"O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia."(Millôr Fernandes)

Assassinato no Portal do Éden - Polícia ou PCC?


A justiça é a busca constante do equilíbrio, podemos ver sua face de maneira clara quando dois ou mais lados de uma mesma contenda se unem para comemorar juntos um fato, e assim ocorreu com a brutal morte de Sérgio Pereira da Silva, o "Nei do Portal do Éden".
A população do Portal do Éden temia e com razão aquele rapaz que gostava de provar sua coragem enfrentando a todos e querendo impor sua vontade como a única verdade. Mas o que poucos sabiam é que a cada dia que nascia ele perdia um pouco sua força.
A comunidade onde o tráfico está enraizado pode dar a ele a segurança e a proteção da qual precisa para sobrepujar a lei, ocultando-se, transformando sua luta em uma questão social e fazendo que aqueles que são perseguidos pela lei passem a ser vistos como dignos de ajuda.
Nei desprezava o apoio da população, era muito superior à ela, que se esconde em suas frágeis residências em busca de proteção como baratas que fogem da luz. Ele não, ele era a luz, ele era o poder, mas Nei não viu que sua luz estava ofuscando a si mesmo.

Um homem chorou. Olhava para seus filhos e para sua mulher. Ele não podia mais viver como um rato, pois era um homem trabalhador, esforçado, comerciante, honesto, e agora era obrigado a guardar drogas em sua casa, no quarto das crianças. Era a vez dele, já tinha sido de outros, mas ninguém podia contra Nei.
Ao bancar o destemido, e sabendo-se cada vez mais invencível pisava naquelas baratas que o rodeavam. Sua morte foi comemorada por muitas (não poucas, mas nem todas) famílias do Portal do Éden e da Cidade Nova. Nei precisava ser morto, mas será que comerciantes chegaram a contratar assassinos para executá-lo? Possível!

Mesmo outros traficantes da região da Cidade Nova estavam tendo problemas com ele. Coragem e ousadia é o que não faltaram à ele quando atacou à tiros dois pontos de vendas, um próximo ao sua base e outro na outra ponta da região do Pira. E o pior, os caras não estavam entendendo nada, foi de graça, Nei estava arriscando cada vez mais.

Acreditando-se superior, sua célula autorizada pelo PCC, Primeiro Comando da Capital, atuava independente, sem vínculos com outras células da Cidade Nova que temiam a ousadia e a forma de agir de Nei, que agora colocou a gota que transbordou o copo...
Madrugada de 26 de fevereiro de 2012
– Portal do Éden -
Uma dezena de viaturas da Polícia Militar e da Guarda Civil Municipal estão nas ruas do bairro. Um policial militar foi ferido quando sua viatura estava em patrulhamento pelo bairro. A princípio as informações eram desencontradas, falavasse de uma moto com dois indivíduos acompanhados por um veículo com mais dois; outros falavam que além deles existiriam garotos de tocaia atirando nas viaturas que passavam em diversos pontos do bairro. As versões iniciais eram muitas, mas todos podiam garantir que Nei era quem estava no comando.

O que teria ele tentado agora? Uns dizem que trombaram com a viatura ao acaso, outros que estavam fugindo de uma tentativa de rapto frustrada no Condomínio City Castello, além de várias outras versões. O certo é que agora não tinha volta, ele era Deus, ele atirou em polícia, todos sabiam mas ninguém poderia provar.Onipresente, onisciente e acima da lei.
Sua bravata no entanto colocou em risco a tênue linha que separa os campos infernais. E os líderes da facção não poderiam correr o risco. Se uma guerra começasse entre as forças policiais e o tráfico, muitos irmãos e seus moleques morreriam. O dinheiro, Senhor Supremo da vontade dos homens, deixaria de fluir. Nei precisava ser morto, mas será que chegaram a dar a ordem para calar Nei? Possível!
Um policial foi ferido e todos sabiam quem disparou. Não era a primeira vez, não seria a última e ele prometeu aos quatro ventos que mataria e pisaria nos vermes. Ele era o Nei, ele era aquele que a lei teme, ele fazia as leis e os outros cumpririam. Os vermes se arrastariam aos seus pés, mas Nei não perguntou se estes aceitariam viver sob seu julgo. A morte do traficante foi uma execução perfeita, executada por profissionais competentes. Nei precisava ser morto, mas será que policiais chegaram a orquestrar a sua morte? Possível.
O que se sabe ao certo é que Nei foi um dos mais destemidos ladrões e traficantes de Itu. Sua coragem e força talvez fossem apenas uma forma de esconder o medo que sentia, mas talvez não, e se assim o for, a cidade acaba de perder um verdadeiro filho das trevas, que agora está de volta ao seu verdadeiro lar, e por lá quem sabe não contará entre uma cerveja e outra suas aventuras aqui na Terra, até o dia em que foi morto com quinze tiros na rua dois, ironicamente, do bairro chamado Portal do Éden.

E mais irônico é que apesar de tudo a versão mais falada no bairro é que Nei fez um assalto com mais dois comparsas, e achou que era o bom e não quis dividir por igual o dinheiro. Bom, então ficou com tudo o que queria mais um pouco...

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