"O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia."(Millôr Fernandes)

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Se convertendo para sair do PCC

É importante demonizar a facção PCC Se você conhece os integrantes da facção Primeiro Comando da Capital pela televisão, não poderia, d...

Se convertendo para sair do PCC

É importante demonizar a facção PCC

Se você conhece os integrantes da facção Primeiro Comando da Capital pela televisão, não poderia, de fato, saber o que pensam e como agem.

  Raíssa Benevides Veloso e Francisco Paulo Jamil Marques me chamaram a atenção para esse fato no artigo “O Papel das Fontes Oficiais na Cobertura sobre Segurança Pública — um estudo do jornal O Povo entre 2011 e 2013”.

 Os pesquisadores demonstram que os órgãos de imprensa repetem e reforçam o ponto de vista das autoridades policiais, auxiliando a demonizar aqueles que fazem qualquer tipo de oposição à lei ou aos costumes estabelecidos.

 Sejam criminosos que roubem ou matem trabalhadores, sejam oficiais islamitas matando cristãos, sejam policiais de regiões nas quais exista distinção oficial de etnias ou raças reprimindo manifestações igualitárias: a imprensa local reportará a versão do status quo.

  Por enquanto, no Brasil, são os integrantes da organização criminosa PCC 1533, mas se não fossem eles, seriam outros os demônios que estariam sendo caçados e apresentados.


O dia perfeito para um policial

Assisti a uma palestra ministrada para um grupo de jovens policiais. O palestrante perguntou aos novatos qual seria o melhor resultado possível a ser apresentado ao final de um plantão.

  As respostas variaram: troca de tiros que resultasse na morte de criminosos, resgate de uma vítima de sequestro ou interceptação de uma grande carga de drogas.

 Eram respostas esperada dos novatos, mas estranhas para os veteranos, que prefeririam chegar ao final do turno e apontar em seu talão de ocorrências: “plantão sem alterações” ― confessou o instrutor.

 Afinal, se os policiais tiveram que utilizar a força, significaria que todo o trabalho de prevenção e inteligência falhou, colocando em risco a vida dos agentes e de terceiros.


O dia perfeito para um criminoso do PCC

A analogia é válida para as crias do Primeiro Comando da Capital.

  As crias do 15 sonham com uma reação bem sucedida a uma abordagem policial e a ações criminosas, com fugas espetaculares que os permitam levar para suas comunidades dinheiro e histórias para ostentar diante das garotas, dos colegas e da família.

 É o que se espera dos novatos, o que não reflete os anseios dos veteranos do mundo do crime, que prefeririam chegar ao final da noite garantindo estabilidade e segurança para si e suas famílias.
  “Um lugar gramado e limpo, assim verde como o mar, com cercas brancas, e uma seringueira com balança, para poder ficar empinando pipa cercado por suas crianças.”

O tempo passou e muitos chegaram lá

Quando você pensa na facção Primeiro Comando da Capital, talvez pense nos garotos que vendem drogas e estouram caixas eletrônicos, ou talvez, no máximo, você se lembre do prefeito de Embu das Artes, mas será que…

  As centenas de convidados para o casamento da filha do subtenente da Polícia Militar, ou as centenas de funcionários das dezenas de empresas pertencentes a ele diriam que aquele simpático policial seria líder do PCC?

Possivelmente não. Ele e sua família não correspondem à imagem que o Datena, a colunista do Estadão Eliane Cantanhêde e outros formadores de opinião nos mostram: moradores de barracos mal acabados, com suas famílias desestruturadas e criminosas.

 Ao contrário do que se imagina, a classe média do PCC é tão presente quanto os garotos dos corres. Quem sabe você ou um de seus familiares não trabalhe em um setor público ou uma empresa privada onde alguma liderança seja do PCC ― e você nem desconfia.


Fugindo com medo do perigo das grandes cidades

Alexandre Almeida Barbalho e Amanda Nogueira de Oliveira me surpreenderam com o artigo “Juventude, comunicação, sociabilidade e cidadania: A atuação da ‘família Os poderosos e as Poderosas’”, publicado pela E-Compós.

