PCC um problema de fronteiras no Brasil.



Recebo, todos os dias, mensagens e ligações criticando meu trabalho, tanto por parte das forças de segurança quando por parte de integrantes da facção. Parece ser mais fácil o governo federal fechar os quase 248 mil quilômetros de fronteiras do que meus críticos chegarem a um consenso.

Pessoal, se decidam!!!

João Pereira Coutinho, nessa semana estava falando sobre esse tipo de comportamento: são pessoas que criticam o capitalismo, mas não vivem sem seu iPhone ou seus Androids de última geração. Assim se faz quando se fala sobre o Primeiro Comando da Capital PCC 1533: as pessoas criticam o sistema e os métodos, mas não vivem sem eles e não aceitam mudar a receita.

Enquanto os cães ladram, a caravana passa. Vamos aproveitar o mote e falar sobre as fronteiras.

O pesquisador Alex Jorge das Neves, capitão da Polícia Militar de Goiás, apresentou um trabalho para o Programa de Pós-Graduação em Estudos Fronteiriços, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, que vale a pena ser lido: “Plano Estratégico de Fronteira, rumos e desafios da integração e cooperação em Segurança Pública no contexto dos Gabinetes de Gestão Integrada de Fronteiras.”

Quando eu vi esse título já imaginei um texto chato e sem pé na realidade, mas, depois, me surpreendi com a facilidade de leitura e com a análise bastante clara do problema e das possíveis soluções. Nas próximas semanas destrincharei aqui esse trabalho, aos poucos.

O pesquisador analisa que o Primeiro Comando da Capital ganhou as ruas e se ramificou para o Paraguai e Bolívia por conta de uma nova configuração das organizações criminosas transnacionais, possibilitada pela globalização.

Analiso e público trabalhos acadêmicos assim como processos criminais há seis anos nesse site, e isso, por vezes, me deixa triste. Alex que me perdoe, mas esse filme eu já vi. Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma, e agora Michel Temer. Mudam os nomes dos presidentes e dos programas que eles criam, mas na prática…

Assim como eu aqui do meu canto vejo os cães latirem e as caravanas passarem, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, viu a todos esses políticos e burocratas criarem programas e falharem, pois não vivem na realidade das ruas. Ele sim.

Ah! João Pereira Coutinho termina sua matéria falando sobre a Amazon, e eu lembro aqui que ela é parceira nossa aqui no site: quem quiser dê uma olhada na nossa seleção de produtos: TUDO O QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE O PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL.

As arlequinas abandonadas do Primeiro Comando PCC.



Nesse fim de semana levei a esposa de meu sobrinho, que está passando uns tempos em Aparecidinha, e o que vi me fez recordar algumas considerações feitas pelo mestre em antropologia Clésio Agostinho Geraldo para a Revista de Ciências da Educação da UNISAL.

No entorno do CDP de Sorocaba centenas de pessoas, quase todas mulheres aguardavam desde as primeiras horas do dia para poderem entrar e visitar seus filhos, maridos, pais. Ninguém está feliz de estar ali, mas a tristeza não é o que domina, afinal a vida é assim.


Eu, da mesma forma que muitos dos que lá estavam não ia entrar, pelo menos não daquela vez, talvez nem como visita. Ficamos do lado de fora. Apenas observo com o respeito que o ambiente determina – as regras do 1533 são claras e a justiça é rápida.

Ali circulam as “irmãs”, “cunhadas”, “sogras”, “companheiras”, aliadas e algumas garotas que foram para cumprir alguma missão específica – as aspas estão alí pois o sentido familiar não é o tradicional, vale para a família 1533 e todos tem que respeitá-lo.
“Contemplei. Não pelos motivos lascivos que ocupam a cabeça do leitor impuro. Razões sociológicas –juro, juro” — João Pereira Coutinho.
O que eu observei foi o aspecto psicológico daquele momento, e isso me trouxe a mente o estudo do mestre Geraldo. Será que em uma penitenciária feminina seriam vistos tantos homens esperando para visitar suas mães, filhas, esposas? Os homens fariam fila nos portões pela madrugada adentro?

As arlequinas são abandonadas pelos companheiros e isso não é uma teoria, é fato. Nossa sociedade considera isso normal e até as garotas do PCC não estranham a situação e criam justificativas para o abandono, afinal seus companheiros também são do mundo do crime.
“Uma leitura apressada diria que biologia é destino: inconscientemente, habita ainda em nós o velho macaco, e a velha macaca, com suas manhas de sobrevivência e reprodução”, escreve João Pereira Coutinho citando o prof. David Ludden.
Muitas das arlequinas amam essa vida, mas a maioria sonha com uma vida em uma família tradicional com seus maridos, filhos, morada limpa, conversa com as amigas em frente de casa e em paz, sem medo de ser feliz, sem medo da justiça e da perda da liberdade.

