Um dia na vida de uma família ituana do século XIX.


Albertina, Terezinha e Balbininha, estudantes do Colégio Patrocínio, com outras irmãs estavam no quarto e abriam as caixas, com as encomendas vindas de Paris, pedidas pelo Catálogo de Modas.
Eram lindos vestidos, com laçarotes, anquinhas, sapatinhos, echarpes, chapéus, perfumes, que provocavam exclamações felizes e alegres, e o sonhar com as festas e a missa do Galo, no Patrocínio.

Terezinha correu e apanhou o seu porta-jóias, tirando de lá, os doze botõezinhos de ouro e os doze de prata que todas elas também possuíam, e colocou-os sobre os vestidos, imaginando se não ficariam mais bonitos.

Maria José, a caçula, que viria a ser a minha avó, muito loura, bela e na inocência de seus sete anos de idade, encantada, tudo assistia e recebia também as suas encomendas como também sua irmã Josefina quase da mesma idade dela.

A felicidade seria completa naquela casa, com a chegada dos irmãos que estudavam em São Paulo.
Fernando, estudante de Direito, no Largo de São Francisco e Adalberto que fazia engenharia, chegariam acompanhados por Mamede, escravo fiel e amigo. (Valete de Chambre)

Vinham ansiosos por rever o pai, mãe e irmãs queridas.

A Hora do Angelus - Seis horas da tarde!

Bate o sino do Patrocínio!

D. Balbina reúne as filhas, escravos e diante do oratório com a imagem de Nossa Senhora, rezam a Ave Maria.

Todos com as cabeças inclinadas, respeitosamente acompanham a oração, enquanto a tarde morre aos poucos e as sombras da noite começam a encobrir a cidade ituana.

O trote de um cavalo ouve-se, vindos do terreiro para a estrebaria do quintal.

Apea-se o Senhor Doutor, vindo de seu trabalho na Santa Casa.

Chegaria mais cedo, pois não raro, muitas vezes ficaria até mais tarde, atendendo seus doentes.

Cuidava também de doentes pobres, nada lhes cobrando.

Alto, bonito, espadaúdo, aloirado e de feições bondosas e recebido com respeito e alegria pela esposa, filhos e criadagem.

Entrando para o quarto, tira as botas empoeiradas e lógo, uma jarra com água levemente aquecida lhe é entregue.

Lava as mãos, rosto e se prepara para o jantar.
O tempo fez com que os filhos do casal se espalhassem, Adalberto Ferraz da Luz foi o primeiro prefeito de Belo Horizonte. Fernando Ferraz da Luz, João Carlos Ferraz da Luz (Juca), Augusto Ferraz da Luz, Francisco Ferraz da Luz e Júlio Ferraz da Luz. As moças foram: Albertina Ferraz da Luz, Teresinha Ferraz da Luz, Balbina Ferraz da Luz, e Ana Ferraz da Luz.

Uma cena na véspera do Natal de 1878 em Itu.


Na grande sala com paredes empapeladas com painéis, a mesa comprida e retangular quase ocupando o espaço todo em seu comprimento, as cadeiras eram então, ocupadas pelo médico, esposa e filhos.

Grande espelho bisotê refletia a luz e esta cena familiar e costumeira.

Feita a oração de agradecimento, os pratos que Ciriaca preparara, chegavam a mesa e todos num ambiente alegre desfiavam os acontecimentos do dia.

Fatos tristes e de somenos, eram evitados; perturbavam a digestão, dizia o pai.

Os assuntos mais comentados eram: os preparativos para as Festas, a chegada dos irmãos, a missa do Galo no Patrocínio, as encomendas vindas de Paris e a próxima viagem que os pais fariam à São Paulo.

Dona Balbina feliz, então se recordava de que nunca deixara de visitar, quando vinha à São Paulo, a prima Baroneza de Limeira.

Sorria com carinho, ao lembrar-se dela.

Depois do jantar, reuniam-se na sala de visita, onde era servido o cafezinho. Algumas bordavam.
Mais tarde, dirigiam-se para os seus aposentos, tendo desejado uma Boa noite e tomado a benção dos pais.

Missa do Galo

Era véspera de Natal de 1878, e a missa do Galo no Patrocínio seria à meia-noite!

A Capela do Colégio, com seus altares dourados, seus santos, tudo brilhava à luz das velas e luminárias!

Altares floridos!

A sociedade ituana participava desta comemoração.

Senhoras, Senhores e jovens com seus mais belos trajes, chegavam e ocupavam seus bancos na igreja.

O Senhor Doutor, D. Balbina e filhos mais velhos; depois de cumprimentarem as irmãs e alguns amigos, dirigiam-se para os seus lugares reservados com assentos vermelhos de veludo.

O padre, amigo do médico, rezaria a missa que seria assistida com todo o fervor cristão.
Mesmo assim, Terezinha, Albertina, Fernando e Adalberto, não se esqueciam de vez em quando, afastando os olhos do Missal, de olharem seus pretendidos e amigos que ali estavam também.

Cânticos religiosos tornavam o ambiente de grande beleza e suavidade.

Terminada a missa, na saída, cumprimentos, sorrisos, olhares e todas se encaminham para casa.

Ao longe, ainda, se ouviam as despedidas.

Esta cena cheia de encanto, lá pelas idas de 1878, em Itu, se perde na voracidade do tempo, que tudo consome, restando a saudade de muita alegria e tristeza, na evocação destes acontecimentos.

Acontecimentos, que viveram na lembrança da vovó velhinha Maria e dos netos que a ouviram contar, quando crianças.

Vovó costumava dizer, que os melhores anos de sua vida, na alegria e no doce aconchego dos familiares, passara em Itu.

João Dias Ferraz da Luz escolheu viver em Itu.


Recebia para o jantar a família do Drº. João Dias Ferraz da Luz, o pároco da igreja (1) de quem era amigo, e de quem ouvia conselhos sobre problemas e talvez conflitos da própria vida.

Viera o pároco, ansioso e preocupado em evitar que o médico comprasse de uma família amiga, um escravo chamado Nazário.

Disse que este escravo devotava ódio aos senhores, e que prometera matar o primeiro e novo dono que tivesse, diziam ser transtornado das idéias.

Povo sofrido, os escravos sonhavam com a liberdade que vive tão dentro dos humanos e que por ela, tudo fariam.

Porém, apesar do aviso, estava o médico decidido a comprar o escravo, porque já dera a sua palavra e a cumpriria.

Veio então Nazário, para a sua casa assobradada, cheia de janelas que davam para o largo, em frente ao cruzeiro da cidade.

Seu serviço era na estrebaria do quintal, cuidando dos animais, carruagens, as vezes rachando lenha e cuidando do jardim.

