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Ele preferiu não participar dos atentados de 2006.


É preciso ser cego para não ver que o problema do tráfico é um problema de cunho social, e Chacrinha não foge a regra  ― pertenceu a uma família desestruturada mas seguiu satisfeito seu destino, tão satisfeito com a sua condição que jamais desejou outra vida que não aquela. Claro, de bom grado moraria em um condomínio com jardins floridos, mas nunca negou suas origens e seu orgulho de ser quem era.

Se a Fortuna não lhe recebeu quando neste mundo chegou, tão pouco deu sua graça pelos caminhos percorridos por ele. Mas ele se consolava apesar dos malefícios de sua profissão (não passava naquele tempo de um traficante), mas feliz estava em estar vivo e fora do Sistema Carcerário ― dois tesouros que poucos colegas de sua profissão podem se gabar, pois por melhores que sejam um dia acabam vendo a casa cair.

O dinheiro vinha sempre que precisava, era só fazer algumas correrias e tudo estava certo. Trabalhava com o afinco de quem quer viver e dormia com a alegria de estar livre ao lado da vida que a Fortuna escolheu para ele, e considerava cada dia como uma vida à parte, sem se preocupar com o futuro ou com o passado, pois estes tempos verbais não existem na vida do crime, bastando apenas o hoje.

Eram tempos difíceis, ele era o “irmão Chacrinha”, um membro batizado do Primeiro Comando da Capital, e agora era tempo de guerra. O PCC havia decretado uma onda de atentados contra alvos policiais e judiciários. Agora, lá fora estava o paulistano Willian, o “irmão Sinistro”, afilhado na facção de Marcelo, o Tio ou "M", um dos generais do Partido.

Chacrinha não quer entrar naquela guerra, não aquele dia. Diz ao Sinistro que não está com a namorada em casa e fará os corres por conta. Esta história será por ele explicada mais tarde para quem de direito, mas o buchixo correu...

Sinistro ligou para Edson, o “irmão Cara de Bola”, um torre no PCC (Primeiro Comando Capital) e esculachou o irmão que fugiu da raia:

“Chacrinha é bunda mole e tinha uns moleques com ele, tudo bunda mole. Você entendeu irmão, e aí eu fiquei com medo dos caras me deixa na mão e aí e pá, e o Chacrinha também é outro bunda mole, Chacrinha aí, entendeu, na época das missões, fui na goma chamá prá uma força e lá e tal, os irmãos marco uma reunião, pá lá, ele falo que estava com a namorada dentro da casa.”


Cara de Bola confirma que ele também ligou para Chacrinha entrar junto na caminhada mas não foi também.


Seja lá como for, Chacrinha sobreviveu àquela guerra, pobre, traficante, e agora sem moral junto aos seus, mas vivo e livre. Pelo menos por algum tempo.

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