Acerto de contas no Primeiro Comando da Capital.

Eu sabia que não devia ter me metido naquela enrascada. Sempre disse que vira-latas não se mete em briga de pit-bull, mas falar é fácil, e eu entrei naquele assunto para o qual não tinha sido chamado. Não podia dar outra coisa, dancei.

Desmaiei pouco tempo depois de começar a chutes de todos os lados. Primeiro aquela dor indescritível, minha cabeça voava de um lado para outro, eu ainda sentia isso, não tinha perdido totalmente a consiência. Não procurarei definir, ou descrever o que restava dela. Não era sonho, delírio, desfalecimento ou morte. Havia dor e imobilidade.

Sentia meu sangue quente fluir pelo meu nariz e escorre pelo meu rosto. O gosto do sangue agora era o único que sentia. Sei que respirava, pois a cada inspiração havia muita dor, minhas costelas pareciam facas aguçadas querendo chegar cada vez mais fundo em meus pulmões. Pronto, fui apresentado ao PCC, eu sabia disso.
Em meio a morte, em meio aquela teia de sonhos e alucinações acredito ter ouvido conversas, vozes que contavam histórias e discutiam seus assuntos como se eu não estivesse ali. Talvez imaginassem que eu não sobreviveria, ou talvez só estivessem esperando minha morte para poderem ir embora com a certeza da missão cumprida.
― Endendeu, eu acredito que você vai fazer o que é certo, o que se achá que é certo, entendeu irmão e, tou fechando junto e, é isso. Entendeu, por que tá demais, o mole que ta demais mesmo, né meu a gente sabe que a gente tem certo limite, pra fazer as coisas, mas tem uns caras que tiram da linha, esse daí é o tipo que tira da linha. Eu vi ele trabalhando com o irmão Neizinho, ele tá trabalhando sim. Ta inclusive eu te liguei irmão, por que é o seguinte, tem um outro menino lá que ta trabalhando pro irmão Neizinho. Que é o Maicon, não sei se você já ouviu falar. Outro dia foi numa biqueira aí irmão e pegou lá parece um quilo de mercadoria lá no nome do irmão Pimenta, entendeu, moleque? Sem o conhecimento do irmão, moleque? – falou Luiz Carlos do Nascimento, o irmão Piloto.

― Vai vendo. – respondeu o outro.

― Até uns dias atrás ele trabalhava com o irmão Neizinho. Então é um problema, viu, esses meninos, esses funcionários do irmão Neizinho. Aí moleque. Não, e essa aí é grave, pô, que o movimento ta muito descabeçado lá moleque. – falou piloto.

― Então ta usando o nome do irmão aí, colocando o irmão em BO, aí. – concordou o outro.

― Entendeu irmão. Aí amanhã eu pego o irmão, eu coloco ele na linha pá nóis podê trocar uma idéia, e aí, cê faz uma viagem só prá lá, já vai e já explica o bê-á-bá prá eles irmão, vê o que eles querem né irmão. Por que pelo simples fato deles estar todos eles trabalhando com o irmão, pô eles tão totalmente errados... Mas corre com o irmão então tem que ser no mínimo o bem comportado. Sê viu o outro empregado do Neizinho, o Fuscão, as caminhadas erradas que ele seguiu, num sabe?... – continuava Piloto.

Sabia eu que os dois falavam a respeito dos problemas das biqueiras de Salto, Maicon pegando mercado sem autorização de Pimenta. Ouvi também Piloto dizendo para Edson Rogério França, o irmão Cara de Bola alguma coisa, mas sei como este respondeu:
― Aí o cara, já foi pondo o dedo no peito do “M”, aí o bagulho ficou louco. (Marcelo José Marques, o Tio ou “M”)

― Aí imagino né, não. – Piloto.

― Aí soco prá lá, soco prá cá, aí os seguranças rápido já fecho, já fui embora também irmão.
Acho que eles falavam sobre o Fuscão que estava no hospital mando de Cara de Bola, não tinha adiantado o cara dizer que tinha um salve passado por Sandro no papel. Piloto e Cara de Bola estavam em ordem com a família, Bad Boy estava morto, Fuscão tinha tido sua lição, e eu não sabia onde estava.
Sei que o corvo sobe para quem está com a situação, e que volta cobrar com quem fechou a caixinha em atraso. Sobrevivi, narrei aqui o que vi e senti naquela noite, hoje já não pertenço àquele mundo, do qual fui brutalmente tirado, e mesmo se quisesse não mais poderia voltar a pertencer.

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