Sempre soturno e carrancudo, Nazário era tratado como os outros escravos, com amizade e afabilidade, tanto que vinda a abolição da escravatura, alguns ficaram com a família.

Na tarde do dia 8 de fevereiro de 1879, a tragédia rondava a casa do Dr. João Dias Ferraz da Luz.
Sua esposa D. Balbina  de Barros Ferraz da Luz, encontrava-se em Pouso Alegre, visitando parentes, acompanhada de duas filhas menores.

O médico chegara mais cedo da Santa Casa de Itu, preocupado com as filhas Balbininha e Terezinha, doentes de tuberculose, devido a ingestão de vidro moído na alimentação, colocados pelos escravos.

Ao apear-se do cavalo, entregou as rédeas a Nazário que rachava lenha e perguntou-lhe se havia arranjado duas varinhas para apoio das roseiras, e seguiu em direção à casa.

Mal havia dado os primeiros passos, foi abatido a machadadas pelo escravo furioso.

Nazário correndo para dentro da casa com o machado nas mãos, abateu uma velha senhora que ali passava roupas e uma escrava que o interpelara dizendo: Que fizestes?

As duas filhas, Terezinha e Balbininha, acamadas, foram também abatidas sem piedade.

Semíramis, uma sobrinha, irmã de criação de minha avó, escondeu-se num cesto de roupas.

O escravo viu-a , ela então implorou -lhe que não a matasse e milagrosamente, conseguiu ser atendida.

Nazário correu para a rua e chegando a um boteco de esquina, bebeu aguardente, comprou cigarros, bateu no balcão e disse:
" Acabei com a família do Dr. João Dias! "

Preso, confessou cinicamente os crimes e três dias depois, o povo de Itu, reunindo-se à noitinha na Praça do Carmo, retiraram-no da cadeia, sendo linchado e seu corpo arrastado pelas ruas de Itu, pela população revoltada. (2)

Dr. João Dias Ferraz da Luz e as duas filhas foram enterrados no cemitério de uma igreja local. D. Balbina, sua esposa chegou três dias depois e já encontrou o esposo e filhas sepultados. Ficou tão traumatizada com o acontecido, que anos depois, até a sua morte, cuidada pela filha Josefina, levantava-se de madrugada, ia para o piano e tocava música clássica, árias conhecidas de óperas e operetas até altas horas.

A família abastada, seus filhos estudando, não tendo o pulso forte do pai, foram empreendendo maus negócios e ficaram reduzidos a nada e minha avó até como dona da pensão trabalhou aqui em São Paulo, para sustentar os filhos.

Contava minha avó, que certa vez, durante uma das epidemias que assolavam São Paulo, naquele tempo, carregou nos braços um negro que estava com a bexiga, pois os que o haviam vindo buscar para tratamento, não tiveram coragem de carregá-lo. Não foi infectada.

Os filhos de João Dias Ferraz da Luz casaram, vieram para São Paulo, Rio de Janeiro, e Minas Gerais e até hoje eu me pergunto, porque tanto sofrimento? Porque o ato de uma só pessoa, trouxe tanta dor e luto a uma família respeitada e bondosa como era a do Dr. João Dias Ferras da Luz?

E é tão verídica esta narrativa que minha mãe, estudante interna de favor, graças ao meu bisavô, no colégio das Irmãs de São José, que havia na Consolação, colégio que há muito não existe e que ficava onde é a igreja da Consolação; ouviu quando foi apresentada a Madre Teodora Voiron, beatificada há poucos anos pelo Papa João Paulo II, estas frases: “ Esta é a netinha do Dr. João Dias!”
“Ah, minha filha, seu avô era tão bom!”.

É o que contava mamãe.

A morte do Dr. João Dias Ferraz da Luz , não teve explicações plausíveis, permanece como uma tragédia, pois nada o desabonava, era pessoa íntegra e benquista em Itu.

Uma das explicações ou versões, é de conotação política, pois o escravo havia sido vendido com ocultação de seu feito, pela família amiga que também possuía um membro que como o Dr. João Dias se candidataria a Deputado pelo partido conservador monarquista, que ele era.

E terminando Dona Balbina e filhas mudaram-se para Pouso Alegre e viviam às expensas dos irmãos, os Barros, que eram muito conhecidos e ricos, e de uma pensão dada a funcionários federais, pois fora Deputado.

Em Itu, cidades vizinhas e quiças no Brasil, foi grande a repercussão da tragédia. É o que contava Maria, minha avó, chamada pelos familiares carinhosamente, de Mariquinha.
São Paulo , 06 de dezembro de 1997.


(1) O mais provável é que a autora esteja se referindo ao padre Pe. Miguel Corrêa Pacheco que foi pároco da Igreja Nossa Senhora da Candelária entre 1856 e 1892. Este benemérito foi o grande incentivador da vinda das irmãs de São José de Chambery da Congregação de São José para o Patrocínio.
(2) Isabel Cristine Jerônimo anexou em seu trabalho um documento com o seguinte trecho: "Com referencia ao ataque a cadea a Tribuna liberal publicou hontem o seguinte boletim: hontem as onze horas da noite cerca de 300 pessoas atacaram a cadea de Ytu a fim de apoderarem-se do oassassino da familia do dr. Joao Dias Ferraz da Luz.Os atacantes nao conseguiram o seu intento ficando porem morto o soldado de nome Antonio Franco de Oliveira. Constou por telegrama, hoje recebido, que 150 pessoas iriam armadas de novo a cadea a fim de apoderarem-se do preso. O sr dr chefe de policia conseguindo do superintendente da estrada de ferro ingleza que demorasse por alguns instantes fez para ali seguir uma forca de dez pracas e um cadete. Se nao houver muita prudencia de parte da auctoridade policial e possivel que as cousa peiorem porque a protecao legal ao assassino da familia Ferraz da Luz pode indispor mais os animos exaltados. Mantenha a auctoridade a lei mas nao pratique violencias."

O circo, a política e a segurança pública em Itu.


Todos os dias fico em frente à tv durante o jornal. Vejo os descalabros cometidos pelo crime organizado: jovens traficando e matando impunemente; e políticos extorquindo e colocando pacotes de dinheiro no bolso. A cada nova eleição, eu como todos os demais acredito e fico atônito por um tempo: analisando propostas, acompanhando gráficos coloridos e ouvindo músicas empolgantes cujo efeito tem duração certa. Depois esquecemos de tudo e seguimos em frente, até o próximo espetáculo. Qual será o político flagrado? Que traficante será preso? Um espetáculo, um circo, do qual eu não participo. Apenas fico assistindo a tv, pois neste show não há espaço para palhaço, só para fumaça e espelhos…

É assim que me sinto ao ler a tese do Dr. Gerciel Gerson de Lima e vejo assim organização criminosa chamada PCC – Primeiro Comando da Capital como um coadjuvante deste grande espetáculo pirotécnico. Aceito o convite feito no texto pelo Dr. Gerciel e permito acompanhá-lo pelo universo criminológico, onde não existem propostas, gráficos coloridos e cuja musica tem um efeito negro e prolongado.


