Mensagem Oficial do 24º aniversário do PCC 1533


Hoje é o dia do 24º aniversário do Primeiro Comando da Capital, vulgo PCC 1533. Havia me decidido a não postar nada hoje, mas, sempre tem um mas, Luis Fernando Veríssimo acabou de postar no Estadão uma crönica que me fez mudar de ideia.

O texto do mestre tem um trecho que é mais ou menos assim:

“Qualquer pessoa sensata que parar para pensar na origem e na expansão do Universo e no que nos espera quando nosso Sol se extinguir ou explodir [...], pensará: “Isso não vai acabar bem...”.

Bem, aí ele faz o contraponto com um personagem de Voltaire que vê com encantamento tudo a sua volta, por pior que seja a situação.

E é exatamente assim que a sociedade se comporta em relação a organização criminosa PCC: uns vêem o colapso do Universo e outros acham que está tudo muito bem.

Nem o Marcola, nem eu, nem qualquer pessoa em sã consciência pode achar que a existência de um facção criminosa possa ser algo positivo, mas tem gente que passa sua vida achando que pelo fato do PCC existir chegou o dia do Apocalipse – se bem que um dia ele poderá chegar, mas não é hoje.

Em muitos estados, é verdade, ainda não se chegou a um equilíbrio, a pacificação, mas no geral a vida segue com todos buscando o progresso e o que todo mundo quer em um aniversário, comemorar em paz e ser feliz.

Uma mensagem que trombei por aí reflete como está o clima dentro da facção:

“Bom dia a todos sem exceção, olha a nossa disciplina que temos que seguir. Para todos verem como que a família cresceu, e está evoluída! Nossa luta não para!

Antes de dormir colocar a cabeça no travesseiro e falar: hj eu fiz tantas coisas, amanhã vou fazer um pouco mais. Aí, todos fazendo sua parte dentro do seu setor a engrenagem não para e sempre vai evoluir.

Eu tenho orgulho de fazer parte do 1533! 👋Várias noites e vários dias sem dormir, tudo por meu esforço e dedicação ao Primeiro da Capital, amo minhas irmãs, meus irmãos, meus companheiros, que fecham em responsa do p.c.c, que se dedicam.

As companheiras que nos ajudam e acreditam na nossa luta. Com todo meu carinho e respeito, bom dia a todos Irmão... 1533 p.c.c até o fim! Olha nosso aniversário em família, todos fechadão na mesma batida”

É isso, azar da imprensa e dos datenas que terão que procurar sangue para vender audiência em outro lugar.

Ah! Tem um áudio feito especialmente para essa ocasião, e o mais importante, uma mensagem oficial:


Comunicado Geral – Interno e Externo
30/08/17

O Resumo Disciplinar vem através deste deixar um forte abraço a todos, e também a agradecer a todos os nossos irmãos e irmãs, os companheiros e companheiras, que se mantém forte na luta ao nosso lado apesar de todas dificuldades - sempre vendo uma forma para seguir em frente.
A todos aqueles que se foram fica nossa gratidão e agradecimentos por tudo que fizeram enquanto tiveram com nós. Foi onde nos ensinaram que a semente nunca morrerá, pois é uma corrente.

Nesse aniversário da nossa Família PCC nos lembraremos de todos com lagrimas nos olhos, pelas perdas que jamais voltarão. Vocês também nos dão forças para continuar, e para que todo esse sacrifício não seja em vão, e vejam como que essa semente plantada no concreto, regada com muito sangue, se tornou uma árvore de muita esperança.

Nosso agradecimento a todos os nossos queridos que se foram, a todos que se encontram nas trancas federais ou estaduais, que deixaram muitas vezes de viver sua vida para mover essa família.

Deixamos claro que essa semente plantada não morrerá por eles, por nós, e por vocês que nos deram bons exemplos, que essa data sirva para comemorar mas também sirva para refletir o que perdemos em prol a essa luta justa.

Que cada um de nós se faça essas perguntas:
  • Quem acredita na mudança?
  • O que somos?
  • Qual são os nossos objetivos?
  • Quais são nossas metas?

E que podemos honrar essa Família que vai comemorar mais um ano, mas que também está sentindo falta de todos que se foram.

Deixamos um forte abraço a todos em nome da Família PCC e que juntos e unidos venceremos: onde o crime fortalece o crime.