  Há muito acompanho a revoada de membros da organização criminosa PCC para os condomínios e bairros de luxo, afinal, segundo eles mesmos, é o melhor lugar para se livrar de abordagens policiais ― a polícia age de maneira violenta apenas nos bairros pobres.

 Facciosos ironizam que os policiais que fazem “bico” nos condomínios cuidam de sua segurança e os cumprimentam quando passam nas portarias e de dentro das viaturas.

 Foi no artigo Alexandre e Amanda que li pela primeira vez que os PCCs estavam buscando o nordeste para fugir da violência de São Paulo:
   [...] diversas famílias [...] explicaram que o Primeiro Comando da Capital teria vindo para Fortaleza. Isso teria acontecido depois que uma boa parte de seus componentes se sentiu coagida em São Paulo e precisou se estabelecer em outros locais do Brasil, dentre eles algumas cidades do Nordeste.”

Vizinhos pacatos que buscam manter a paz

A imprensa relatou diversos casos de PCCs que foram capturados em suas mansões, condomínios e empresas ― invariavelmente os vizinhos e funcionários os descreveram como sendo pessoas pacatas e que se dedicam à família. Os Racionais MCs não estavam errados quando disseram que o sonho dos criminosos, ao contrário do que mostra a TV, era conseguir “um lugar gramado e limpo […] para poder ficar empinando pipa cercado por suas crianças.”

A busca da pacificação nas quebradas por parte da liderança da facção paulista segue nesse sentido, pois além de garantir o fluxo de drogas sem interrupções, a segurança de membros das equipes de base, suas lideranças e suas famílias também é defendida.

 Em regiões não pacificadas, com guerra entre gangues de jovens, mesmo nas partes nobres da cidade, a vida pode ser perigosa, como conta Alexandre e Amanda:
 “O bairro da Sapiranga em Fortaleza, onde vive a maioria dos poderosos, não foge desse contexto de disputas e homicídios que tem os jovens como agentes e vítimas. […] Não é de hoje que o medo de ser a próxima vítima faz parte de seu dia a dia [...] seja devido ao tráfico de drogas, seja devido a ações policiais no bairro.

Estamos prontos para reconhecer o inimigo

Alexandre e Amanda afirmam que é relativamente fácil reconhecer os integrantes dos grupos sociais, e sobre isso eu e você precisamos concordar ― quem é que não reconheceria um criminoso da Família 1533?


  “... observa-se a existência de grupamentos de jovens que se autointitulam família […] nos bairros populares da cidade.

Reunindo dezenas de integrantes, tais grupos se reúnem em espaços públicos, geralmente praças, e privados e mantêm troca de mensagens por meio de dispositivos e plataformas digitais tais como WhatsApp e Facebook.

Recorrem ainda a elementos de delimitação identitária, como camisas personalizadas e músicas autorais, de modo a demarcarem sua presença no espaço urbano.”

 Antônio Mateus Soares, Matheus Reis de França e Claudemir Santana descreveram com minúcias as características dos PCCs e dos CPs no estudo “A economia do ilegalismo: tráficos de drogas e esvaziamento dos direitos humanos em Porto Seguro, BA”.

 MERCADO DO POVO ATITUDE MPA — Bairro Baianão. Ligação: PCC-SP — Símbolo: Caveira e Cruz (1533 MPA) — Grupo coeso e hierárquico. Produto de consumo da marca Cyclone (bonés, camisas e bermudas).

 COMANDO DA PAZ CP — Área do Campinho. Ligação: CP-Salvador — Símbolo: Escorpião (315 CP) — Grupo pulverizado com ritos de execução, mas primam pela discrição no seu cotidiano. Produto de consumo da marca Nike (bonés, camisas e bermudas).


Hora de começarmos a caça

Se você conseguir deixar de lado a visão distorcida de como localizar um membro da organização criminosa Primeiro Comando da Capital terá condições de localizar aí, em seu meio, pessoas que pertençam ou sejam parentes ou amigos de facciosos.

  Alexandre e Amanda terminam colocando algumas dicas de como você pode reconhecer o membro de uma família:
  “A família, ainda que sendo uma ‘pequena entidade local’ não deixa de atuar no seu entorno social, para além de sua ambiência comunitária e sua comunidade […]

O engajamento cívico no esforço coletivo pela paz no bairro onde habitam revela que o grupamento também é uma espécie de esfera civil ao fomentar a capacidade crítica e a integração democrática.

