"O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia."(Millôr Fernandes)

Juíza resolve problema de moradia de garota.


Diz que deu, diz que dá, diz que Deus dará, não vou duvidar. E se Deus não dá, como é que vai ficar? Só por Deus, o que ela estava fazendo ali? Como chegou naquela situação? Será que um dia foi melhor? Teve em algum momento esperança, de outro futuro se não aquele?

Ela acredita piamente em Deus, mas ele só pode ser um cara gozador, que adora brincadeira, pois tinha o mundo inteiro para jogá-la, mas achou muito engraçado botá-la na barriga da miséria, na Favela do Isaac em Itu, e por isso agora os homens queriam condená-la.

Mônica Aparecida Della Paschoa é apenas uma das garotas de programa que atuam por ali. Não bastou ter sido tão mal alojada, tão mal vestida, tão mal alimentada durante toda sua vida, nascendo sem estrutura econômica e familiar, entre enganadoras esperanças e de sofrimentos reais. Seu corpo não se formou, se degradou, assim como sua alma que foi tomada pelos vícios da sociedade.

Da peste e da escória humana recolhe seu sustento, e se alimentando dos frutos do lixo ituano ― envenenou-se. Seu pálido brilho é suficiente para encantar alguns daqueles que se escondem nas sombras do submundo, sob o Império de Bola de Fogo, que tem a “sintonia geral” garantida pelo PCC - Primeiro Comando da Capital.

Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010, aos 48 minutos da madrugada.

Mônica pediu para as guardas municipais que foram revistá-la para que a levassem até um lugar mais reservado, não queria passar carão ali na frente de todos. GCM Surian foi quem solicitou a presença da guarnição feminina para a revista-la e as outras garotas.

Em uma viela próxima a GCM Ana Maria a revistou encontrando em sua calcinha vinte e duas porções de maconha em um plástico azul. A garota diz às guardas femininas que tem mais em sua residência. Vão até lá e a GCM Rosemary recolhe três porções de crack embaladas em papel alumínio e um cigarro parcialmente consumido.

A máquina de repressão ao tráfico começa a andar. O delegado Dr. Antônio Carlos Padilha prende Mônica, o promotor de justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze declarou que “...a quantidade e a forma de acondicionamento das substâncias apreendidas, o local e as condições em que a ação se desenvolveu, as condições sociais e pessoal, bem como a conduta da agente revelam a intenção de traficância.”
Mônica tenta explicar, que não á nada daquilo... muita gente... ela se lembra que tinha muita gente... todos bebendo, todos usando drogas. Assim é a noite na Favela do Issac, assim é a vida que ela conhece. Risos, brigas, drogas. Todos estavam lá. Ela ganhou dinheiro, faz programas, faz limpeza em casas, e comprou um pouco de droga. Um pouco, o resto ela achou no chão e guardou com ela, se o dono aparecesse ela devolveria, se não ela vendia. Mas ela achou, mas se deu assim, ela diz assim que se deu. O que ela estava fazendo ali? Como chegou naquela situação? Será que um dia foi melhor?

Seu advogado Dr. Aldo Ribeiro da Silva afirma que aquelas drogas eram apenas para seu uso, pois ela costumava mesclá-los, inclusive com bebidas alcoólicas. Lembra inclusive às claras e objetivas afirmações das Guardas Civis Municipais: apenas encontraram com ela as drogas, nada sabendo sobre comercialização ou a associação.

O local é de fato conhecido como ponto de drogas, mas ora, ela não escolheu viver ali, ela teve que morar lá, é sua residência, pode ser Mônica condenada por ter sido lançada na miserabilidade, padecer sob uma pena gravíssima imputada ao tráfico, um crime considerado hediondo?

Mônica acredita piamente em Deus, mas ele só pode ser um cara gozador, que adora brincadeira, pois de uma hora para outra fez com que seu defensor fosse substituído pela Dra. Adriana Dini Schimm Elpfeng, que abandonou o tom suplicante do Dr. Aldo e passou a buscar nulidades técnicas ― que foram uma a uma derrubadas pelo promotor de justiça e pela juíza.

Tenta ainda Dr. Adriana escudar-se no testemunho de duas garotas, Aline Ribeiro dos Santos e Natalina Aparecida de Souza Carvalho, que com ela trabalhavam e com o cliente que teria comprado às drogas para ela, um tal de Salvador, não apareceu para fazer sua parte. Tudo em vão.

Assim como Mônica, sou temente a Deus, nosso Salvador, e tocado pelas palavras de Dr. Aldo vejo quão justa foi a sentença de Drª. Andrea Ribeiro Borges. Esta magistrada deu uma oportunidade para que a garota viva em melhores condições de vida pelo período de dois anos e seis meses, com alimentação digna, sem ter necessidade de prostituir-se ou passar por mais humilhações da vida em liberdade.

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