aberta – no tempo certo. Aplicado aluno da natureza, fazia o plantio não antes de setembro, nunca depois de dezembro. Primavera!

Contemplando no céu o sol a pino, dizia, sem soberba: é meio dia!

O crescimento do arrozal nos brejos e nas baixadas era um encanto à vista.

As frágeis ramas verdes se alçavam risonhas, ostentando pencas douradas de grãos. Milagres desabrochados! E ele, olhando placidamente as hastes, murmurava embevecido: está cacheando!

Viera a estas plagas ainda menino! O juramento do imigrante tomado a sério. Lavrou a terra não apenas pela necessidade da sobrevivência, mas por amor e devotamento, ao senti-la generosa e acolhedora. Apostou no seu futuro, se fez professor da enxada, foi aprovado com mérito no vestibular da vida. Nas colheitas copiosas celebrava a formatura!

Do chão semeado vieram sucessivas safras, indispensáveis ao sustendo da prole de doze filhos.

Aos oitenta anos, tolhido pelo tempo, já não mais conseguia sulcar o solo. Da roça se despediu. Lágrimas furtivas molharam aquele rosto digno.

Um dia o filho caçula, o único dos meninos a chegar à universidade, se aproximou desse homem honrado e anunciou sua candidatura a um cargo eletivo na pequena comunidade. O ancião olhou dentro dos seus olhos e, sem pressa, com a serenidade dos justos e santos, proferiu a mais terrível sentença já prolatada por um magistrado:

“Meu filho: nunca alguém de nossa família se meteu nessa aventura. Cuidado para não manchar o nome. É a minha única herança. Se quer mesmo, siga com a minha bênção. Mas não envergonhe ao seu pai”.

Hoje, esse homem é saudade!

Nesta manhã, diante do espelho, um homem de cabelos grisalhos descobriu ter penetrado na fase outonal da própria existência.

Recordou-se então da figura esquálida, alquebrada pelos anos de intenso labor sob o sol inclemente, ou açoitado pelas brumas das gélidas manhãs. Com dificuldade reteve o pranto.

E, réu confesso, pede absolvição aos mestres ante o atrevimento de arrojada afirmação.

Meu pai foi um sábio!


Lázaro Piunti (28/09/09)

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