Enfim, ainda que autointitulada ‘família’, os poderosos não se limitam à esfera do privado, como se poderia esperar, até por conta de seu forte gregarismo, mas interagem com o espaço público…

Como sintetiza a mensagem retirada de um print do grupo de WhatsApp da família: ‘Chegou o grande dia, convocamos todas as equipes para o evento mais importante do nosso bairro, o grandioso 8 meses sem ter nenhuma violência na nossa comunidade’.”
Então, se você receber uma mensagem assim, ou tiver um vizinho pacato ligado à família, ou um garoto que vista bonés, camisas e bermudas da Cyclone, ou ouça Racionais MCs, fique esperto e ligue 190 para auxiliar a manter a paz e a ordem social.

Há um PCC pertinho de você! Ligue 190!

É importante demonizar a facção PCC

Se você conhece os integrantes da facção Primeiro Comando da Capital pela televisão, não poderia, de fato, saber o que pensam e como agem.

  Raíssa Benevides Veloso e Francisco Paulo Jamil Marques me chamaram a atenção para esse fato no artigo “O Papel das Fontes Oficiais na Cobertura sobre Segurança Pública — um estudo do jornal O Povo entre 2011 e 2013”.

Os pesquisadores demonstram que os órgãos de imprensa repetem e reforçam o ponto de vista das autoridades policiais, auxiliando a demonizar aqueles que fazem qualquer tipo de oposição à lei ou aos costumes estabelecidos.

Sejam criminosos que roubem ou matem trabalhadores, sejam oficiais islamitas matando cristãos, sejam policiais de regiões nas quais exista distinção oficial de etnias ou raças reprimindo manifestações igualitárias: a imprensa local reportará a versão do status quo.

Por enquanto, no Brasil, são os integrantes da organização criminosa PCC 1533, mas se não fossem eles, seriam outros os demônios que estariam sendo caçados e apresentados.


O dia perfeito para um policial

Assisti a uma palestra ministrada para um grupo de jovens policiais. O palestrante perguntou aos novatos qual seria o melhor resultado possível a ser apresentado ao final de um plantão.

  As respostas variaram: troca de tiros que resultasse na morte de criminosos, resgate de uma vítima de sequestro ou interceptação de uma grande carga de drogas.

Eram respostas esperada dos novatos, mas estranhas para os veteranos, que prefeririam chegar ao final do turno e apontar em seu talão de ocorrências: “plantão sem alterações” ― confessou o instrutor.

Afinal, se os policiais tiveram que utilizar a força, significaria que todo o trabalho de prevenção e inteligência falhou, colocando em risco a vida dos agentes e de terceiros.


O dia perfeito para um criminoso do PCC

A analogia é válida para as crias do Primeiro Comando da Capital.

  As crias do 15 sonham com uma reação bem sucedida a uma abordagem policial e a ações criminosas, com fugas espetaculares que os permitam levar para suas comunidades dinheiro e histórias para ostentar diante das garotas, dos colegas e da família.

É o que se espera dos novatos, o que não reflete os anseios dos veteranos do mundo do crime, que prefeririam chegar ao final da noite garantindo estabilidade e segurança para si e suas famílias.

“Um lugar gramado e limpo, assim verde como o mar, com cercas brancas, e uma seringueira com balança, para poder ficar empinando pipa cercado por suas crianças.”



O tempo passou e muitos chegaram lá

Quando você pensa na facção Primeiro Comando da Capital, talvez pense nos garotos que vendem drogas e estouram caixas eletrônicos, ou talvez, no máximo, você se lembre do prefeito de Embu das Artes, mas será que…

  As centenas de convidados para o casamento da filha do subtenente da Polícia Militar, ou as centenas de funcionários das dezenas de empresas pertencentes a ele diriam que aquele simpático policial seria líder do PCC?

Possivelmente não. Ele e sua família não correspondem à imagem que o Datena, a colunista do Estadão Eliane Cantanhêde e outros formadores de opinião nos mostram: moradores de barracos mal acabados, com suas famílias desestruturadas e criminosas.

