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As arlequinas abandonadas do Primeiro Comando PCC.



Nesse fim de semana levei a esposa de meu sobrinho, que está passando uns tempos em Aparecidinha, e o que vi me fez recordar algumas considerações feitas pelo mestre em antropologia Clésio Agostinho Geraldo para a Revista de Ciências da Educação da UNISAL.

No entorno do CDP de Sorocaba centenas de pessoas, quase todas mulheres aguardavam desde as primeiras horas do dia para poderem entrar e visitar seus filhos, maridos, pais. Ninguém está feliz de estar ali, mas a tristeza não é o que domina, afinal a vida é assim.


Eu, da mesma forma que muitos dos que lá estavam não ia entrar, pelo menos não daquela vez, talvez nem como visita. Ficamos do lado de fora. Apenas observo com o respeito que o ambiente determina – as regras do 1533 são claras e a justiça é rápida.

Ali circulam as “irmãs”, “cunhadas”, “sogras”, “companheiras”, aliadas e algumas garotas que foram para cumprir alguma missão específica – as aspas estão alí pois o sentido familiar não é o tradicional, vale para a família 1533 e todos tem que respeitá-lo.
“Contemplei. Não pelos motivos lascivos que ocupam a cabeça do leitor impuro. Razões sociológicas –juro, juro” — João Pereira Coutinho.
O que eu observei foi o aspecto psicológico daquele momento, e isso me trouxe a mente o estudo do mestre Geraldo. Será que em uma penitenciária feminina seriam vistos tantos homens esperando para visitar suas mães, filhas, esposas? Os homens fariam fila nos portões pela madrugada adentro?

As arlequinas são abandonadas pelos companheiros e isso não é uma teoria, é fato. Nossa sociedade considera isso normal e até as garotas do PCC não estranham a situação e criam justificativas para o abandono, afinal seus companheiros também são do mundo do crime.
“Uma leitura apressada diria que biologia é destino: inconscientemente, habita ainda em nós o velho macaco, e a velha macaca, com suas manhas de sobrevivência e reprodução”, escreve João Pereira Coutinho citando o prof. David Ludden.
Muitas das arlequinas amam essa vida, mas a maioria sonha com uma vida em uma família tradicional com seus maridos, filhos, morada limpa, conversa com as amigas em frente de casa e em paz, sem medo de ser feliz, sem medo da justiça e da perda da liberdade.

O mundo do crime e do Primeiro Comando da Capital é feito para homens. As mulheres que nele entram enfrentam muito mais que a maioria do que se dizem homens poderiam suportar. Quer saber se entraram nessa vida por escolha ou foram forçadas a isso?

Leia: Prisioneiras

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