O dinheiro do Primeiro Comando da Capital no HSBC



Meu falecido avô dizia que esse mundo é pequeno, e eu preciso concordar com ele. Outro dia, navegando por aí, me deparei pela primeira vez com Robert Evan Ellis – um analista de economia, política e segurança latino-americana –, que, da bela cidade de Montgomery, no Alabama, fazia suas considerações sobre a evolução do crime organizado brasileiro.


Para minha surpresa, me deparo, hoje, novamente com Robert; só que dessa vez ele está falando sobre o aumento da influência da China na América Latina, em uma coletânea de David Denoon: China, The United States, and the Future of Latin America: U.S.–China Relations.

"Certos escritores se desculpam de não haverem forjado coisas excelentes por falta de liberdade – talvez ingênuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguém desfruta [...]” – escreveu Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere.

O escritor-analista Robert Evan Ellis produz muitos artigos doutrinantes, que apontam para um caminho já conhecido por muitos de nós brasileiros e, em especial, por Graciliano Ramos – que em 1935 foi demitido do serviço público, deportado em um porão de navio e preso, sem acusação, durante o Governo Vargas: eram os ventos do New Deal soprando.

“América para os americanos” – slogan da doutrina Monroe.
Durante a Era Vargas, vivíamos sob a influência da “política de boa vizinhança”, do presidente americano Franklin Delano Roosevelt, onde o Departamento de Estado americano através do Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (OCIAA), influenciava abertamente  o governo brasileiro (ou pelo menos tentava), como mandava a velha cartilha da Doutrina Monroe.

A volta ao velho sistema de influência econômica e cultural, o Big Stick, é a proposta para hoje de Robert para o governo americano.

Somado a outros argumentos, há o de que o The Hong Kong and Shanghai Banking Corporation (HSBC) está administrando o dinheiro da organização criminosa brasileira Primeiro Comando da Capital (PCC), e alerta que esse fato pode não parecer tão perigoso quanto a presença de tropas chinesas em outros países latino-americanos, mas, na verdade, é até mais grave.

É no varejo, nas ações diárias, comerciais e financeiras, que a China está conquistando espaço na América Latina; isso faria parte de um planejamento a longo prazo, e se os Estados Unidos da América não se atentarem, terão corroída sua posição global, ficando vulneráveis – até mesmo militarmente – em regiões muito próximas ao seu território.


Bem, Robert Evan Ellis aponta como solução para os Estados Unidos o retorno aos tempos do New Deal. Meu falecido avô, além de achar esse mundo pequeno, também era um grande admirador do presidente Getúlio Vargas. Eu lamento pelo o que passou Graciliano Ramos, mas Vargas soube, a seu tempo, explorar o medo americano como ninguém.


Quem sabe o que conseguiríamos por aqui com um presidente com a mesma capacidade? O Primeiro Comando da Capital, se acreditarmos no que o Robert escreve, está fazendo a parte dele fazendo a lavagem de seu dinheiro através da casa chinesa, e ameaçando levar o terror para dentro do território americano, como o mesmo autor afirmou outro dia.

Paz, Justiça, e Liberdade – registro de nascimento



O grito de guerra do Primeiro Comando da Capital, PCC 1533, foi registrado quando Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, ainda brincava pelas ruas de Osasco com seus 10 anos de idade. O lema foi usado bem longe dali por um americano, em um avião que atravessava o Atlântico, próximo à costa da Irlanda, indo de Nova York a Genebra.

Era 25 de agosto de 1978. A comissária de bordo do voo 830, um Boeing 707 da TWA, entregava ao piloto duas cartas com mais de dezenove páginas de declarações e exigências do grupo terrorista que se autodenominou de União dos Soldados Revolucionários do Concelho da Aliança de Alívio Recíproco pela Paz, Justiça e Liberdade em Todo Lugar (United Revolutionary Soldier of the Council of Reciprocal Relief Alliance for Peace, Justice, and Freedom Everywhere).

Esse é o mais antigo documento em que as três palavras chaves foram utilizadas por uma organização criminosa. Dessa vez, ao menos, não foi possível culpar o Marcola de participação, até porque em nenhum momento os investigadores suíços ou os americanos convocaram o moleque de Osasco para ser ouvido.