O advogado vincula o antigo dito popular que diz que a prisão é feita para Preto, Pobre e Puta, os conhecidos três P’s, com outro que sofre igual preconceito por parte da sociedade: Penitenciária, Prisioneiro e Pena.
O circo passou, o show terminou e será que algum de nós acredita de fato que o sistema penitenciário vai mudar seu rumo histórico de profundo descaso e omissão por parte do Estado, ou consolidará ainda mais as “escolas ou faculdades do crime”? Segundo o Dr. Gerciel a problemática que envolve o sistema prisional brasileiro só tende a se agravar, o que é ele demonstra com argumentos e com números.
Apesar de todos os anos a polícia mostrar gráficos coloridos em seus balanços, é clara a situação precária da falta de investimento em prevenção. Aqui em Itu a Secretaria de Segurança do município, assim como o governo estadual o faz, prefere investir parte de sua verba em ações de força cujo resultado chegará certamente às manchetes dos jornais, abandonando as antigas políticas de patrulhamento preventivo e bases comunitárias: haviam quatro bases comunitárias da Guarda Municipal (chamadas sub-sedes) colocadas nos bairros mais problemáticos da cidade, hoje não resta nenhuma, há apenas uma viatura fazendo o patrulhamento comunitário (centro comercial da Vila Nova).

Sendo assim, por uma questão de interesse político – quanto pior melhor – nossos governantes optaram pela repressão em detrimento da prevenção. Dr. Gerciel em seu trabalho estuda a diminuição do Estado social e ressalta: “havendo criticas em qualquer iniciativa de formar-se uma rede de proteção social, promovendo alterações nas legislações que regulam o setor com clara influência de legislações internacionais, voltadas à “criminalização da pobreza” e ao encarceramento em massa.”

O douto advogado criminalista que escreveu aquela tese pondera que o “investimento no social, com raras exceções, nunca foi prioridade por parte de nossos governantes, sendo abordada geralmente quando do discurso em campanhas que visam angariar votos para a ocupação de cargos nos poderes Legislativo e Executivo”. Ele diz ainda que não vai tratar deste assunto, mas eu, palhaço que sou, não agüento e começo a sentir falta do meu remédio: do circo que me mantêm livre deste problema, assistindo minha tv, como se tudo estivesse acontecendo num mundo distante.


Os dois trechos em marrom deste texto foram baseados no conto :
“A Porta” de Mauro Siqueira publicado no site "O Bule".

- as opiniões pessoais são exclusivamente de do proprietário deste blog -


Parte deste texto foi baseado em um trecho da Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP, do Dr. Gerciel Gerson de Lima, sob orientação da Professora Doutora Ana Lúcia Sabadell da Silva do Núcleo de Estudos de Direitos Fundamentais e da Cidadania em 2009 - SISTEMA PRISIONAL PAULISTA E ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS: A PROBLEMÁTICA DO PCC – PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL.

A origem do sistema prisional paulista.


A situação de nosso sistema prisional é caótico, mas o problema se repete em outros países: havendo mais recursos existe mais respeito ao detento e em outras nações, que estão no mesmo patamar de desenvolvimento que o Brasil, a situação é por vezes muito pior. Em seu trabalho sobre o Sistema Prisional, Dr. Gerciel Gerson de Lima explica que “... a realidade atual vivenciada pelos detentos no sistema prisional brasileiro nada mais é que um reflexo concreto de seu passado...”.

O estudioso lembra que o aprisionamento confunde-se com a própria história da humanidade, mas sua finalidade inicial era a de escravizar pessoas e transformá-las em “propriedade” – era o caso dos prisioneiros de guerra: quando não eram mortos eram presos e escravizados.

Até algum tempo atrás, a prisão era apenas uma forma de evitar a fuga de um indivíduo, já que as penas variavam entre a morte, o suplício, a amputação, a perda de bens, ou trabalhos forçados, como é descrito por Loïc Wacquant em sua obra “As prisões da miséria”.

Dr. Gerciel ainda lembra que “o corpo dos supostos transgressores era o objeto principal do castigo, ou melhor, por intermédio da tortura física é que se fazia a 'justiça', sendo 'natural' a cada época a prática de métodos hoje considerados atrozes e desumanos”.

Michel Foucault narra e a pena de Damiens na França de 1.757:

[...] a pedir perdão publicamente diante da porta principal da Igreja de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado numa carroça, nu, de camisola, carregando uma tocha de cera acesa de duas libras; [em seguida], na dita carroça, na Praça de Grève, e sobre um patíbulo que aí será erguido, atenazado nos mamilos, braços, coxas, e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio , queimada com fogo de enxofre, e às partes em que será atenazado se aplicarão chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo, reduzido a cinzas, e suas cinzas lançadas ao vento.

Aqui no Brasil o caso de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, demonstra que crimes políticos também sofriam ásperas penas de tortura intensa e naquele tempo sequer haviam prisões na cidade de São Paulo. Os reclusos ficavam em lugares temporários cedidos pela municipalidade que destinava algum cômodo para manter os criminosos ou transgressores, geralmente: escravos em fuga, índios rebelados, e outros agentes que não cumpriam as normas estabelecidas. Apenas em 1.787 começou a funcionar um edifício apropriado para este fim – o prédio, de dois andares, foi instalado no largo de São Gonçalo Gonçalo, mantendo-se no primeiro andar a cadeia propriamente dita e, no segundo, a Casa de Câmara.

É interessante notar que a sociedade construiu sua primeira cadeia na expectativa de manter sob controle “uma nova geração de agentes sociais sem expectativa de futuro e/ou respaldo governamental, os quais, guardadas as devidas proporções, optavam pela criminalidade como forma de subsistência”, como nos lembra novamente o Dr. Gerciel.
O caótico sistema prisional e a natureza da população encarcerada teriam desta forma explicação em sua origem histórica, que difere apenas parcialmente da realidade vivida em outras nações.
Este texto foi baseado em um trecho da Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP, do Dr. Gerciel Gerson de Lima, sob orientação da Professora Doutora Ana Lúcia Sabadell da Silva do Núcleo de Estudos de Direitos Fundamentais e da Cidadania em 2009 - SISTEMA PRISIONAL PAULISTA E ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS: A PROBLEMÁTICA DO PCC – PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL.

A prisão: do século XVI aos Quaquers americanos.



