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A briga entre as torcidas organizadas e o PCC.


Conan Doyle me alertou um dia desses sobre algo que me passou despercebido. Não me considero uma pessoa que questione muito, e ao assistir a epopeia da revolta egípcia de 2012 atentei para o andamento do movimento e a situação do governo – assim como quase todas as pessoas com que conversei, quase todas, menos Doyle.

Está certo, e os senhores poderão tentar me jogar isso na cara, que ele cometeu muitos erros. Se suas obras foram um marco, se bem que muitas vezes decepcionou quando tentou por em prática suas teorias, portanto entenderei as restrições que os senhores possam colocar nas opiniões deste mestre.

Quando as forças de segurança egípcias tentavam conter na Praça Tahrir as torcidas organizadas revoltosas, usando tropas de choque que tentavam a todo o custo conter uma onda sem precedentes, Doyle me alertava: "O mundo está cheio de coisas obvias, que ninguém, em momento algum, observa! E aí está uma delas".

Não vi nada de óbvio em uma revolução política começar por conta de uma briga de futebol, e ele não disse que o mesmo viria a acontecer aqui no Brasil – confesso que quis dar uma desculpa e ir embora e deixá-lo lá, com seus delírios... mas ele é quem tinha ido à minha casa! Fui buscar uma cerveja para ver as coisas mais claras.

Devidamente abastecido ouvi os argumentos de meu amigo. Ele leu um trecho breve de Rodrigo Vianna, o Escrevinhador, no qual lembrava que as torcidas organizadas surgiram na América Latina na década de 70 e se enraizaram na sociedade, mas tem seu núcleo nos jovens na faixa dos vinte anos de idade, e me questiona e aqui?

Antes que eu o respondesse me disse que se eu eliminasse o impossível, o que sobraria por mais incrível que pareça só pode ser a verdade, e o impossível neste caso seria o isolamento desta forma de manifestação cultural (torcidas organizadas) do resto da sociedade. De fato as torcidas nada mais são que um de seus braços.

Pediu que eu usasse minha imaginação para poder enxergar o horror, pois se o ceticismo é essencial para uma visão apurada, as faltas de imaginação e de ceticismo nos transformam em bichos que apenas observam e aceitam, sem questionar a fundo e perceber o horror antes que ele já tenha se consumado.

Lá assim como aqui as torcidas organizadas e as organizações criminosas tem a mesma base de formação: jovens com menos de vinte e cinco anos, que contestam a força repressora do Estado e sua polícia, assim como desprezam a corrupção política e a exclusão social, tendo sua massa oriunda dos bairros periféricos.

Doyle não estava olhando para mim, sorte, pois detesto quando ele percebe que eu fico sem argumentos e não tenho como refutá-lo. Sem dúvida, tanto o PCC - Primeiro Comando da Capital, quanto às torcidas organizadas se enquadram, mas não teria nenhuma razão para que aquela organização criminosa resolvesse se infiltrar nas torcidas, ou haveria?

Ora, optei por não mais conversar com ele a este respeito, pois sei que ele sempre diz que é um erro terrível teorizar antes de termos informação, principalmente por que o homem tem essa característica, a de se achar especialista em tudo, quando na realidade sua especialidade é apenas a omnisciência.

O tempo passou e agora devo novamente procurar Doyle e me desculpar, pois o respeitado jornalista Ricardo Perrone garantiu que o grupo criminoso PCC repreendeu a Gaviões da Fiel e a Mancha Verde pela morte dos dois palmeirenses, o que confirma a influência da facção sobre as organizadas.

Aqui em Itu, por muito tempo, a Avenida da Paz Universal esteve em paz graças a uma determinação dos traficantes ligados ao partido para que não houvesse armas, brigas ou mortes naquele local, pois chamariam a atenção da polícia, criando situações de confronto que não interessavam aos negócios.

Ao falar hoje com meu amigo ele me esclareceu o último ponto de sua linha de raciocínio: a razão. Ela não existe. Não existe razão para que o PCC influencie e domine as torcidas organizadas, mas ela existe pela própria natureza das duas culturas: a conta-cultura criminosa difundida pelas facções, e a cultura do futebol.

Ambas são acéfalas, existem lideranças, mas sua base se move por vontade própria de modo pouco estruturado, prova é a tentativa das mídias sociais como a TV e o rádio de criar um clima familiar na torcida, e outra é a realidade nos campos, onde milhares de cidadãos ao mesmo tempo gritam “Filha da Puta Vai Se Fudê”.

Meu colega finalizou ressaltando a diferença entre o Egito e o Brasil: aqui a facção ainda não optou por usar a força que já possui. O próximo levante da facção criminosa, ao contrário do que se espera deverá ocorrer usando esta reserva poderosa e inesperada, não para derrubar o governo, mas para conquistar ainda mais espaço.

Não estranhemos então se um dia virmos duas torcidas começarem brigar e depois quando houver intervenção policial se unirem contra o inimigo comum: a polícia. Quando chegar a este ponto, lá sim como aqui, razões justas serão postas, como: a excessiva repressão policial, corrupção na política e no esporte, desigualdade social...

Entre mortos e feridos o governo vai negar que as facções criminosas determinaram o movimento, mas por trás das câmeras lhes darão mais regalias. Policiais serão punidos como bodes expiatórios. As mídias sociais, todas elas, faturarão horrores com o caso, e a população ficará entretida por algum tempo.

Comentários

  1. joão porta @joao_viitor96
    E essa fita ai que o primeiro comando deu o papo de que é pra acabar com as brigas de torcida em SP? Se for verdade mesmo, rapaz..

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