A organização criminosa exigia nas cartas, entre outras coisas:
  • Liberdade imediata para o nazista alemão Rudolf Hess, da prisão de Spandau, em Berlim.
  • Liberdade imediata para o americano Sirhan Bishara Sirhan, condenado pelo assassinato de Robert F. Kennedy.
  • Liberdade imediata para cinco prisioneiros croatas, presos nos Estados Unidos, que haviam matado um policial em Nova York e sequestrado um avião dois anos antes.

Se as exigências não fossem atendidas, duas malas com bombas, que estavam no compartimento de bagagem do avião, seriam detonadas. As cartas foram entregues à comissária por uma pessoa disfarçada (óculos e bigode falsos, peruca preta e capa cor laranja brilhante) que, depois de tirar o disfarce, misturou-se às outras 85 pessoas que continuavam a bordo da aeronave.

Depois de voar mil e quinhentos quilômetros, o avião pousou em seu destino, Genebra, onde os negociadores tentaram contatar o terrorista, mas ele não se manifestou, continuando escondido entre os demais passageiros. Consequentemente, veio a ordem para que todos saíssem da aeronave rapidamente.

A mensagem de Paz, Justiça, e Liberdade estava lançada no Aeroporto de Genebra, pelo motorista americano desempregado Rudi Siegfried Kuno Kreitlow. Ele acabou sendo preso em um Clube de Xadrez quando a polícia encerrou as investigações, sendo condenado a 20 anos de prisão.

Kreitlow não participava de nenhum grupo terrorista, mas a semente caiu em um solo fértil: em um presídio brasileiro à 9.300 quilômetros da cidade suíça, onde os presos políticos e os criminosos comuns e de alta periculosidade eram postos em um mesmo ambiente conturbado e opressor – nove meses depois nascia, no Presídio da Ilha Grande, a Falange Vermelha, cujo lema seria Paz, Justiça, e Liberdade.


A Falange morreu assim que foi criada, mas teve continuidade com o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, que mantiveram o grito de guerra lançado por Kreitlow. Este último, assim como o Marcola em 1978, jamais poderiam, naquele tempo, imaginar as emoções de ódio e paixão que aquelas palavras causariam no futuro.

O estudioso Diorgeres de Assis Victorio do Canal Ciências Criminais me lembra que originalmente o lema Paz, Justiça, e Liberdade, era utilizado apenas pelo Comando Vermelho, enquanto o Primeiro Comando da Capital adotou o "Liberdade! Justiça! E Paz!", conforme consta nos primeiros estatutos apreendidos pelas autoridades policiais.


SOBRE ESSE ASSUNTO MAIS DOIS TEXTOS:

O CV e o ideal de Paz, Justiça e Liberdade do PCC


Passaram-se quase 40 anos, sim, mas, esteja lá onde estiverem, os fundadores do Falange Vermelha devem estar olhando aqui para baixo (ou para cima, quem sabe?) e sentindo-se orgulhosos dos descendentes que deixaram. O Primeiro Comando da Capital, PCC 1533, e as demais facções criminosas movem entre 3,5% e 10% do PIB nacional.

Desenterro essa entrevista feita com o José Carlos Gregório, feita há exatos vinte anos. Ela está no meio do caminho histórico, entre a fundação das bases nacionais das facções criminosas modernas brasileiras e o ponto atual, que é a da internacionalização dos cartéis nacionais de drogas e armas.

Não farei aqui a transcrição da entrevista, que está na íntegra no vídeo do canal Histórias Daki, mas destacarei os principais pontos do vídeo, além de relacioná-los com o que nos chama a atenção hoje em dia.


Gregório era conhecido no mundo do crime como “Gordo”; foi O CARA que planejou o primeiro resgate de presos com helicóptero – “coisa de primeiro mundo”, ele conta na entrevista dele como foi de verdade, e no vídeo abaixo está como saiu na imprensa na época.


Bem, lá ele fala mais sobre si, vamos ao que interessa:

A ORIGEM DO PENSAMENTO DAS FACÇÕES CRIMINOSAS NO BRASIL

Gregório conta que a facção carioca Comando Vermelho surgiu daquela que seria a Falange Vermelha, um grupo de criminosos organizados dentro de um sistema penitenciário opressor, oriundos das camadas sociais dos “morros cariocas”. Esses indivíduos estavam detidos no Presídio da Ilha Grande, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.


