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O garoto e o chefe do Primeiro Comando da Capital.



Chevalier Auguste Dupin divertiu-se em sustentar a opinião daquele meu desafeto. Meu amigo sempre que podia tentava me tirar do sério defendendo pontos de vista opostos aos meus. Puro exercício de semântica. Só relato aqui, pois um dia os dados contidos neste diálogo podem ser de alguma importância no estudo dos fatos relativos aos PCC (Primeiro Comando da Capital) de Itu.

Disse ele que o consumo e o comércio de substâncias psicotrópicas são tão antigos quanto à própria sociedade humana, e o mais natural, pois já o haviam encontrado presente em ambos na antiguidade de ambos os hesmiférios; algumas civilizações incorporaram seu uso aos rituais sagrados; outras se tanto controlavam sua distribuição, mas nenhuma em verdade a proibia.

Afirmou que nos países muçulmanos se encontram bebidas em casas dos xeiques, mas a plebe é duramente castigada quando da mesma posse. Aqui um garoto em um bairro é condenado com duas paradas enquanto o filho de um industrial é liberado como usuário quando é flagrado em seu veículo de luxo com dois tijolos ou pacotes de êxtase.

Cita que as bebidas alcoólicas e as demais drogas são usadas pelas às camadas sociais mais favorecidas e imputadas como más para as outras. Lembrou que no nosso Livro Sagrado diz que é mais fácil um rico passar pelo buraco de uma agulha que entrar no Reino dos Céus. Segundo ele uma forma da antiga classe dominante fazer com que as outras valorizassem a pobreza e não buscassem tomar seus bens.

Eu rebati dizendo que na verdade era mais fácil colher algumas folhinhas que ir à caça de lobos; o traficante nada mais é no meu modo de ver que um homem que não quer trabalhar, achou um caminho muito mais fácil que é usar da força a encarar a labuta diária: cansativa e interminável. Catar algumas folhas e deitar sob a sombra de uma arvore, como os antigos índios faziam.

Citei eu um caso que conheço e acompanho a anos:

Um garoto morador do Jardim Aeroporto é tido por muitos com extremamente perigoso. Ele e seus irmãos de fato conhecem não é de hoje o mundo do crime. Não creio que o jovem tenha mais que uns dezesete anos, mas em 2006 quando dos atentados do PCC, foi ele quem executou a única ação em Itu, a bomba caseira jogada no 50º Batalhão da Polícia Militar. Era então apenas uma criança e é claro que não estava sozinho.

Muitos acreditaram que ele fez por pura zoeira, outros que seria prova de coragem para ganhar moral junto ao partido, mas o que o tempo provou é que realmente ele não agiu ao léu. Outro dia desses estava um dos irmãos dele conversando com Júlio César dos Santos, o Preto, chefe do tráfico em quase toda cidade de Itu e líder do PCC local. O garoto resolveu montar uma biqueira no bairro São Camilo para vender “verdinhas” (maconha).

Júlio César fechou com o garoto, mas alertou para tomar cuidado com quem ia colocar nas correrias (vendedores): “...só que é o seguinte cara, se esses moleques der perdido em mim, nós vai matar...”. É a palavra do garoto que sustentou a transação: “não, não, o moleque que eu tenho lá irmão, não dá perca não, é certinho.”

Este garoto tem de tudo para se tornar um dos futuros líderes do partido na cidade, pois seu trabalho tem se destacado em várias áreas. Se Júlio César levou três anos para em um 27 de janeiro se tornar irmão, o jovem já está chegando ao tempo. As regras mudaram e hoje a ascensão dentro da estrutura é cada vez mais difícil, mas o destaque de suas ações é notória dentro e fora do mundo do crime.

Este garoto encaixa-se perfeitamente no exemplo que eu queria dar a Dupin, não tenho a menor dúvida que com seu espírito empreendedor, audacioso e com liderança nata, teria chances de ascensão em qualquer empresa que ingressasse. No entanto além do glamour do mundo negro, junta-se a falta de concorrência e a liberdade de horário. Como disse é mais fácil pegar umas folhinhas que encarar o trabalho duro do dia a dia. Não tendo nada de “costume natural” da sociedade humana como dizia Dupin, apenas preguiça.

O movimento na Praça da Matriz naquela noite estava acima do normal, uma viatura da polícia militar passou por nós e acenou, descendo a rua Sete de Setembro. Dupin foi até um garoto que descia de bicicleta vindo da Praça do Carmo. Logo volta e mostra duas porções que havia comprado. Entendi como Watson devia se sentir quando Holmes se deleitava com seu ópio e sua cocaína.

Não fiquei para a réplica de Dupin. Deixei-o lá com meu desafeto e suas drogas de idéias.

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