Ao contrário do que se imagina, a classe média do PCC é tão presente quanto os garotos dos corres. Quem sabe você ou um de seus familiares não trabalhe em um setor público ou uma empresa privada onde alguma liderança seja do PCC ― e você nem desconfia.


Fugindo com medo do perigo das grandes cidades

Alexandre Almeida Barbalho e Amanda Nogueira de Oliveira me surpreenderam com o artigo “Juventude, comunicação, sociabilidade e cidadania: A atuação da ‘família Os poderosos e as Poderosas’”, publicado pela E-Compós.

  Há muito acompanho a revoada de membros da organização criminosa PCC para os condomínios e bairros de luxo, afinal, segundo eles mesmos, é o melhor lugar para se livrar de abordagens policiais ― a polícia age de maneira violenta apenas nos bairros pobres.

Facciosos ironizam que os policiais que fazem “bico” nos condomínios cuidam de sua segurança e os cumprimentam quando passam nas portarias e de dentro das viaturas.

Foi no artigo Alexandre e Amanda que li pela primeira vez que os PCCs estavam buscando o nordeste para fugir da violência de São Paulo:

[...] diversas famílias [...] explicaram que o Primeiro Comando da Capital teria vindo para Fortaleza. Isso teria acontecido depois que uma boa parte de seus componentes se sentiu coagida em São Paulo e precisou se estabelecer em outros locais do Brasil, dentre eles algumas cidades do Nordeste.”


Vizinhos pacatos que buscam manter a paz


A imprensa relatou diversos casos de PCCs que foram capturados em suas mansões, condomínios e empresas ― invariavelmente os vizinhos e funcionários os descreveram como sendo pessoas pacatas e que se dedicam à família.

Os Racionais MCs não estavam errados quando disseram que o sonho dos criminosos, ao contrário do que mostra a TV, era conseguir “um lugar gramado e limpo […] para poder ficar empinando pipa cercado por suas crianças.”

  A busca da pacificação nas quebradas por parte da liderança da facção paulista segue nesse sentido, pois além de garantir o fluxo de drogas sem interrupções, a segurança de membros das equipes de base, suas lideranças e suas famílias também é defendida.

Em regiões não pacificadas, com guerra entre gangues de jovens, mesmo nas partes nobres da cidade, a vida pode ser perigosa, como conta Alexandre e Amanda:

O bairro da Sapiranga em Fortaleza, onde vive a maioria dos poderosos, não foge desse contexto de disputas e homicídios que tem os jovens como agentes e vítimas. […] Não é de hoje que o medo de ser a próxima vítima faz parte de seu dia a dia [...] seja devido ao tráfico de drogas, seja devido a ações policiais no bairro.


Estamos prontos para reconhecer o inimigo

Alexandre e Amanda afirmam que é relativamente fácil reconhecer os integrantes dos grupos sociais, e sobre isso eu e você precisamos concordar ― quem é que não reconheceria um criminoso da Família 1533?


  “... observa-se a existência de grupamentos de jovens que se autointitulam família […] nos bairros populares da cidade. Reunindo dezenas de integrantes, tais grupos se reúnem em espaços públicos, geralmente praças, e privados e mantêm troca de mensagens por meio de dispositivos e plataformas digitais tais como WhatsApp e Facebook. Recorrem ainda a elementos de delimitação identitária, como camisas personalizadas e músicas autorais, de modo a demarcarem sua presença no espaço urbano.”


Antônio Mateus Soares, Matheus Reis de França e Claudemir Santana descreveram com minúcias as características dos PCCs e dos CPs no estudo “A economia do ilegalismo: tráficos de drogas e esvaziamento dos direitos humanos em Porto Seguro, BA”.

MERCADO DO POVO ATITUDE MPA — Bairro Baianão. Ligação: PCC-SP — Símbolo: Caveira e Cruz (1533 MPA) — Grupo coeso e hierárquico. Produto de consumo da marca Cyclone (bonés, camisas e bermudas).

COMANDO DA PAZ CP — Área do Campinho. Ligação: CP-Salvador — Símbolo: Escorpião (315 CP) — Grupo pulverizado com ritos de execução, mas primam pela discrição no seu cotidiano. Produto de consumo da marca Nike (bonés, camisas e bermudas).


