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Padre Miguel Corrêa Pacheco e o caso do capitão.

Um colega indagou-me do destino de um documento que citei aqui. Esclarecerei relatando a história tal qual me chegou, contada por Francisco Pereira Motta (filho). Anos se passaram, mas seu relato foi marcante:
Francisco Pereira Motta (pai) não pediu aquilo a Deus, mas pelo segundo dia consecutivo a neblina era uma cortina branca e densa. Era madrugada na margem do córrego Boa Vista na fazenda Piraí em Itu, onde passou várias noites oculto aguardando aquele dia.

Acreditava que estava seguro com segredo do qual era guardião, mas recebeu um recado inesperado: deveria se encontrar com o padre Miguel próximo da entrada da fazenda Vassoural. A mensagem não deixava dúvidas que Pe. Miguel Corrêa Pacheco sabia do segredo.

Talvez, como ele próprio, o religioso estivesse aflito, afinal conhecia a natureza de seu caráter: justo e de mansa índole. Provavelmente este também estava se preparando para sair naquele momento sem chamar a atenção dos liberais.

Francisco celou as montarias e chamou o capataz, só um louco enfrentaria os republicanos ituanos sozinho, mas protegidos pela densa neblina e pelo frio da madrugada estariam a salvo.

Em terras da Fazenda Jurumirim, próximos do córrego Bananeira, Francisco sua espinha congelou-se. Desmontaram, e aproveitando a densa neblina seguiu sorrateiramente até uma tropa que lá estava. Não precisou ouvir muito para perceber que seria vítima de uma emboscada.

Voltou para junto de seu companheiro e de suas montarias. Seu pai foi escolhido por Pe. Braz Luiz de Pinna para guardar a verdade envolvendo a morte do capitão Antônio Correa Pacheco, e ele honraria esta confiança. Se os republicanos interceptaram a mensagem talvez Pe. Miguel já estivesse morto ou em perigo, mas segue em frente.

Passaram pela entrada da fazenda Vassoural sem encontrá-lo. Chegando ao cume do último morro antes do vale do córrego do Taboão ouviu o som de um sininho aproximando-se. Após a curva descortinou-se a cidade e vindo pela estrada um coroinha carregando uma pequena campaninha, seguido de Pe. Miguel, que caminhava protegido por uma umbela carregada pelo sacristão.

Não podia ser mais singelo o artifício armado pelo astucioso padre. Os republicanos ridicularizavam-no pelo seu jeito simplório, e ao sair paramentado carregando o santo Viático, fez com que acreditassem que iria apenas levar conforto espiritual para um moribundo.

Padre Miguel sorriu quando os cavaleiros se ajoelharam. Pediu a seus dois companheiros que aguardassem junto ao capataz e afastou-se um pouco com Francisco, explicando o motivo tê-lo chamado em Taubaté.

Contou-lhe que conviveu com Pe. Pinna nos últimos anos de sua vida, quando para cá veio como cooperador do vigário coadjutor Pe. Benjamin Toledo Mello. Disse que assistiu sem entender suas constantes lutas brigas com os republicanos, mas só veio, a saber, sobre o caso do Capitão Pacheco, dias antes do falecimento do velho pároco em dez de julho de 1865, quando esse lhe contou.

Segundo padre Pinna o pai de Francisco foi escolhido como guardião por sua fé e rigidez de caráter. A distância lhe manteria em segurança dos republicanos, mas precisava de alguém por perto para mantê-lo informado caso algo ameaçasse as provas que deixaria para serem reveladas no futuro.

Vinte anos se passou desde então, e nove meses se passou desde que padre Miguel benzeu o novo cemitério da cidade. O religioso sabia que se fariam transferir os corpos dos diversos cemitérios para a nova morada. Desta forma chamou Francisco para que este retirasse do túmulo do Pe. Pinna no jazigo do Carmo o documento que com fora enterrado.

Francisco cumpriu sua missão, exatamente vinte anos após o enterro de Pe. Pinna. Retornou então para Taubaté, onde anos depois encarregou seu filho que tinha seu mesmo nome, de continuar a proteger a verdade sobre o caso Pacheco.

Apesar de monarquista, padre Miguel votou no liberal Dr. Antonio Francisco de Paula Leite, pois o político impediu que os republicanos fossem à Taubaté exterminar os Pereira Motta, um voto de agradecimento pelo fim de um rastro de sangue que já se arrastava há cinqüenta anos.

Anos depois do falecimento de padre Miguel, a família dos guardiões mudou-se para Cabreúva, município visinho ao de Itu, e hoje a carta testamento repousa na Cúria de São Paulo levada pelas mãos do Cônego Motta.

É tudo o que me foi contado.

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