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Ela xingou o cara e três pessoas morrem em Itu.

Para Rousseau, “o homem nasce bom e a sociedade o corrompe”, talvez, mas também me parece claro que todo homem no seu âmago sabe que é mau. O certo é que todas as pessoas, em certo momento sentiram em seu coração, o mais primitivo impulso animal, a muito condenado: cometer ações malignas, sem dó nem piedade. Às vezes por motivos inacreditáveis...

Três pessoas morrerão por Camila tê-lo chamado de banguela.

O veredicto sobre esse caso o júri popular já deu, mas o leitor poderá julgar por si, desde que, em nenhum momento de sua vida, nem mesmo quando sido tomado de súbita emoção, ou quando era criança, que tenha desejado que algo de mau acontecesse a alguém que tenha lhe contrariado ou ferido. Pois a diferença entre desejar e fazer é apenas a coragem de executar seu intento.

Ir a Avenida da Paz Universal na Cidade Nova em Itu no final de semana a noite é a  diversão dos jovens daquele bairro. É lá onde tudo acontece, onde está o som, o agito, as azarações e o fervo. Camila da Guia de Souza, não ia deixar de acontecer àquela noite:

Morena clara de cabelos ondulados, dezessete anos e visual incrementado: mini-blusa preta, calça jeans, relógio Champion de pulso, gargantilha com pingente, anéis com ideogramas orientais. Não teria prá ninguém. Ainda era cedo, mal tinha dado oito da noite, quando ela despediu-se de sua mãe e avisou que ia até o Clube de Forró do Ceará e lá pelas três da manhã estaria de volta.

Marcos Michel ia ficar com alguém aquela noite. Ele tinha certeza disso. No Bar Altas Horas na avenida da Cidade Nova, chegou para uma, passou para outra, e assim ia de garota em garota. Já passava da meia-noite quando Edson Oliveira dos Santos, o Bila ou Billi, passou por lá com as duas garotas, uma delas a morena Camila. Marcos Michel conhecia a garota e não gostava nem um pouco dela, afinal ele tentou namorar a sua irmã, a Tatiane, e ela estragou tudo. Mas ela ficou conversando com um conhecido deles, o Hugo Inocêncio Filho, com quem acabou saindo.

Tatiane da Guia de Souza, a irmã de Camila, lembra que Marcos Michel estava muito louco aquela noite e lhe disse: Mina, tá passando uma cena muito louca na minha cabeça. Vou aprontar, depois você vai ver.”

Camila voltou com Hugo depois das duas da manhã. Marcos Michel chega até ela e lhe mostra uma parada de maconha, todos ali afirmarão mais tarde que Camila saia com qualquer um por um michê branco. O fato é que, Marcos Michel, convidou-a para dar um pulinho numa construção lá perto para fumarem sossegados.

Camila vagava despreocupada pela madrugada, esquecendo-se que havia dito para sua mãe que retornaria às três da manhã e já havia passado meia hora. O tempo voa nas assas negras da morte, e ela aceitou o convite de Marcos Michel, seguindo para a obra com ele e mais dois amigos: o Billi e o Preto, como era conhecido por ali o Aparecido Sérgio Ramos.

Algo como uma hora depois, Marcos Michel volta. Sozinho, elétrico e bastante nervoso: dá um tapa na cabeça de Hugo e vai embora. Era madrugada do dia 31 de janeiro de 2004, e não se passariam trinta horas antes que três corpos fossem achados, sendo primeiro o de Camila, ainda naquela manhã, na malfadada construção da Rua Isabel Chandeco de Souza.

Os componentes daquela viatura da Guarda Civil Municipal foram acionados para atender a um caso de furto. Um comércio foi invadido e a vítima conhecia quem praticou o crime – morava lá próximo. A viatura segue para o local, Marcos Michel estava dormindo. Aqueles guardas, sem saber estavam lhe salvando a vida no momento em que o algemaram.

Na madrugada do dia seguinte cabe ao GCM Valdeir e ao GCM Spinard as providências quanto ao segundo corpo encontrado. Billi estava abandonado na Rua Lazaro de Castro, 265, no Jardim Europa. O corpo de Preto, seria encontrado mais tarde na Rua Timburi no Bairro Cidade Nova.

Muitos acusaram Calango, um rapaz que ficava direto com Camila no Trailler do Jair, próximo ao campinho da Cidade Nova, como sendo o justiceiro da garota. O que se sabe ao certo é que dos três homens que teriam ido até a construção com ela, apenas Marcos Michel permaneceu vivo, pois no dia de fúria ele estava a salvo, atrás das grades.

Marcos Michel posteriormente foi solto, pelo crime pelo qual estava preso. Teria então passado a ameaçar Hugo, pois achava que ele tinha sido a última pessoa viu Camila com vida junto dele indo para a obra. Preso novamente por outro crime, ele sobreviveu para poder dizer aos jurados do Tribunal de Justiça de Itu e quem o quisesse ouvir o que realmente aconteceu àquela madrugada fatídica:

De fato ele foi até o quiosque, ficou lá até uma hora da manhã tomando cerveja com o Michel, filho do proprietário do local, e com duas amigas: Tami e Paola. Viu Camila de quem não gostava, pois ela o havia chamado de banguela, mas ele foi para a sua casa e dormiu o sono dos inocentes até a chegada dos homens da Guarda Municipal, que o acordaram ainda bem cedo. Fim da história.

Após ouvi-lo cuidadosamente, assim como seu brilhante defensor, os jurados optaram por condená-lo pelo crime de assassinato e de estupro. O Dr. Hélio Villaça Furukawa fixou a pena total em dezessete anos de prisão. O qual deverá responder preso, com ou sem dentes, mas vivo. Sorte que não tiveram Preto e Billi, culpados ou não, banguelas ou não.

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