Hora de começarmos a caça

Se você conseguir deixar de lado a visão distorcida de como localizar um membro da organização criminosa Primeiro Comando da Capital terá condições de localizar aí, em seu meio, pessoas que pertençam ou sejam parentes ou amigos de facciosos.

  Alexandre e Amanda terminam colocando algumas dicas de como você pode econhecer o membro de uma família:

  “A família, ainda que sendo uma ‘pequena entidade local’ não deixa de atuar no seu entorno social, para além de sua ambiência comunitária e sua comunidade […]

O engajamento cívico no esforço coletivo pela paz no bairro onde habitam revela que o grupamento também é uma espécie de esfera civil ao fomentar a capacidade crítica e a integração democrática.

Enfim, ainda que autointitulada ‘família’, os poderosos não se limitam à esfera do privado, como se poderia esperar, até por conta de seu forte gregarismo, mas interagem com o espaço público…

Como sintetiza a mensagem retirada de um print do grupo de WhatsApp da família:

‘Chegou o grande dia, convocamos todas as equipes para o evento mais importante do nosso bairro, o grandioso 8 meses sem ter nenhuma violência na nossa comunidade’.” 

 Então, se você receber uma mensagem assim, ou tiver um vizinho pacato ligado à família, ou um garoto que vista bonés, camisas e bermudas da Cyclone, ou ouça Racionais MCs, fique esperto e ligue 190 para auxiliar a manter a paz e a ordem social.

Quem tem medo do Primeiro Comando da Capital?


É melhor, apesar do medo, saber o que nos ameaça!

Se você mora na cidade de São Paulo, pode sentir o cheiro da morte — houve 42% mais homicídios na capital paulista que no ano anterior.

  A maioria foram negros e pobres das periferias, logo, nada que incomode. Georges Duby lembra que quando o Príncipe causa um problema, ele deve procurar bodes expiatórios, seja entre os judeus, os leprosos, os caminhoneiros ou entre os membros da facção Primeiro Comando da Capital.

 O secretário de Segurança, Mágino Alves Barbosa Filho, afirma não saber a razão do aumento dos homicídios em maio, acrescentando que foi nesse mês a greve dos caminhoneiros: “mas, sinceramente, não vejo relação", completa.

 O medo é uma importante forma de controle social. A criminalidade de fato existe, então, o “príncipe deve proceder ante seus súditos” com o discurso do herói, condenando migrantes ou miseráveis e impondo punições severas.

 O anúncio do aumento de pessoas assassinadas na capital se deu poucos dias após a Promotoria de Justiça afirmar que a desarticulação do PCC 1533 e o fim da pacificação imposta pela facção não teriam efeitos colaterais.

De quem você tem medo: dos PCCs, da polícia ou do escuro?

Você, ou alguém que você conhece, já foi ameaçado ou extorquido por um membro da facção criminosa Primeiro Comando da Capital?

  Você, ou alguém que você conhece, já foi ameaçado ou extorquido por um policial ou um funcionário público?

 Ambas as possibilidades existem, mas você temerá o grupo que estiver mais distante de seu convívio, aquele sobre o qual você tenha menos conhecimento ou informações, sejam PCCs ou policiais.

 Quem mora em alguma quebrada em um bairro afastado, mesmo sendo um honesto trabalhador ou estudante, temerá mais quando cruzar com a polícia durante a madrugada do que quando encontrar um grupo de moleques.

 Quem mora em um bairro estruturado ou em um condomínio, mesmo que seja desonesto e viva de mesada dos pais ou de corres, temerá mais quando cruzar com um grupo de moleques do que quando vir uma viatura da polícia.

  Zygmunt Bauman explica que tememos o escuro, que nos traz a sensação de impotência e que nos causa horror, pois, para nós, é inadministrável aquilo que foge de nosso controle — tememos aquilo que não conhecemos.

Os perigos de utilizar o medo como ferramenta

É o lobo! É o lobo!, é a técnica de administração que cria o medo do inimigo para poder oferecer a proteção e a ação do salvador. Porém, às vezes, essa tática não funciona, e as consequências podem ser imprevisíveis.

