Um passeio pelas biqueiras do Jardim Vitória em Itu.


É interessante o inverno paulista, onde o sol brilha ardido, faz com que os olhos fechem por mais atento que a pessoa esteja — e naquele dia nem era o meu caso. Meu colega estava próximo a viatura e eu estava preenchendo um talão de ocorrências. Isso foi pouco depois de voltarmos do almoço pela base operacional.

Por instantes fiquei com o olhar perdido ao longe. Estávamos em um local próximo ao Jardim Vitória, talvez o principal ponto de distribuição de drogas na cidade de Itu. Além da venda no varejo, as biqueiras do bairro também fornecem para outros pontos da cidade. Júlio César, o Preto é o irmão maior da cidade (PCC) e lá é sua base.

Naquele momento este não era um problema para mim. Já fazia muito de ficar de olhos abertos o suficiente para conseguir completar aquele talão antes que fossemos chamados para outra ocorrência, o que não tardaria a acontecer. Mas algo me chamou a atenção, eu conhecia aquele rapaz que descia aquela rua próxima ao córrego, era o Dayvison.

Com efeito, todas as pessoas sabem através da inteligência, que é através dos sentidos que os seres recebem os dados que a mente trabalha transformando em pensamentos. Os olhos e ouvidos são as janelas para o infinito, e Dayvison Domingos Sevandija as utilizava exatamente para isso. Enquanto andava olhava para lá, para o infinito, devaneando sobre Deus ou sabe-se lá o quê. Esse era o Dayvisonzinho que eu conhecia.

Ele era um profissional como poucos, ficando horas debruçado sobre uma imagem que tinha que ser trabalhada no Photoshop, atento aos mínimos detalhes e chegando sempre na melhor solução para os pedidos dos clientes. Por outro lado seria ridículo não admitir que ele não tinha o menor tirocínio, ao certo não tinha ideia do perigo que corria ou de onde estava se metendo.

Estava agora passando em frente a casa da Rua Zumbi, no qual morava, Marcelo, que depois mudou-se para a Rua Miguel Arcanjo Dutra. Lembro-me que o chefe do tráfico, o Júlio César, estava desconfiado que ele podia estar trapaceando. Não sei no que deu, devem ter se acertado...

Mesmo preso Júlio César garantiu certa vez ao Bola de Fogo: “... os problemas meu mano, aos trancos e barrancos eu mesmo resolvo cara, ou...”. Nesta mesma conversa Bola de Fogo falou para Julio que ele era o sintonia da cidade – o irmão do PCC responsável pela disciplina em uma determinada região.

Mas Júlio César faz a sua própria disciplina, mesmo preso.

Passou, perco-o de vista, mas entra na Rua Treze de Outubro, a rua onde Anselmo, conhecido como Lázaro (sabe-se lá o por quê), morava, ou talvez ainda more. Ouve certa vez uma investigação envolvendo ele com Keiti, o irmão Japa (PCC), com quem ele pegava grande quantidade de drogas.

Na época Japa estava em São Mateus na Grande São Paulo, hoje vive em um presídio, Avaré se não me falha a memória, mas isso também não interessa. Pronto, lá vai Dayvison, seguindo em direção ao Jardim das Rosas. Talvez quem sabe, a próxima vez que encontrar com ele lhe diga para não olhar tanto para o infinito ou nem tanto para seu ser interior, e prestar mais atenção nos perigos que o rodeiam.

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