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O CV e o ideal de Paz, Justiça e Liberdade do PCC


Passaram-se quase 40 anos, sim, mas, esteja lá onde estiverem, os fundadores do Falange Vermelha devem estar olhando aqui para baixo (ou para cima, quem sabe?) e sentindo-se orgulhosos dos descendentes que deixaram. O Primeiro Comando da Capital, PCC 1533, e as demais facções criminosas movem entre 3,5% e 10% do PIB nacional.

Desenterro essa entrevista feita com o José Carlos Gregório, feita há exatos vinte anos. Ela está no meio do caminho histórico, entre a fundação das bases nacionais das facções criminosas modernas brasileiras e o ponto atual, que é a da internacionalização dos cartéis nacionais de drogas e armas.

Não farei aqui a transcrição da entrevista, que está na íntegra no vídeo do canal Histórias Daki, mas destacarei os principais pontos do vídeo, além de relacioná-los com o que nos chama a atenção hoje em dia.


Gregório era conhecido no mundo do crime como “Gordo”; foi O CARA que planejou o primeiro resgate de presos com helicóptero – “coisa de primeiro mundo”, ele conta na entrevista dele como foi de verdade, e no vídeo abaixo está como saiu na imprensa na época.


Bem, lá ele fala mais sobre si, vamos ao que interessa:

A ORIGEM DO PENSAMENTO DAS FACÇÕES CRIMINOSAS NO BRASIL

Gregório conta que a facção carioca Comando Vermelho surgiu daquela que seria a Falange Vermelha, um grupo de criminosos organizados dentro de um sistema penitenciário opressor, oriundos das camadas sociais dos “morros cariocas”. Esses indivíduos estavam detidos no Presídio da Ilha Grande, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.


  • A LUTA PELO FIM DA OPRESSÃO CARCERÁRIA
  1. Estatuto do PCC, artigo 4º e 18º
  2. Cartilha do PCC (11 citações)

Aos presos comuns de alta periculosidade da Ilha Grande foram acrescentados prisioneiros políticos detidos pelo Regime Militar com a Lei de Segurança Nacional, e esses novos hóspedes, que eram “mais estruturados, mais educados, que viviam os dois lados, sabendo o que era uma família, começaram a assistir a tudo de dentro da cadeia, parando para lutar contra os crimes contra os presos, praticados pelos funcionários e também pelos próprios presos”.

“Quando eles tinham uma banana, eles dividiam a banana e alimentava todo mundo, e nós fomos vendo como eles faziam e aprendemos.[...] E foi aí que começou a surgir essa organização, começando a se organizar dentro da cadeia, para depois transpor o muro da prisão e chegar aqui fora.”


  • NINGUÉM É OBRIGADO A ENTRAR OU RECEBER ORDENS
  1. Estatuto do PCC, artigo 17:“Ninguém é obrigado a permanecer no Comando”.

Gregório conta que desde o início as facções não funcionavam com pessoas mandando em outras pessoas: cada um cuidava da sua vida, decidindo se iam ou não assaltar algum lugar e como fariam isso. Não tem uma chefia, “são um grupo de pessoas que são amigos, são uma família, que se unem”.

Essa forma de se relacionar foi adotada pelo Primeiro Comando da Capital, no qual ninguém é obrigado a entrar ou aceitar qualquer missão, no entanto, entrando-se é preciso cumprir as regras, além do que, caso uma missão seja abraçada, não se pode voltar atrás sem cumpri-la.


  • O LEMA É PAZ, JUSTIÇA, E LIBERDADE
  1. Estatuto do PCC, artigo 2º
  2. Cartilha de Conscientização (2 citações)

Gregório conta que Comando Vermelho foi fundado já com o lema que hoje é adotado pelo PCC: “O lema do Comando Vermelho é Paz, Justiça, e Liberdade:

Paz: é a paz de você viver em paz dentro da cadeia.
Justiça: você faz justiça todos os dias; é você fazer o que o governo não faz, o que quem deveria fazer não faz e, então, você tenta fazer alguma coisa.
Liberdade: é o que todo mundo sabe, sair do presídio a qualquer custo.”


O estudioso Diorgeres de Assis Victorio do Canal Ciências Criminais me lembra que originalmente o lema Paz, Justiça, e Liberdade, era utilizado apenas pelo Comando Vermelho, enquanto o Primeiro Comando da Capital adotou o "Liberdade! Justiça! E Paz!", conforme consta nos primeiros estatutos apreendidos pelas autoridades policiais.


SOBRE ESSE ASSUNTO MAIS DOIS TEXTOS:

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