Alguns estudiosos da História acreditam que a prisão, vista sob uma ótica relativamente moderna, tem sua origem no contexto das prisões eclesiásticas e nas casas se correição. As primeiras dizem respeito a um posicionamento da Igreja Católica no intuito de punir os religiosos que cometiam infrações, enquanto as segundas tiveram seu início a partir da segunda metade do século XVI; na Inglaterra, estas eram então conhecidas como houses of correction e bridewells; tal fenômeno também se deu na Holanda, no mesmo período, cujas denominações eram rasphuis (para homens) e spinhuis (para mulheres).1

A história da criação das houses of corrections guardam certa semelhança com o caso brasileiro, pois surgiram da necessidade de o Estado determinar lugares para a reclusão de agentes que migravam em massa do campo para as regiões metropolitanas. Fato comum ao modo de produção capitalista atual, naquele momento o mercado também não conseguia absorver toda a mão-de-obra originária do feudalismo e, dessa forma, um grande contingente de indivíduos viam-se repentinamente à margem social e, dessa forma, o crime e a mendicância supostamente eram a única via de sobrevivência.2 A comparação com o caso brasileiro também se dá no caso da migração maciça dos estados mais pobres (Norte e Nordeste) para as regiões prósperas (Sul e Sudeste) brasileiras. Marginalizados, eles passavam a habitar cortiços3, promovendo o surgimento de uma nova geração de agentes sociais sem expectativa de futuro e/ou respaldo governamental, os quais, guardadas as devidas proporções, optavam pela criminalidade como forma de subsistência.

Entretanto, a experiência inglesa em muito difere da brasileira, haja vista que, devido ao grande número de mendigos que pediam esmolas no centro de Londres, bem como em função dos ociosos e criminosos de menor periculosidade, o rei autorizou, em 1530, a utilização do castelo de Bridewell para acolhimento de tais indivíduos. A disciplina e o trabalho obrigatório eram as principais características das bridewells e seu resultado prático foi tão surpreendente que, num curto período de tempo, elas foram disseminadas por todo o território inglês, já que os trabalhos forçados e com baixa remuneração, geralmente baseados no ramo têxtil, forneciam retorno financeiro sem ônus ao regime da época.4

No contexto do surgimento dos primeiros sistemas penitenciários, destaca-se que sua origem se deu nos EUA – Estados Unidos da América, especificamente no estado da Filadélfia, num período de transição compreendido entre o final do século XVIII e início do século XIX. Nesse sistema o detento ficava isolado dos demais e a socialização se dava apenas nos momentos em que trabalhava (posteriormente foi adotada a refeição conjunta), sob a vigilância constante dos agentes encarregados de impedir qualquer contato humano entre as pessoas reclusas. A única leitura permitida era a Bíblia Sagrada e este modelo utilizado guardava estreita relação com a filosofia dos Quakers5, religiosos que praticavam o movimento do cristianismo carismático. A ideologia praticada era a de que o isolamento, aliado à leitura da Bíblia, injetava incentivo no que tange ao remorso e ao arrependimento, o que, teoricamente, era a melhor solução para a recuperação do interno que, em determinado ponto de sua vida, “desviou-se” do caminho do bem. Tal pensamento ainda pregava que o isolamento contribuía para evitar as influências maléficas inerentes ao convívio com os demais internos.6

Essa prática, nunca foi adotada no Brasil, haja vista que o sistema é substancialmente oneroso e, tornaria impraticável face ao número elevado de presos que diariamente adentram ao sistema prisional.

Este texto é um trecho da Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP, do Dr. Gerciel Gerson de Lima, sob orientação da Professora Doutora Ana Lúcia Sabadell da Silva do Núcleo de Estudos de Direitos Fundamentais e da Cidadania em 2009 - SISTEMA PRISIONAL PAULISTA E ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS: A PROBLEMÁTICA DO PCC – PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL.
1. CARVALHO FILHO, Luís Francisco. op. cit. p.22.
2. MELOSSI, Dario; PAVARINI, Massimo. Cárcere e fábrica. Rio de Janeiro: Renavan: ICC, 2006. p.34-35.
3. A denominação cortiço já não é mais utilizada na atualidade, mas há alguns anos servia para conceituar habitações coletivas de populações muito pobres. A terminologia mais atual para este substantivo masculino é favela.
4. MELOSSI, Dario; PAVARINI, Massimo. op. cit. p.36.
5. O que são os quakers. Disponível em: . Acesso em: 18 dez. 2008: um dos movimentos cristãos em que os mesmos acreditam que as formalidades externas e a aceitação de determinadas doutrinas especificas não são um pré requisito para a comunhão de Deus. Qualquer ser humano que tenha o desejo sincero de ouvir a voz de Deus dentro de si será capaz de encontrar a Deus como uma realidade viva e descobrir um significado mais profundo para sua vida. Por esse motivo, os quakers costumam falar do "Deus que há em todos os seres humanos" e da "luz interior". O Culto quaker é uma devoção silenciosa que dura uma hora. Nesse período, uma ou mais de uma pessoa pode ser impelida a dizer algumas palavras, talvez recordar uma passagem da escritura, fazer uma oração em voz alta ou compartilhar sua experiência religiosa com os outros. O amor, segundo os quakers, constitui o principio mais profundo da vida e é relevante em qualquer situação. Um ponto de vista fundamental como esse produz um sentimento de responsabilidade pelo bem estar físico e espiritual dos outros. Isso se expressa em vários tipos de trabalho assistencial, bem como em iniciativasde reformas sociais e compreensão intercultural. Os Quakers tiveram grande responsabilidade na abolição da escravatura nos Estados Unidos no século XIX, assim como na reforma dos presidios. No século XX, envolveram se em trabalhos humanitários durante as duas guerras mundiais e depois, trabalhos que foram reconhecidos quando sua igreja, a Sociedade dos Amigos, recebeu o prêmio nobel da Paz em 1947. Os quaker são sempre pacifistas.
6. CARVALHO FILHO, Luís Francisco. op. cit. p.24-25.

A culpa pelo caos do sistema prisional brasileiro.


[calculo do sistema prisional brasileiro] em sentido figurado: poucos ricos + muitos pobres = má distribuição de renda; Injustiça social + falta de oportunidades = alta incidência de criminalidade; alta incidência de crimes + déficit em número de prisões = superlotação carcerária.

Os números do DEPEN1 sobre o total de presos no Brasil, de Dezembro de 2007, divulgado no inicio de 2008, informa que são 422.590 de pessoas encarceradas, sendo pertinente observar que aí não estão inclusos os números daqueles que se encontram recolhidos em delegacias.

Observando os números de encarcerados, concluímos que a situação do sistema carcerário brasileiro é extremamente problemática, e nem é preciso um olhar mais crítico para notar que o entrave atinge gradativamente patamares mais acentuados. Diante disso, é possível compreender que as condições de vida nas prisões sofrem maior agravamento e, de acordo com Fernando Salla:

[...] seus principais componentes são: a superlotação de muitos estabelecimentos, a manutenção de práticas de torturas e maus tratos, a eclosão de rebeliões, a exiguidade dos serviços prisionais (alimentação, asseio e higiene pessoais, vestuário, assistência jurídica, programas de reabilitação, etc.), além da presença cada vez mais intensa de grupos criminosos no interior das prisões2.