  • A LUTA PELO FIM DA OPRESSÃO CARCERÁRIA
  1. Estatuto do PCC, artigo 4º e 18º
  2. Cartilha do PCC (11 citações)

Aos presos comuns de alta periculosidade da Ilha Grande foram acrescentados prisioneiros políticos detidos pelo Regime Militar com a Lei de Segurança Nacional, e esses novos hóspedes, que eram “mais estruturados, mais educados, que viviam os dois lados, sabendo o que era uma família, começaram a assistir a tudo de dentro da cadeia, parando para lutar contra os crimes contra os presos, praticados pelos funcionários e também pelos próprios presos”.

“Quando eles tinham uma banana, eles dividiam a banana e alimentava todo mundo, e nós fomos vendo como eles faziam e aprendemos.[...] E foi aí que começou a surgir essa organização, começando a se organizar dentro da cadeia, para depois transpor o muro da prisão e chegar aqui fora.”


  • NINGUÉM É OBRIGADO A ENTRAR OU RECEBER ORDENS
  1. Estatuto do PCC, artigo 17:“Ninguém é obrigado a permanecer no Comando”.

Gregório conta que desde o início as facções não funcionavam com pessoas mandando em outras pessoas: cada um cuidava da sua vida, decidindo se iam ou não assaltar algum lugar e como fariam isso. Não tem uma chefia, “são um grupo de pessoas que são amigos, são uma família, que se unem”.

Essa forma de se relacionar foi adotada pelo Primeiro Comando da Capital, no qual ninguém é obrigado a entrar ou aceitar qualquer missão, no entanto, entrando-se é preciso cumprir as regras, além do que, caso uma missão seja abraçada, não se pode voltar atrás sem cumpri-la.


  • O LEMA É PAZ, JUSTIÇA, E LIBERDADE
  1. Estatuto do PCC, artigo 2º
  2. Cartilha de Conscientização (2 citações)

Gregório conta que Comando Vermelho foi fundado já com o lema que hoje é adotado pelo PCC: “O lema do Comando Vermelho é Paz, Justiça, e Liberdade:

Paz: é a paz de você viver em paz dentro da cadeia.
Justiça: você faz justiça todos os dias; é você fazer o que o governo não faz, o que quem deveria fazer não faz e, então, você tenta fazer alguma coisa.
Liberdade: é o que todo mundo sabe, sair do presídio a qualquer custo.”


O estudioso Diorgeres de Assis Victorio do Canal Ciências Criminais me lembra que originalmente o lema Paz, Justiça, e Liberdade, era utilizado apenas pelo Comando Vermelho, enquanto o Primeiro Comando da Capital adotou o "Liberdade! Justiça! E Paz!", conforme consta nos primeiros estatutos apreendidos pelas autoridades policiais.


SOBRE ESSE ASSUNTO MAIS DOIS TEXTOS:

PCC 1533 – 24 ANOS – PARABÉNS E FELIZ ANIVERSÁRIO!




Parabenizo pelo aniversário, inicialmente, a geração que viveu o Regime Militar – regime que criou o ambiente propício para o nascimento da organização PCC –, que cuidou e alimentou a filha mais velha da família do Crime Organizado, a Falange Vermelha, em seus primeiros anos de vida. Essa, por sua vez, depois de crescidinha, ensinou os primeiros passos a seus irmãos mais novos em todo o país.

Parabenizo também a geração que viveu durante os regimes democráticos, a princípio com os governos moderados do PMDB e PSDB que, sob o manto da moderação, acalentaram as facções em sua infância; depois, os governos de caráter popular do Partido dos Trabalhadores fortaleceram esse grupo em sua pior fase: a adolescência.

Parabenizo, finalmente, essa nova geração que tem que conviver com ou enfrentar a questão das facções criminosas – agora profissionalizadas, violentas, mais organizadas e com proteção social e midiático. Quanto maior o desafio, maior será o louro da vitória – seria uma vitória e tanto, mas, pelas características culturais brasileiras, provavelmente não será alcançada, ainda.

Claro, podemos nos “incluir fora” do rol dos causadores dos problemas, como se nós, enquanto população, não tivéssemos participado por ação ou omissão no que está aí. Seguimos, então, acusando os governos, o destino, a globalização, a chegada do Apocalipse...

