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O portofelicense e as insensíveis mulheres de Itu.


Faltavam dois dias para que completassem nove meses que ele havia sido preso, e hoje ele estava decidido a contar a verdade. Aqueles policiais teriam que se explicar na frente do juiz – ah! Teriam!
Ao entrar na sala de audiências da 1ª Vara Criminal da Comarca de Itu viu que talvez não fosse tão difícil, afinal a juíza era a jovem Drª. Renata Carolina Casimiro Braga, na acusação a Drª. Maria Isabel Gambôa Dias Duarte, e sua defensora a Drª. Cláudia Caroline Macedo Dutra – todas elas mulheres. Se fossem homens ignorariam suas acusações e talvez fosse até pior.
Por nove meses ficou a atinar se deveria ou não falar, mas agora não tinha mais dúvidas, falaria, mas primeiro teria que escutar a acusação. Ele sabia bem como tudo acontecia por ali. Lucas, portofelicense da Vila Angélica, nada falou no DP, pois sabia que lá ele não poderia falar, mas lá poderia e a justiça enfim seria feita a ele ao seu amigo morto.
Um por um foram lhe acusando. A história foi mais ou menos assim:

Era uma segunda-feira pouco antes das três horas da tarde quando ele chegou naquela casa do Residencial Rio Araguaia que o proprietário tinha uma transportadora, ele não estava em casa. Lucas e seu colega de Suzano, Nivaldo, bateram e quem atendeu foi uma menina com uns catorze anos.
Não seria difícil, era só uma garota. Perguntou a ela sobre uma pessoa que trabalharia com tijolos e morava por ali, e a garota (bobinha) abriu o portão para mostrar onde o seu padrinho morava, pois ele seria a pessoa que eles estariam procurando. Bobeô dançô – ele pediu dinheiro e ela não deu, disse que não tinha grana na casa mas tinha armas, então entraram.
Bem, foi mais ou menos assim que Lucas contou para as três mulheres que o ouviam. Dentro da casa pegaram cinco armas, e a grana ficou com Nivaldo, eles acharam o dinheiro numa casinha que funcionava como escritório e ficava no fundo da casa principal. Daí eles já estavam em cima do muro quando a polícia chegou atirando. Acertaram ele e então se entregou.
Nivaldo tentou fugir mas deu de cara com a polícia que nem quis saber e atirou. Pior que tudo, foi o terror que passaram, um dos polícias queria que matasse ele também. Os homens estavam doidos, e como prova ele falou para as três mulheres está aí, eles foram presos antes das três horas da tarde e só chegaram na delegacia às seis. O que aconteceu nestas três horas?
Elas ouviram-no, e olharam-no como um balonauta olha para as pessoas que andam pelas ruas sobre as quais ele passa – nada mais vê do que aquilo que parecem ser pequenos insetos, por vezes parados, por vezes andando, mas todos dentro de sua infinita insignificância no todo. Elas pareciam pairar sobre a tempestade que passou por sua cabeça naqueles nove meses.
Viu suas esperanças seguirem outro rumo, como se fosse um pedaço de pau flutuando meio de um incontrolável turbilhão. Aqueles olhares indiferentes, sem sentimento ou compaixão, nada fariam para apurar o que teria acontecido naquelas três horas, não buscariam saber o por que aquele empresário tinha tantas armas em casa, nada, não moveriam um dedo.

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