  Reginaldo Osnildo Barbosa, em sua tese “Análise do fortalecimento da imagem do vilão mediante o medo expresso nas tecnologias do imaginário” (UNISUL), buscou compreender como o medo é utilizado na construção do imaginário social dos criminosos e do governo salvador (O Príncipe).

 Ele conta que durante o Grande Medo de 1789, milhares de pessoas, não conseguindo oportunidades de trabalho onde moravam, saíram em busca de emprego nas cidades, trazendo consigo a fome, a miséria e o banditismo.

 Temerosa que as turbas atacassem, a sociedade, cujos cidadãos de bem acreditavam estar cumprindo seu dever cívico, exigia que as autoridades reprimissem de maneira exemplar aqueles que não conheciam:
“Um indivíduo suspeito, uma coluna de poeira, menos que isto: um ruído, um vislumbre, uma sombra bastava para persuadi-los […] Assim se desencadeavam os pânicos […], de preferência à noite…” Georges Lefebvre.
Consequência: castelos depredados, expansão do banditismo, crise econômica e política, hostilidade entre as camadas sociais — substitua a palavra castelos, usual em 1789, por ônibus, e terá uma descrição clara do que ocorreu este ano.

Na origem de tudo, há o medo

O medo é algo insano, gerido pela parte mais primitiva de nossa mente, que busca nos manter vivos a qualquer custo, sem frescuras sociológicas ou antropológicas ― e, por isso, não falamos abertamente sobre o que tememos, como explica Roland Barthes.

  Afinal, quando o homem resolve entender o medo, depara-se com algo tão complexo quanto senti-lo. O medo paralisa o desejo que o homem tem de seguir em frente e catalisa o sentimento de sobrevivência, o que passa a ser sua única motivação.

  O Príncipe pode então livrá-lo desse medo e libertá-lo para correr atrás de seus desejos e sonhos, mas, para isso, o perigo apresentado deve ser algo que o Príncipe possa enfrentar.

É fundamental para o bem estar social que o medo exista, mas, também, que possa ser controlado pela autoridade do governante, e que essa, por sua vez, possa apresentar publicamente e constantemente resultados favoráveis.
“para construir uma protecção constante relativa à ameaça que imagina localizada ‘lá fora’ [...], se não existissem estranhos eles teriam que ser inventados. E eles são inventados, ou construídos, diariamente...”

A imprensa amplificando o medo a serviço do governo

A imprensa mostra diariamente a ação das forças do príncipe e apresenta prisioneiros, ao vivo e em rede nacional. Nem Nicolau Maquiavel previu esse grau de sofisticação para satisfazer nosso desejo primitivo de fugir do perigo.

 “O medo é uma forma de controle social e as punições devem ser feitas ao ar livre […] Dentro do repositório de imagens do imaginário social, o medo possui uma constelação própria, com imagens disseminadas, construídas, e impulsionadas pelas tecnologias do imaginário.

A sociedade precisa do PCC, dos judeus e dos negros

Economicamente, o medo é um bom negócio. Se não há medo, há quem o crie. Em um ciclo de consumo e produção de consumidores, o medo é materializado para poder ser destruído.

  Em pleno ataque do PCC de 2006, foram mortas pelos membros da facção criminosa 46 pessoas e pelas forças policiais 505. Em maio de 2018, em tempo de paz, 66 pessoas foram mortas só na cidade de São Paulo.

 E você nem precisa se preocupar, a maioria dos mortos foram negros e pobres das periferias, logo, nada que realmente incomode.

 Você, que nunca cruzou o caminho de um PCC, está agora se sentindo mais seguro, afinal, o Príncipe, por meio de Lincoln Gakiya e seus colegas, afirma que está tudo bem, o Primeiro Comando da Capital está sendo desarticulado.

 Você já pode dormir mais tranquilo já que, como pode ser visto pela mídia, os criminosos estão sendo presos. Bem-vindo a um novo momento na história da Segurança Pública em São Paulo, em que o Estado volta a assumir seu papel de guardião da vida dos cidadãos ― por sinal, algo que nunca fez nas periferias e nos bolsões de pobreza do centro.