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Ódio e rancor é o que passa pela mente de um preso


Para início de conversa vou esclarecer que Vania é uma assassina confessa, que nunca pertenceu ao Primeiro Comando da Capital (PCC 1533), cujo nome não tem acento mesmo. Na verdade não é só o nome que não tem acento, ela mesma não me pareceu muito assentada — e depois que ela matou uma velhinha acabei tendo certeza disso.

Você já passou por uma prisão? Seja como visitante ou ficando uns tempos por lá? Se sua resposta foi sim, bem, nem precisa ler esse texto, pois você já sabe por experiência própria o que é ouvir histórias de ódio e rancor de dezenas de pessoas todos os dias por anos a fio.

Foi a Lúcia quem me deu a ideia de contar para você o que a Vania contou para a Gisele, que recontou para mim, e que agora eu conto para você. — nossa, dito assim parece fofoca, deixa eu colocar isso de outra forma:


A Professora Lúcia Dammert afirmou no artigo Gang Violence in Latin America que o ambiente prisional acentua os problemas psicológicos, e Gisele Flôres apresentou em sua tese para a Universidade Federal de Santa Catarina, Meu Trabalho é Matar, a vida da internada Vania Alexandra de Souza, do Presídio Feminino de Florianópolis — é assim fica com ar mais sério.

Eu vou apenas narrar um trecho em que Vania fala sobre o que se passa em sua cabeça. Quem conviveu nesse ambiente sabe quantas dessas histórias se ouvem todos os dias, repetidamente, e como isso fica na cabeça, girando e girando, fazendo perder o sono, e influindo nos planos para o futuro — esses pensamentos nunca mais sairão da mente:
“... eu sinto vontade de morrer e de matar, tenho muito ódio, muita raiva do sistema carcerário. É como se tu fosse um bicho: tu fica trancada, eles vêm, te jogam a comida ali e fecham você de novo. Assim que eu me sinto, como se fosse um bicho… Nem um bicho, porque o cachorro tu solta ele no quintal, faz carinho.... A gente não, a gente aqui é esquecida. [...] A cadeia é um inferno na Terra, tu não imagina o que é a cadeia. Não dá para imaginar, só quem passa prá saber. [...] Às vezes eu sonho em sair daqui, às vezes eu penso em suicídio... Direto. Descansar, ter paz. Às vezes eu penso muito na morte, penso que é um descanso. Eu até arrumei uma frase para mim: ‘Morte é libertação e o inferno tá bombando’ [...] depois que a gente mata um, mata dois, mata três… a gente se acostuma. A vida do ser humano é muito frágil. Se a gente soubesse o quanto é fácil morrer, a gente dava mais valor a vida. É tão simples tu matar uma pessoa. É tão fácil. Chega ali, dá uma chave de fenda no pescoço, já era. Dá uma tijolada na cabeça, já era. Dá uma facada no peito, já era.”
No passado, Vania pediu uma arma para alguns conhecidos da Família 1533 para fazer um acerto e, apesar dela não ser da facção, os irmãos não a deixaram na mão: arranjaram um 38 niquelado e refrigerado e um Escort azul-marinho abastecido, simples assim, e ela foi fazer seu acerto.

E agora que ela ficou por anos dentro do sistema, será que entrou para a facção? Vania é apenas uma, como centenas de milhares de homens, mulheres e adolescentes que colocamos dentro do sistema carcerário, de onde sairão com muito ódio e rancor na mente, depois de ouvirem dia após dia, por anos a fio, essas conversas.

Será que meus pais ou avós, filhos ou netos, ou até mesmo eu e minha companheira não encontraremos jovens de nossa cidade que estão nesse exato momento dentro de alguma cela sendo doutrinados e ouvindo diariamente histórias como essas, de ódio e rancor? Não, acho que não, mas se eu pudesse comprar uma arma, aí estaríamos seguros, né não?

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