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Bauman, o PCC, o GDE e a pacificação do Serviluz


O professor Diorgeres Victorio, colaborador do site Canal Ciências Criminais, lembrou-me que, há pouco tempo, a parceria do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) com o Comando Vermelho tinha lugar de destaque em seu estatuto:
“16. [...] Em coligação com o Comando Vermelho - CV e PCC iremos revolucionar o país de dentro das prisões e o nosso braço armado será o Terror 'dos Poderosos' opressores e tiranos [...]”

E agora, emitem um comunicado declarando que “viemos deixar claro que não temos e nunca teremos nenhum tipo de aliança com Comando Vermelho, não existe a mínima chance de uma coisa dessas acontecer.”

Para quem quer entender um pouco mais sobre isso e como o crime organizado influiu na pacificação da periferia de Fortaleza: Marcado para Morrer: moralidades e socialidades das crianças na comunidade do Serviluz, de Deiziane Pinheiro Aguiar, apresentado ao Programa de Pós-graduação em Sociologia, da Universidade Federal do Ceará.


Aguiar entrevista moradores e pessoas que atuam na comunidade para entender a condição das crianças e dos jovens em situação de risco. No tópico “2.2 Pacificação: as segmentaridades simbólicas e líquidas “em paz” no Serviluz”, a pesquisadora vincula os boatos da chegada do PCC na região aos acordos que foram firmados entre as gangues de jovens locais.

É incorreta a conclusão de Aguiar, que afirma que o PCC não chegou no Serviluz. A facção paulista atua fazendo alianças com as organizações locais de lá – salvo engano, é a GDE (Guardiões do Estado), abaixo tem o vídeo do Coiote que explica com detalhes. Mas isso não diminui a qualidade do trabalho de Deiziane, pois seu foco era leitura situacional, e isso foi feito por ela com maestria.

O deputado Ferreira Aragão concorda com ela quanto a influência que as organizações criminosas tem dentro da comunidade: "Ele alertou que no bairro de Serviluz, quando alguém é morto, não se recorre mais à Polícia ou a Justiça.'É o chefe da gang, que é buscado para resolver o crime. E vão lá fazer justiça com as próprias mãos'”.


Entre os assuntos abordados pela pesquisadora, está a questão das alianças, dos amigos e dos inimigos, de como essa situação influenciou a comunidade – mas, bem, quem quiser que vá até lá e leia. Aqui vou citar apenas um trecho que versa sobre a questão levantada pelo professor Diorgeres Victorio:
“Os ‘inimigos’ tornaram-se ‘amigos’ e o que seriam estas duas categorias/classificações num processo de oposições em tensão e conflito, em ambiente de luta simbólica na favela? Bauman diz:

Existem amigos e inimigos. [...] Amigos e inimigos colocam-se em oposição uns aos outros. Os primeiros são o que os segundos não são e vice-versa. Isso, no entanto, não é testemunho de sua igualdade. [...] Os inimigos são o que os amigos não são. Os inimigos são amigos falhados; eles são a selvageria que viola a domesticidade dos amigos, a ausência que é uma negação da presença dos amigos. O avesso e assustador “lá fora” dos inimigos é, [...] “aqui dentro” dos amigos. [...] A oposição entre amigos e inimigos separa a verdade da falsidade, o bem do mal, a beleza da feiura [...] o próprio do impróprio, o certo e o errado [...].”

Comentários

  1. Quero apenas saber se alguém pode usar o nome de um irmão pra ameaçar e ficar espalhando que o cara é do comando... meu filho gerou uma criança com uma nóia , que já tinha um filho de um preso. .mas já não estavam juntos... agora a mãe dela fica ameaçando meu filho usando o nome desse cara . . espalhando que o cara é comando pra TDS... expondo o rapaz pelo que eu sei isso é proibido. . porque fui mãe de irmão...

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    1. Olá Choleth,

      Esse site não pertence a facção, então não falo por eles, mas posso lhe adiantar que o "lado certo do lado errado da vida" de fato não aprova o uso do nome da facção sem necessidade. Nome de irmãos então não devem ser citados nunca.

      No entanto assim como na justiça comum, o processo é cabuloso. Aí vai:

      Inicialmente, deve procurar o disciplina da quebrada, ou caso não conheça, algum "irmão", caso não conheça também, um companheiro ou aliado para poder encaminhar a sua reclamação para dentro do sistema.

      A primeira providência será possivelmente um debate entre os membros mais próximos da quebrada para avaliar a solicitação. Se for considerada correta, possivelmente, a providência será conversar com o "irmão" que está tendo seu nome citado por familiares para que peça a eles que pare com esse proceder.

      Caso não dê certo, e os familiares continuarem a citar o nome em vão, nova reclamação deve ser feita pela ofendida, e depois de novo debate, será decidido se a conduta será cobrada do irmão, ou a pessoa que está utilizando o nome da facção será procurada para ser orientada da conduta certa.

      Esse proceder pode variar um pouco de estado para estado, mas no geral é assim que funciona.

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