Os admiradores do Regime Militar e os democratas de todos os matizes jamais admitirão que são os pais do Primeiro Comando da Capital, chamado pelos colegas de PCC 1533; eu, comodamente, também negarei a paternidade.

Mas o fato é que tudo começou assim:

Nasceu em 1979 a Falange Vermelha na Prisão da Ilha Grande, localizada na formosíssima Angra dos Reis, durante o governo do último presidente da república do Regime Militar, o General João Batista Figueiredo, já com as bandeiras de apelo social do fim da opressão do sistema carcerário e o abandono pelo Estado dos morros cariocas.

Para que uma criança nasça, é necessária a união de duas pessoas de gêneros distintos, e os militares resolveram essa questão colocando em uma mesma cela bandidos comuns de alta periculosidade e prisioneiros políticos – nove meses depois nasceu a Falange Vermelha.

Amanhã postarei uma antiga entrevista de alguém que participou dos primeiros anos da Falange Vermelha, contando mais sobre as características dessa organização em seus primórdios. Desta forma, será possível analisarmos a evolução de pensamento e de condução da facção até os dias de hoje.
Confesso a Deus Onipotente, à bem-aventurada sempre Virgem Maria, aos santos apóstolos, a todos os Santos e a vós, Padre, porque pequei, por que aplaudi e me calei quando em 1979 o governo colocou os “bandidos políticos e comuns” em uma mesma cela, e eu em pensamentos e palavras apoiei, mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa, portanto, rogo a ti Padre, que rogueis por mim a Deus Nosso Senhor.
O estudioso Diorgeres de Assis Victorio do Canal Ciências Criminais me lembra que originalmente o lema Paz, Justiça, e Liberdade, era utilizado apenas pelo Comando Vermelho, enquanto o Primeiro Comando da Capital adotou o "Liberdade! Justiça! E Paz!", conforme consta nos primeiros estatutos apreendidos pelas autoridades policiais.
SOBRE ESSE ASSUNTO MAIS DOIS TEXTOS:

Bolívia quer combater o PCC, mas não o narconegócio


Peço a todos que me perdoem, mas não consigo sentir firmeza no recém formado Primer Gabinete Binacional de Seguridad Bolivia-Brasil. Talvez seja a forte luz vinda dos holofotes que estão iluminando o palco, ou as sombras que estão por detrás dele, mas algo está me impedindo de ver com clareza aonde esse Gabinete Binacional vai nos levar.

O inferno está repleto de boas intenções, e tenho acompanhado pelas últimas décadas a formação de inúmeras comissões, reuniões, sistemas, planos – se bem que com nome de gabinete é o primeiro. Será que realmente há uma boa intenção por parte dos governos?

Quem coloca essa dúvida não sou eu, é Robert Evan Ellis no artigo La stratégie des États-Unis pour l’Amérique latine et les Caraïbes, no qual apresenta o governo boliviano como um ávido combatente dos interesses norte-americanos e aliado militar e comercial da China e da Rússia. Conjuntamente com esse último país, segundo Ellis, o governo da Bolívia estaria montando um reator nuclear experimental, perto de El Alto.

O pesquisador faz crer que a recusa boliviana em aceitar apoio do governo americano na luta contra o narcotráfico foi uma forma discreta de manter o país como um dos principais produtores mundiais de coca. A agência noticiosa Vise publicou a declaração de um camponês produtor da folha, que demonstra a ação do Estado:
"Agora é diferente. A polícia é nossa amiga. Antigamente, nós desviávamos os olhos quando eles passavam. Agora paramos sempre para dizer um ‘olá’", afirma o agricultor.
Quando incentivou uma economia baseada no narconegócio, Evo Morales não contava com o ingresso do Primeiro Comando da Capital no país: a facção paulista está conseguindo desconstruir os acordos feitos pelo governo com as diversas etnias e grupos sociais, o que está colocando em risco o mandato do presidente da Bolívia, que se encerra em 2019.

Peço a todos que me perdoem, mas se for para ter minha vista ofuscada pela forte luz vinda dos holofotes, que seja aquela que está iluminando Luana, a belíssima modelo brasileira que é a mensageira do Primeiro Comando da Capital – e nem vou me preocupar com as sombras que estão por detrás dela.

