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O Primeiro Comando da Capital e a Hidra de Lerna.



No tempo de meu avô ele sabia que era certo ficar na soleira da porta esperando o dono da casa dar licença para entrar; sabia que quando encontrava um padre devia se pedir a benção; que devia dar o lugar no ônibus ou no trem para uma mulher sentar; e que nunca deveria se referir a um afro descendente de negro, e sim de “pessoa de cor”.

O tempo passou e nem tudo o que meu avô achava que era certo de fato era certo, mas ele acreditava de coração que tinha razão, sempre.

Essa lembrança me veio ao ler críticas feitas em comentários feitos em uma postagem no Facebook sobre a decisão do governador do estado de São Paulo de não transferir para as prisões federais a liderança do Primeiro Comando da Capital.

Para entender o debate o repórter da Folha de São Paulo, Rogério Pagnan, apresenta diversos dados sobre a facção na matéria: “CLUBE DO CRIME - Em guerra com outras facções, PCC adota estratégia de expansão por domínio nacional do tráfico”.

Pagnan encerra a reportagem com a justificativa para a não transferência de Marcola e outros líderes do Primeiro Comando da Capital para as prisões federais dada por Lourival Gomes, secretário da Administração Penitenciária de São Paulo:

“Eu só gostaria que essas pessoas ponderassem se isso está certo ou errado. (...) Nós só não mandamos 16 por que temos certeza de que isso não vai dar certo”
“Se nós removermos esses presos para prisão federal, tenham a certeza de que todos os órgãos de inteligência sérios não vão saber mais nada, nada, nada. Não vão poder dominar ou controlar o crime organizado e muito menos combater…”

Entendo a linha de raciocínio da atual administração, no entanto Gomes de fato só está apresentando uma parte da verdade, pois ele esconde a que ao meu modo de ver é a principal razão da opção de Alckmin: a quebra do pacto implícito de pacificação.

O efeito da pacificação do estado imposta pelo Primeiro Comando dentro dos presídios e nas ruas do estado de São Paulo é uma realidade cada vez menos contestada por estudiosos, mídia, e agentes da Segurança Pública e da administração da Justiça.

A quebra do pacto por parte do governo estadual geraria caos com centenas de mortes entre agentes de segurança e justiça, presos, e cidadãos; além de um incalculável prejuízo econômico direto e indireto por conta de ações terroristas como as de 2006.


Eu por mim vejo que há ainda uma razão mais profunda e singular que impede que o Estado corte a cabeça dos líderes do Primeiro Comando da Capital, o efeito Hidra de Lerna.

Existem dois fatores sobre Hidra de Lerna, o monstro de nove cabeças da mitologia grega, que não podemos esquecer:
  • imortal: uma das cabeças não pode ser destruída. Assim como o Nazismo sempre haverão seguidores do Primeiro Comando, hoje ou daqui cem anos, o Estado no máximo poderá controlar, mas jamais matar; e
  • mortal: o veneno dessa criatura é mortal, Hércules conseguiu conter a Hidra, mas morreu tempos depois devido ao seu veneno.

Essa criatura da mitologia grega tinha como principal característica o fato de que ao se cortar uma de suas nove cabeças outras duas ou três nasciam no lugar daquela, e esse é o medo de Alckmin, pois o isolamento das lideranças conhecidas do PCC teria um efeito similar agravado por dois fatores:
  • localização: as agências de inteligência teriam que descobrir quem seriam e a partir de onde atuariam as novas lideranças dificultando as ações de monitoramento de escutas; e
  • controle social: as novas lideranças espontâneas dentro da facção seria composta de membros mais jovens e inexperientes, mais dispostos a usar de força letal contra a população, policiais, e funcionários da Justiça para se imporem, ao contrário da atual cúpula que profissionalizada opta pelo lucro operacional da venda de drogas e armas.

No tempo de meu avô ele saberia o que era certo: “se tem uma maçã podre ela deve ser separada das outras para que não se apodreça todo o cesto”. Não tenho dúvidas que ele acharia correto separar e isolar as lideranças do Primeiro Comando, mas o tempo passou e nem tudo o que meu avô achava que era certo de fato era certo, mas ele acreditava de coração que tinha razão, sempre.

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