Os dados são realmente preocupantes, ainda mais se levando em conta que existe um déficit muito grande de vagas no pais, apesar dos investimentos que são feitos na construção de novos estabelecimentos prisionais. O que leva a essa saturação do sistema são três itens que, somados, contribuem de forma conjunta para a problemática em questão. Primeiramente existe o fato de que o brasileiro está adentrando ao caminho da delinquência em maior número de casos; em segundo lugar, compreende-se que o aparato de repressão estatal (leia-se polícia) vem agindo com eficiência (e truculência) cada vez maior, o que fatalmente incide num número maior de detenções; por fim, a própria Justiça brasileira equivocadamente tem adotado um sistema de julgamento que procura fazer mais “justiça” do que o necessário, condenando à prisão, em muitos casos, sujeitos que praticaram crimes de baixo teor ofensivo.3

Não fica muito imperceptível que, ao condenar cidadãos à reclusão por motivos muitas vezes não tão graves ou mesmo em função de crimes famélicos, Ministério Público e magistratura estão indiretamente contribuindo para a manutenção e acirramento do problema que envolve o sistema penitenciário brasileiro, ainda mais se a ótica da situação for direcionada à questão da reincidência de presos libertos. A falta de oportunidades laborais e o estigma que atinge diretamente o condenado que cumpriu pena, não lhe deixa qualquer alternativa outra senão a de voltar a delinquir. Descarta-se aqui a necessidade de um exercício profundo de reflexão para entender que a reincidência contribui para aumentar substancialmente o problema da superlotação carcerária.

Apenas a título de promover um raciocínio crítico acerca da questão, é possível indagar a seguinte questão: - se as mazelas da prisão ocorreram “naturalmente” com presos que não estavam ligados diretamente à criminalidade, mas apenas tomaram posicionamento contrário ao status quo de determinados períodos históricos brasileiros, o que, então, há de se esperar do tratamento dado àqueles que porventura vieram a cometer algum delito? A resposta é simples. Se o Estado pouco se importava com sua imagem institucional ao deter, prender e torturar presos políticos (não se esquecendo aqui do período militar que se encerrou há poucas décadas, promovendo prisões ilegais, sem posterior julgamento ou direito de defesa), encarceramentos estes muitas vezes baseados em denúncias anônimas e sem real comprovação de “culpa”, fica de fácil absorção que o preso comum, aquele que realmente cometeu determinado crime, está fadado a con”viver” num sistema prisional retrógrado, desumano, e carente de reformas que ofereçam minimamente a dignidade ao detento.

Este texto é um trecho da Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP, do Dr. Gerciel Gerson de Lima, sob orientação da Professora Doutora Ana Lúcia Sabadell da Silva do Núcleo de Estudos de Direitos Fundamentais e da Cidadania em 2009 - SISTEMA PRISIONAL PAULISTA E ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS: A PROBLEMÁTICA DO PCC – PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL.

1. Dados consolidados do sistema prisional 2008. Disponível em: . Acesso em: 8 jul. 2008.
2. SALLA, Fernando. op. cit., 2006b. p.290.
3. Idem. p.C-1.

O sistema carcerário sempre foi deficiente no Brasil.




Um retrocesso temporal significativo permite aferir que na cidade de São Paulo, em 1829, já se apontava a convivência na cadeia de criminosos condenados e detentos aguardando julgamento. Redigido por cidadãos “probos”, um relatório da época acusava o espaço físico reduzido na prisão para o número de presos naquele período histórico, bem como o ambiente insuportavelmente abafado. Em síntese, outros relatórios posteriormente apresentados vieram a detectar que os locais onde se mantinham os detentos eram carentes de higiene; além disso, não havia assistência médica, a alimentação era escassa e de qualidade duvidosa, e o acúmulo de lixo transformava o local no exemplo mais fiel à falta de respeito para com a dignidade humana.1

Em 1841, aproximadamente doze anos após a emissão do documento, outro relatório vinha a denunciar as péssimas condições da Cadeia de São Paulo, nos mesmos moldes da análise anterior. À época, Nuto Sant’Anna apontava que:

Este estado de cousas porem não é somente indecoroso para um Estado, que alardia de Christão, e de civilizado; é mais: uma verdadeira violação do Código Penal. Ninguem negará, que elle agrava as penas legalmente impostas aos réos, far-lhes soffrer maior soma de males do que a lei respectivamente preestabeleceu para seus crimes; e esses males são o sofrimento moral, e physico de todos os momentos produsido pela impureza do ar; e dos aposentos, a deterioração da saude, e por conseguinte o encurtamento da vida dos presos, males que elles não sofririão, si o estado das Prizões fosse tal, como a Razão, a Constituição o prescrevem, entretanto não é licito (Cód. Crim. art. 33) que um crime seja punido com penas diversas, ou maiores do que as para elle estiverem decretadas.2

Evidencia-se, daí, que o sistema prisional brasileiro já teve seu início sem a devida preocupação para com a dignidade do detento e, também, completamente descompromissado com a questão condizente à ressocialização. Não é de se surpreender que a prática de “armazenar” indivíduos sem o menor compromisso e suporte do Estado, pode ter criado o estigma de que o preso é “escória” e, como tal, assim deve ser tratado no ambiente prisional.

Para uma melhor elucidação sobre a manutenção conjunta de presos com e sem condenações, cabe aqui explicar que os presos são aqueles que ainda estão confinados enquanto aguardam que o delito praticado seja devidamente apurado e a sentença seja emitida. Já, a terminologia condenados refere-se aos que foram julgados e contra eles já foi emitida uma sentença definitiva, devendo tais agentes cumprir a pena nos moldes estabelecidos pelo juiz/norma penal.3

[...] Tem-se que a historicidade do sistema prisional brasileiro é permeada pelo descaso, mas tal fenômeno merece ser devidamente vinculado à questão social no Brasil. [...] a prisão é para pobres, pois é de domínio público que neste país é raro alguém com alto poder aquisitivo sofrer as mazelas inerentes ao sistema carcerário brasileiro. Se a prisão é para pobres, há que se inferir que a problemática gira em torno da má distribuição de renda, que ocorre desde a época do Brasil Colônia. Aliás, este território já teve sua colonização com fins exclusivamente exploratórios, o que desde o princípio já criou uma grande lacuna nos centros de poder e desembocou num abismo significativo entre os mais ricos e os menos favorecidos.