Já o juiz suspenso de San Pedro de La Paz, que beneficiou com a prisão domiciliar um possível brasileiro integrante do Primeiro Comando da Capital, não conseguiu provar que sua vista estava ofuscada pelo brilho do processo, e o Ministério Público da Bolívia solicitou formalmente sua prisão preventiva. Pelo menos é o que nos conta o noticioso El Deber.

O PCC ameaça a estabilidade latino-americana?


Talvez você se imagine como uma pessoa inteligente e pense que é difícil alguém enganar você. Bem, se você for assim, bem vindo ao clube: eu também tinha muitas “certezas” até ler o artigo do analista em economia, política e segurança latino-americana Robert Evan Ellis, La stratégie des États-Unis pour l’Amérique latine et les Caraïbes.

Apesar de não ser um trabalho que chame a atenção por sua qualidade, profundidade ou conteúdo, ele fez com que eu questionasse minhas certezas.

Robert me quebrou logo de cara, pois começa dizendo que o Donald Trump não tem nenhum fundamento em ver ameaça aos Estados Unidos vinda da América Latina. Então, eu deduzi, que o texto seguiria nesse caminho, mas… Ledo engano (e esse foi apenas meu primeiro e menor engano).


O analista, no decorrer de seu trabalho, derrubou minha crença em um mundo no qual a Guerra Fria foi substituída por outro pós-história (Fukuyama), quando apontou para uma melhora na segurança no Cone Sul com Temer na presidência do Brasil, se contrapondo ao governo boliviano de Morales, que estaria recebendo armas e recursos da China e da URSS (ops… Da Rússia).

O trabalho de Robert também apontou que eu estava errado ao acreditar que o Primeiro Comando da Capital tinha uma matiz diferente das Forças Revolucionárias da Colômbia (FARC), do Exército de Libertação Nacional (ELN), e do Sendero Luminoso. Há, segundo Robert, uma característica que une essas organizações criminosas que também está presente no PCC 1533:
“Cometem ataques em nome de objetivos políticos” – no caso da organização paulista, é a luta pelo fim da opressão carcerária e desigualdade social.
A última certeza que Robert derrubou foi a mais intrigante e preocupante, pois eu nunca levei em consideração que a democracia e a segurança de toda América poderiam estar em risco por causa do Primeiro Comando da Capital, mas pesquisador aponta para as semelhanças entre o que está acontecendo aqui e o que acontecia no oriente antes da Primavera Árabe:
“Não foi devido a conflitos internos, mas como na América Latina, as tensões sócio-econômicas alimentadas pela dinâmica da globalização, instituições fracas e passivas que se mostraram incapazes de gerenciar a crise. [...] escondem a mesma capacidade explosiva, podendo pôr em risco a segurança nacional dos Estados Unidos.” (tradução e negrito meus)
Ellis diz ter chegado a essa conclusão devido à incapacidade dos governos de vencerem o crime organizado e à rápida transmissão dos efeitos pelo mundo por uma possível perda de controle sobre o criminalidade, pois, assim como aconteceu na Primavera Árabe, o caos se espalharia rapidamente para os países vizinhos até invadir as fronteiras americanas.

Ainda batendo na tecla desse cenário de Guerra Fria em um mundo globalizado, o analista adverte que o crime organizado aumentou a vulnerabilidade , como na época da Guerra Fria, levando à instabilidade das políticas conservadoras e ao avanço das populistas. Ele não cita nomes, mas no ano que vem tem eleições por aqui.


Talvez você imagine que é uma pessoa inteligente, que é difícil alguém enganá-lo. Bem, se você for assim, Robert vai provar que você, assim como eu, está errado. Aposto que você acreditou quando alguém na escola lhe ensinou que o Macartismo tinha morrido na metade do século passado. Só que não. O analista, no mais puro estilo Macartista, declara:
“Conscientes das percepções do poder e da autoridade moral dos Estados Unidos no mundo, o país deve atuar para o estabelecimento de instituições regionais fortes para o rígido cumprimento das leis do Estado de Direito, para atingir a maioria dos seus objetivos na região, incluindo a promoção da democracia e dos direitos humanos, o desenvolvimento e a justiça social ou para combater a influência maliciosa de certos atores estrangeiros. As instituições fracas são mais vulneráveis ​​à exploração de empresas estrangeiras e elites nacionais, bem como à deriva de líderes populistas…”

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