O mundo do crime e do Primeiro Comando da Capital é feito para homens. As mulheres que nele entram enfrentam muito mais que a maioria do que se dizem homens poderiam suportar. Quer saber se entraram nessa vida por escolha ou foram forçadas a isso?

Leia: Prisioneiras

Quem são e o que fazem os disciplinas do PCC 1533?


Houve um tempo em que eu acreditava em um mundo ideal, onde a polícia defenderia as pessoas com justiça, mas esse tempo acabou. A pesquisadora Deborah Rio Fromm Tinta também não acredita que a força policial deva impor pela força sua autoridade…
"Logo me dei conta que uma rodinha de disciplinas estava por ali também. Fiquei mais tranquila. ... Vários pontos de conflito que emergiram foram apaziguados graças à mediação dos disciplinas."
O humorista Márcio Américo, que certa época da vida foi um assíduo frequentador do local concorda:
"A polícia e a prefeitura apenas fingem ter controle do local, completamente dominado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), por “propaganda superficial”
Deborah Rio, durante o trabalho de campo que fez em 2015 bem na conturbada Cracolândia ela acompanhou de perto a ação dos “disciplinas” do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) que negociaram com traficantes, usuários de drogas, jornalistas, policiais, e autoridades públicas.


Os disciplinas são o braço forte da facção e estão nas ruas, nas bocas, nos presídios, e em qualquer lugar onde as regras do Comando precisem ser respeitadas. O medo e o ódio alimentam seu poder e sua autoridade cordeiros não balem em terras onde lobos uivam. Continua Deborah:
“Porém, o clima era de tensão. Em determinado momento, um usuário, M., começou a questionar exaltadamente o coordenador do programa e da ação, o Capitão Renato Lopes da Silva. Nesse momento, chegou um disciplina. Ele se aproximou, passou na minha frente, não tocou em ninguém, só pediu licença com uma voz grossa. Todo mundo abriu passagem. O disciplina colocou a mão no ombro de M., cuja fisionomia já havia mudado totalmente … M. se acalmou e disse que respeitava os 'entendimentos'.”
É responsabilidade dos disciplinas manter a ordem nas áreas sob domínio do Comando, cobrando bom comportamento de usuários e traficantes locais e garantindo que os entornos dos pontos de drogas estejam em paz, para não chamar a atenção da polícia.

Essa função social e política dos disciplinas os colocam em posição de negociar com as comunidades e as autoridades:
“... o Prefeito Fernando Haddad também estava lá. Alexandre de Moraes, o prefeito e um dos disciplinas discutiam no interior do espaço do Programa Recomeço… o local estava fechado e havia muitos policiais na porta...”, a pesquisadora completa.
Houve um tempo em que eu acreditava em um mundo ideal, onde a polícia defenderia as pessoas com justiça, mas esse tempo acabou. A pesquisadora Deborah Rio demonstra em seu trabalho que a elite pensante aposta mais na segurança e na tranquilidade que podem ser trazidas pelos disciplinas do Primeiro Comando do que pelas forças de segurança do poder público.

Para que possamos ver a realidade, é preciso abandonar nossas ilusões. Se, por um lado, é fato que nos estados e nas regiões onde há o domínio claro do Primeiro Comando da Capital o índice de homicídios e pequenos delitos diminui, por outro a “opressão do sistema” é substituída por uma força mais obscura, que não teme em mutilar e matar.

Os disciplinas tem sua atuação dividida, alguns agem apenas dentro das muralhas e outros nas ruas.

Nas ruas:
Aquele que atua na biqueira ou em um bairro é o chamado "disciplina da quebrada", podem ter vários em uma mesma cidade, mas em geral os municípios contam apenas com um "disciplina da cidade". Existem também aqueles que atuam em qualquer canto do estado, no geral são chamados para resolver alguns problemas mais graves, são os "disciplinas do estado". E por último, tem aqueles que atuam em qualquer lugar, esses no geral seguem para as áreas de conflito com outras facções ou para resolver problemas com lideranças locais, são os "disciplinas dos estados e países".

Nas trancas:
Os disciplinas que ficam dentro das muralhas são chamados de jets, e também são hierarquizados: "jet da unidade", e "jet do estado" - podem ser chamados também de disciplinas.

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