Este texto é um trecho da Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP, do Dr. Gerciel Gerson de Lima, sob orientação da Professora Doutora Ana Lúcia Sabadell da Silva do Núcleo de Estudos de Direitos Fundamentais e da Cidadania em 2009 - SISTEMA PRISIONAL PAULISTA EORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS: A PROBLEMÁTICA DO PCC – PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL.

1. SALLA, Fernando. op. cit., 2006a. p.48-49.
2. Apud. SALLA, Fernando. op. cit., 2006a. p.58-59.
3. THOMPSON, Augusto. A questão penitenciária. Rio de Janeiro: Forense, 1991. p.97.

A prisão do irmão Preto em 2008.


Eles são eles, nós somos nós. A verdade é algo deve existir entre o branco e o preto, pois existem vários tons de cinza, não existem? Então como ver a verdade entre o que dizemos e o que eles dizem?
A justiça feita pelo sistema abomina aquilo em que nós acreditamos. O paraíso apregoado por aqueles que fazem as leis é contra tudo o que acreditamos desde que nos conhecemos por gente, onde está então o branco, o preto e principalmente o cinza?
Mas se queremos crer que existem tons de cinza temos que acreditar que não existam: o certo ou o errado; e a verdade ou a mentira. Então como conciliar...

Os policiais declararam que lá chegaram depois que várias ligações anônimas que foram feitas para o Disque Denúncia da Polícia Militar, mas nós acreditamos que aqueles policiais queriam mesmo era incriminar Júlio César, o Preto, e por isso criaram toda aquela situação.

Eles disseram que Júlio César quando viu a viatura da polícia foi para dentro do portão de sua casa e se recusou a sair,segurando na grade e lutando, mas nós acreditamos que ele já estava dentro de casa e enquanto tentava destrancar o portão para atender o pedido, os PMs forçaram o portão botando-o abaixo.

Eles disseram que Júlio César atiçou seu cão da raça pitbull contra eles, mas nós acreditamos que aquele cachorrinho é doce e que até brincou com os policiais.

Enfim, não acreditamos no que declararam os policiais que naquele dia 30 de julho de 2008 invadiram a casa de Preto na Vila São José e alegaram que encontraram naquele local trinta gramas de maconha e sessenta e sete porções de crack.



Acreditamos sim que tudo foi como Júlio César declarou:
Ele havia acabado de chegar de seu trabalho quando em frente ao portão de sua casa uma viatura da Polícia Militar com um menor no seu corró, e que o garoto de fato fazia suas correrias em uma biqueira localizada ali na esquina de sua casa, mas ele nada tinha a ver com isso. Quando foi abrir o portão os policiais forçaram-no e este veio a cair e machucar um policial. Por sinal os policiais estavam era com perseguição com o menor que já tinha sido pego naquela semana.

Os policiais foram claros e unânimes e disseram que toda a droga estava dentro da casa de Preto, mas ele nega e explicou à Juíza Drª. Andrea Ribeiro Borges que na realidade é que a casa em que ele mora dá fundos para com a que o garoto que estava com os policiais morava, e lá de fato era uma biqueira, e foi de lá que os policiais tiraram a tal droga. Júlio até disse para que o menor assumir tudo, mas qual o quê.

A verdade de uns é tão diferente da verdade de outros, então fica muito difícil de saber onde de fato ela está, mas os policiais tinham um trunfo: a coerência de suas declarações.

Júlio César também tinha dois trunfos e jogou-os: ele estava conversando na frente de sua casa com Alexandre que lhe vendia roupas trazidas da região do Brás em São Paulo; e também o menor que foi preso ali na esquina.

Preto e Branco – onde estarão os tons de cinza?

Alexandre que era uma das esperanças de Júlio César acabou mais prejudicando que ajudando, pois declarou que estavam fora no momento da abordagem dos policiais, diferentemente do que seu cliente tinha dito, também disse que os policiais queriam entrar na casa e Júlio se negou a deixar... ops, falhou de novo. A outra esperança da defesa de Júlio César era o tal menor que teria sido preso, mas ninguém o viu e ninguém sabe quem é o tal garoto.

A juíza então não teve dúvida, condenou Júlio César a mais de dez anos de prisão por tráfico, resistência e lesão corporal. Ela não acreditou ao contrário de nós nas palavras de Júlio César, mas convenhamos que a história contada por ele estava um pouco difícil de acreditar.

Mas será que não foi puro preconceito contra Júlio César que fez com que aquela juíza não levasse em consideração outras alternativas para a declaração dos policiais? Eles são eles, nós somos nós. A verdade é algo deve existir entre o branco e o preto, pois existem vários tons de cinza, não existem? Então como ver a verdade entre o que dizemos e o que eles dizem?

Será que não era verdade que as drogas estavam na casa localizada no fundo de sua residência e que Júlio César é quem passava as drogas por cima do muro para abastecer aquela biqueira? O Alexandre tinha dez reais no bolso, e o preço da parada é dez reais, pode ser que... Bem... deixa para lá, afinal estas teorias não o ajudariam muito.

Talvez seja melhor não procurar os tons de cinza, deixa o mundo continuar preto e branco, afinal aqui é Brasil e apesar de condenado a dez anos, não se passaram mais que quatro e ele já está livre, e olha que haviam outras condenações em outros processos.

Um passeio pelas biqueiras do Jardim Vitória em Itu.


É interessante o inverno paulista, onde o sol brilha ardido, faz com que os olhos fechem por mais atento que a pessoa esteja — e naquele dia nem era o meu caso. Meu colega estava próximo a viatura e eu estava preenchendo um talão de ocorrências. Isso foi pouco depois de voltarmos do almoço pela base operacional.

Por instantes fiquei com o olhar perdido ao longe. Estávamos em um local próximo ao Jardim Vitória, talvez o principal ponto de distribuição de drogas na cidade de Itu. Além da venda no varejo, as biqueiras do bairro também fornecem para outros pontos da cidade. Júlio César, o Preto é o irmão maior da cidade (PCC) e lá é sua base.

Naquele momento este não era um problema para mim. Já fazia muito de ficar de olhos abertos o suficiente para conseguir completar aquele talão antes que fossemos chamados para outra ocorrência, o que não tardaria a acontecer. Mas algo me chamou a atenção, eu conhecia aquele rapaz que descia aquela rua próxima ao córrego, era o Dayvison.

Com efeito, todas as pessoas sabem através da inteligência, que é através dos sentidos que os seres recebem os dados que a mente trabalha transformando em pensamentos. Os olhos e ouvidos são as janelas para o infinito, e Dayvison Domingos Sevandija as utilizava exatamente para isso. Enquanto andava olhava para lá, para o infinito, devaneando sobre Deus ou sabe-se lá o quê. Esse era o Dayvisonzinho que eu conhecia.

