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O Nei do Portal do Éden - vida e morte do bandido.





O que alguns acham um absurdo, outros acham absolutamente normal, veja você mesmo:
  • Existe a "ética do crime", o "lado certo da vida errada", "correr pelo certo" — acredite que os criminosos de verdade se orgulham de sua profissão e de fazerem o errado do jeito certo. É difícil para alguém que não vive no meio entender isso, mas para um PCC estourar um caixa eletrônico ou traficar é justificável e não mata.
  • Já, utilizar de suborno para conseguir “caixa para a campanha” é algo que ninguém mais aceita, mas políticos de todos os matizes e níveis são reeleitos, mesmo nenhum de nós votando neles, e ao contrário de um assalto a um caixa eletrônico ou de vender um baseado, o dinheiro retirado dos cofres públicos mata.
  • Já, utilizar um celular ao dirigir ou conduzir um veículo depois de um vinho, uma cerveja, ou um whisky, é algo que ninguém mais aceita, mas o álcool continua a matar diariamente, mesmo que nenhum de nós e nem nossos amigos e parentes dirijamos após ingerir bebidas alcoólicas.




Nei era do crime e membro do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533). A dúvida foi quem o matou: a polícia, um disciplina da facção, ou alguém da população? Ele há muito já não estava mais respeitando a comunidade onde vivia, enfrentava sem provocação a polícia, e tentava ser “esperto” no meio dos criminosos, enfim: inimigos não faltavam, mas quem o teria matado?

O clima ficou tenso entre a bandidagem — o mundo do crime exigia que o sangue do irmão fosse cobrado com o sangue de um polícia — e a liderança do PCC de dentro dos presídios teve que mandar a ordem para que não houvesse nenhuma morte, e assim evitou uma nova onda de violência que poderia ter se espalhado pelo estado.

O debate dentro das muralhas foi para saber se ele tinha sido condenado por algum tribunal da facção ou disciplina sem conhecimento dos “finais”, ou se teria sido uma atitude isolada de algum irmão ou companheiro, mas verificaram que não tinha sido um membro do PCC que o tinha finalizado, e nada provava que foram policiais

A população começou a usar os espaços de comentário aqui nesse site para avacalhar com o criminoso morto, pois ele estava fazendo da vida de quem vivia naquele bairro um inferno. Já alguns “vida loka” e simpatizantes do crime respondiam com ameaças, fomentando o ódio. O Portal do Éden é um lugar pequeno em que todos se conhecem, então...

Não ia demorar para alguém morrer. Retirei os textos aqui do site e só os recoloquei quando os ânimos se acalmaram, mesmo porque Nei não foi morto nem pelo PCC e nem pela polícia. Não sei se a Polícia Civil chegou a descobrir quem matou o cara, mas as ruas agora sabem que foi um desacerto com seus aliados, ele meteu a mão na parte dos outros.

No mundo do crime, assim como você, as pessoas se orgulham de estarem “agindo pelo certo”, e quem perde essa visão e passa a se achar acima dos outros deve ser lembrado que em 2002 foi incluído o “I” na sigla PJLIU (Paz, Justiça, Liberdade, Igualdade, e União. O “I” de igualdade, pois ninguém é melhor que ninguém — não tem forte, só tem o certo.



A carta que coloco a seguir foi postada em um comentário em uma dos três textos que fiz sobre esse caso, e que gerou grandes debates, mas hoje vale para quem não convive nas periferias ou de alguma forma próxima à Família 1533, como um bandido pode ser visto pela comunidade a qual pertence:

Conheci o Neizinho do Portal desde criança. O menino levado que era junto com seu irmão, mas ele sempre me respeitou. Eu já fui do crime por isso acho mesmo que me respeitava. Só que o tempo passou e criminoso ou bandido como eu era, que tem inteligência, sabe a hora de parar e vêm outras gerações – é igual jogador de futebol.

Nei surgiu vendo eu e meu bando sempre ganhando dinheiro, e ele conversava comigo, e até então ele não era bandido, mas admirava meu jeito de agir, sempre com dinheiro, andando com ouros no pescoço e no braço, e mostrando presença por onde eu passava com carros, motos e humildade.

Eu era bandido sim, e as pessoas sabiam, mas gostavam de mim, pois o criminoso quer vida boa, dinheiro, mulher e mostrar poder e festas no Portal do Éden.

E eu era assim com meu grupo, e isso fazia a molecada admirar a gente, e Nei foi um admirador de minha pessoa, o moleke cresceu, fez a parte dele: dinheiro, mulher, fama, mas fez um grande erro, no qual eu e meu grupo nunca fizemos... foi desrespeitar a vizinhança.

Humildade com as pessoas. Fiz muito dinheiro, e perdi também, pois a vida é assim...

Bom... voltando a falar de Nei, ele conversava comigo até uns dias antes de morrer, lembrava quando minha turma chegava com os carrões na Vila e fazia a festa no dia seguinte ele falava:

“Pô fulano só nos panos, nos ouros, carrão, um dia vou ser assim... qualquer hora me leva para dar uns pulos com vocês???”



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