Ele era um profissional como poucos, ficando horas debruçado sobre uma imagem que tinha que ser trabalhada no Photoshop, atento aos mínimos detalhes e chegando sempre na melhor solução para os pedidos dos clientes. Por outro lado seria ridículo não admitir que ele não tinha o menor tirocínio, ao certo não tinha ideia do perigo que corria ou de onde estava se metendo.

Estava agora passando em frente a casa da Rua Zumbi, no qual morava, Marcelo, que depois mudou-se para a Rua Miguel Arcanjo Dutra. Lembro-me que o chefe do tráfico, o Júlio César, estava desconfiado que ele podia estar trapaceando. Não sei no que deu, devem ter se acertado...

Mesmo preso Júlio César garantiu certa vez ao Bola de Fogo: “... os problemas meu mano, aos trancos e barrancos eu mesmo resolvo cara, ou...”. Nesta mesma conversa Bola de Fogo falou para Julio que ele era o sintonia da cidade – o irmão do PCC responsável pela disciplina em uma determinada região.

Mas Júlio César faz a sua própria disciplina, mesmo preso.

Passou, perco-o de vista, mas entra na Rua Treze de Outubro, a rua onde Anselmo, conhecido como Lázaro (sabe-se lá o por quê), morava, ou talvez ainda more. Ouve certa vez uma investigação envolvendo ele com Keiti, o irmão Japa (PCC), com quem ele pegava grande quantidade de drogas.

Na época Japa estava em São Mateus na Grande São Paulo, hoje vive em um presídio, Avaré se não me falha a memória, mas isso também não interessa. Pronto, lá vai Dayvison, seguindo em direção ao Jardim das Rosas. Talvez quem sabe, a próxima vez que encontrar com ele lhe diga para não olhar tanto para o infinito ou nem tanto para seu ser interior, e prestar mais atenção nos perigos que o rodeiam.

Chefe do PCC aconselha prudência ao seu filho.


Respeitar ao pai e a mãe é um dos fundamentos da cristandade, mas hoje em dia não é assim, muitos filhos ignoram os sábios conselhos de seus pais, preferindo agir por suas próprias razões, acreditando muito mais em amigos e no que vêem na televisão do que nas palavras de seus próximos.

Deus em seu livro sagrado repete diversas passagens onde filhos não seguem os conselhos de seus pais e as conseqüências. Se não por respeito aos mandamentos da lei de Deus, pelo menos por respeito à inteligência um jovem deve ouvir a seus pais.

O rei Salomão, um dos homens mais sábios de toda história bíblica insistia aos seus rebentos que deviam segui os ensinamentos de sua mãe: “porque eles serão uma grinalda de graça para tua cabeça, e colares para teu pescoço. Filho meu, se os pecadores te quiserem seduzir não consintas.” Outro conselho de Salomão: “filho meu, não te esqueças da minha instrução, e o teu coração guarde os meus mandamentos; porque eles te darão lonjura de dias, e anos de vida e paz.

É isso que Júlio César dos Santos, o Preto, espera para seu filho. Ele que é o chefe do trafico de drogas na região do Jardim Vitória com ramificações em diversos outros pontos da cidade de Itu, vem milênios depois de Salomão, por celular de dentro de um presídio também dá conselhos para seu filho:

“Aí, a fita é o seguinte mano, se liga só na fita, você não tem tempo não mano, para curtir não. Procura ganhar um dinheiro, daqui uns dias aí, vai estar guardando dinheiro no banco, comprando um carro, reformando sua casa, ou construindo uma casa aí no fundo para você, entendeu mano.”

Júlio César sabe que a vida no tráfico é complicada, e o futuro é incerto. Ele tenta convencer seu garoto a construir um futuro sólido, que o livre de depender do tráfico. Conta que: “tô desde 1992 longe da quebrada, tá ligado mano? Seis passagens, mais tranca cara do que praticamente solto mano. Agora deu uma normatizada e tem uns aparelhinhos aqui... Tem uma tela dentro da cela, tá ligado? Tô sozinho dentro duma cela pequenininha. Oh, o barato entra dia, sai dia...”

Este homem é considerado um líder por dezenas de soldados do tráfico, é um dos chefes do PCC de Itu, mas ele mesmo descreve sua vida de maneira triste. Será, se ele tivesse condições não preferia ter para si e para os seus um outro destino?

Sua família está envolvida com o tráfico, ele mesmo reafirma diversas vezes, mas para seu filho ele indica a construção de um patrimônio sólido. Talvez, quem sabe, mas é difícil que não tenha o mesmo destino que o pai.

O garoto respondeu a Júlio César: “Essa é minha intenção, aí ó!” De boas intenções o inferno está cheio, tanto que Roboão, o filho de Salomão também queria seguir os sábios exemplos do pai, mas após a morte do rei se aconselhou com seus amigos e acabou perdendo metade de seu reino.

A central de distribução de drogas do PCC em Itu.


Já estava dia claro, mas em minha lembrança era uma escura manhã cheia de medo e terror. A família do moto-boy jundiaiense Paulo Rogério, morador da edícula, jurava aos policiais que nunca tinha percebido nenhum movimento estranho na casa da frente. O frio metal das armas dos policias contaminaram suas faces quando deram ordens para que todos não saíssem da casa e fizessem silêncio.

Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009. 10:25
Bem nítido em minha memória está a cena daquela casa cercada de policiais. Um deles bate à porta. Chama e apenas o silêncio responde. Dentro da casa estavam a ribeiropretana Juliana de 24 anos e um adolescente.

O rapaz contará depois na polícia que namorava com Juliana há um mês, tendo-a conhecido numa balada no Clube Comerciários. Na noite anterior ele estava com a garota em um barzinho e como não podiam ir para um hotel, visto que ele era menor de idade, um homem que ele não conhecia lhe emprestou as chaves daquela casa para passarem a noite.

A mãe o havia mandado “tomar seu rumo porque era muito madurinho” para ficar em sua casa, e ele que já fazia seus bicos de pintura não pensou duas vezes, indo morar em um apartamento com sua amiga Jassiara, e só naquela noite só foi dormir naquela casa onde os policiais o encontraram.

Os agentes da segurança pública disseram que após baterem na porta e não obterem resposta, arrombaram-na, cumprindo um mandado judicial assinado pelo Dr. Hélio Villaça Furukawa. Ao entrar encontraram Juliana, também conhecida como Loira, nua deitada na cama. O rapaz ao ver a movimentação correu para o banheiro – segundo ele porque achou que era um assalto.

No interior da casa foram encontrados pela polícia:

• Um revólver canela seca Taurus calibre 38 com numeração raspada e 16 cartuchos íntegros;
• um caderno contendo anotações referentes ao tráfico e ao PCC;
• 460 gramas de cocaína em 295 tubetes;
• 2 tijolos de meio quilo de crack;
• 2 tijolos de um quilo de cocaína;
• 2 tijolos de um quilo de maconha;
• um liquidificador industrial Metvisa com vestígios de cocaína;
duas balanças digitais: uma Toledo para 15kg, e outra Diamond de 0,1g à 500g;
• diversos aparelhos celulares; e
• demais materiais para embalagem de drogas.

O Dr. José Moreira Barbosa Netto, delegado do 2º DP de Itu,coroou com êxito esta operação há muito planejada, e não se comoveu com a história contada pelo casalzinho, que dizia estar ali apenas por acaso.

O policial militar que participou com os policiais civis da operação contou que Juliana ainda lhe ofereceu propina, que seria trazida por uma mulher vindo da cidade de Araçariguama, mas ela não sabia que a ajuda jamais chegaria, pois um outro mandato estava sendo cumprindo naquele mesmo momento naquela cidade.

Juliana que havia cumprindo prisão por tráfico de drogas havia recebido a liberdade há menos de quatro meses antes, e foi trazida para Itu pela gerente do tráfico, Cleonice, para supervisionar as operações locais. O rapaz apesar da pouca idade é um velho conhecido da polícia e era responsável pela distribuição das drogas na região central.

O promotor de justiça Dr. Alexandre Augusto Ricci de Souza, conta que a investigação começou um ano antes da invasão policial, focando suas atenções no esquema de tráfico cuja base ficava no Jardim Vitória e era comandado por Júlio César, conhecido no mundo do crime como Preto.

Estava claro, que a família do moto-boy jundiaiense Paulo Rogério que morava na edícula, não tinha nenhuma ligação com o mundo do crime. Também é certo que não é verdade que nunca tinha percebido nenhum movimento estranho na casa da frente, mas o medo do frio metal das armas daqueles policias nada era em comparação com o verdadeiro terror que é ter que conviver ao lado do Primeiro Comando da Capital, cuja ordem de silêncio será obedecida até o túmulo, por Paulo Rogério e sua família.

O tráfico no Jardim Novo Itu e na Favela do Issac.


Acompanhei aquele homem ao Inferno, e como Dante Alighieri já havia reparado a descida às profundezas foi fácil, mas assim como ele, eu vi que o difícil seria retornar ao mundo dos vivos.

Júlio César, o Preto, meu companheiro de viagem é hoje um vencedor, governando do Inferno o mundo dos vivos. A Penitenciária de Avaré é o seu lar, e ele é um rei num vale de lágrimas.

Júlio César é um exemplo de sucesso, e se poucos sabem sobre a abrangência e a força do PCC que ele lidera, não é por ser segredo, mas por que ninguém quer ver. Às vezes sinto como se a facção criminosa fosse um espírito invisível, mas até entendo o por quê: se Deus e o Diabo com todo o poder que têm são ignorados como se não existissem, quem dirá o PCC de Itu.

Ouvi outro dia um senhor, que trabalha naquele bonito prédio da Gaplan no Jardim Novo Itu dizer que a Guarda Civil Municipal deveria prender aqueles moleques que se drogavam e comercializavam drogas no grande terreno por lá, e sugeria inclusive à ação tática que deveria ser usada.

Era mais ou menos assim: ...se vocês invadirem por todos os lados, os nóias serão encurralados no centro e pronto, todo mundo preso.


Acho que ele não percebeu que o problema é um pouco mais complexo, e que aqueles garotos nada mais são que usuários e aviõezinhos do tráfico. Se fossem presos, na mesma tarde outros estariam em seus lugares.

Aquela região abrangendo o Jardim Novo Itu, Favela do Isaac, e Bairro Liberdade, foi comprada por R$ 10.000,00, pago à prestação por João Carlos, o Bola de Fogo ou Gordinho, de Júlio César.

O bonito apelido de Bola de Fogo foi escolhido por sua mulher Aline, quando em 18/11/08 foi ele foi batizado no PCC, após passar pela prova de fidelidade ao assassinar um cara conhecido como Thiago.

Da janela daquele bonito prédio, aquele senhor não vê Bola de Fogo, no máximo pode ver algumas fagulhas. Muito menos veria Júlio César, quem abastece as drogas e vendeu o direito exclusivo de venda na região.

O poder que Bola de Fogo recebeu de Júlio César não se restringe apenas ao comércio. Ele conquistou o direito de controlar a disciplina na cidade. Eu tinha minhas dúvidas quanto a isso, mas um dia ouvi Júlio César perguntar ao Bola de Fogo quem era que estava na sintonia da cidade e o outro respondeu: “É eu que sou o geral aqui mano”.
                                            
O guarda não quis falar nada não, mas aquele senhor, em seu prédio de vidro vive em um mundo de fantasia. Quem controla não só a região de seu prédio, mas toda a cidade é o Bola de Fogo. É só pedir para ele que os nóias sairão de lá.

Todos estavam contentes com a nova administração feita por Bola de Fogo na distribuição de drogas na região, afinal ele batalhava para não deixar seus fregueses na mão. Um dia desses ele mandou uns moleques buscarem drogas que estavam em falta no estoque da Favela do Isaac.

Quando chegaram no Jardim Vitória para pegar encontraram as portas fechadas, sem ninguém para atender. Bola de Fogo não teve dúvidas, ligou direto para o patrão, lá na Penitenciária de Avaré.

Júlio César também aconselha ao seu afiliado: Se estrutura no barato aí mano é a maior satisfação pra mim mano, amanhã ou depois é ver você estruturado aí mano, se eu chegar em você e falar pô, empresta uma arma pra mim, pra eu sair fora desse inferno aqui cara e você me emprestar é a maior satisfação ver você lindo e elegante, mantendo as caminhadas e indo pra cima da situação, ter a organização mano, os moleques que tão do seu lado tem que tê bala na agulha de verdade mesmo.”

Acompanhei Júlio César ao Inferno, a descida às profundezas foi fácil, difícil está sendo nosso retorno ao mundo dos vivos. Bola de Fogo, que confiamos para isso está preso desde 21/08/09 na Penitenciária de Casa Branca.

Não sei se aquele senhor do prédio bonito acredita em Deus e no Diabo, afinal são invisíveis, mas não arrisque pensar ele que Júlio César e Bola de Fogo só existem na minha imaginação, ou que só por não estarem de corpo presente, seus espíritos não possam assombrá-lo por aqui.

E prova disso é que apesar dos diversos processos e diversas condenações, Júlio César já anda entre os homens livres, enquanto eu continuo por aqui, em busca de entender esta sociedade, e dos senhores que estão aí achando que estão livres, mas ficam pressos em seus medos e reféns destes verdadeiros senhores dos seus destinos.

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A pacificação do PCC em São Paulo A facção paulista, o delegado e o investipol Juro que vi uma discussão entre um delegado de polícia...