Pular para o conteúdo principal

É preciso saber quem é nosso verdadeiro inimigo.


Você também passa por lá, afinal, todos nós passamos. Eu conheço muita gente, então sei quem é ligado à igreja, à polícia ou ao Primeiro Comando da Capital, quem é político, funcionário público ou estudante, quem só está de passagem e aqueles que, como eu, sempre estão por lá, mas parece que só eu, Gabriel e Dorrit vemos isso.

Da próxima vez que você estiver passando por lá, pare e olhe para as pessoas. Você notará que todos estão fechados em seus pensamentos. Pare e repare, e verá muita gente que você não veria e, se parar realmente para reparar, poderá ver dentro dessas pessoas.

Comecei a escrever este texto para apresentar o artigo que Gabriel de Santis Feltran escreveu para a revista Boletim do Instituto de Saúde: Choque de ordens: drogas, dinheiro e regimes normativos em São Paulo, que descreve um ambiente como esse.



Muita gente circulando, cada qual em seu mundo, em sua mente, sem conseguir ver como foi construída a sua própria percepção de certo ou errado, amigo ou inimigo — Gabriel não só olha para todos os outros, mas leva o leitor a fazer o mesmo.

Vindo para cá, parei em um semáforo, local muito movimentado, cheio de moradores de rua, ladrõezinhos, motoristas de ônibus, trabalhadores, taxistas e estudantes do SENAI. Um dos moradores de rua veio até meu carro, era o Wolverine, e quem é aqui da quebrada sabe que no geral ele é gente boa…

Meu fusca não abre o vidro faz tempo — um dia eu ainda o conserto —, então abri a porta para cumprimentar o Wolverine, afinal já faz muito tempo que não nos desentendemos — agora parece que estamos em paz —, e chegou junto um garoto que vive fazendo pequenos furtos, apesar do pequeno tamanho, adora levar motos para trocar por drogas e, se nada der resultado, rouba mulheres e idosos com uma faca de cozinha.

Para minha surpresa, nunca vi tanta euforia: ambos me cumprimentaram como se fôssemos velhos conhecidos, amigos do peito, depois voltaram para a calçada e eu continuei meu caminho. Esse inusitado encontro com duas pessoas com as quais eu já tive que disputar o controle do mesmo espaço mudou a linha deste artigo:

Comecei a escrever este texto para apresentar o artigo de Gabriel de Santis Feltran, no entanto, percebi que deveria mesmo era trazer para seu conhecimento o trabalho de Luciana Quierati, apresentado à Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista de Bauru:
Dorrit Harazim e o ofício de contar histórias: A prática do jornalismo narrativo e o processo de representação


Ela conta que Dorrit ficou durante anos vivendo no exterior e voltando para o Brasil, para aqueles lugares por onde ela, eu e você sempre passamos, começou a ver tudo de outra forma — estava mais atenta e mais perceptiva.

Ela percebeu, por exemplo, o medo das pessoas ao andarem com seus carros, sempre fechando as janelas ao menor sinal de gente se aproximando, e daí nasceu a reportagem “A centrífuga do medo na cidade”.

A jornalista percebeu que após os ataques do PCC em 2006 e as guerras entre as facções, a verdade deixou de ser importante para as pessoas, e o outro passou a ser o inimigo delas, que deviam deixar esses outros fora de seu convívio, e acompanhar o que acontecia apenas através das mídias sociais ou reportagens jornalísticas.
A mente pode criar esse ambiente, onde nos isolamos de nossos “inimigos”.
Você, eu, Gabriel e Dorrit frequentamos os mesmos lugares que nossos inimigos. Eu conheço muita gente, então sei quem é ligado à igreja, à polícia ou ao Primeiro Comando da Capital, então reconheço muitos deles nos supermercados, nas ruas, nos bancos, e até no ambiente de trabalho e familiar...

As certezas que construímos de quem são ou não nossos inimigos ficou clara após os ataques do Primeiro Comando da Capital em maio de 2006, e aquele que deu o pontapé inicial nessa história sabia bem disso.

O Coronel Ubiratan Guimarães, que comandou a chacina do Carandiru e foi de certa forma quem possibilitou a criação do PCC 1533 sabia quem era seu inimigo.

Dorrit conta que o Cel. Ubiratan sabia como se proteger de seus inimigos: mantinha sete armas sempre carregadas dentro de sua residência em um bairro nobre, evitava sair de casa, e só o fazia dentro das regras de segurança.

Coronel Ubiratan foi morto em sua casa por sua namorada, 23 anos mais nova, para que ela ficasse com o amante. Quem era e onde estava o verdadeiro inimigo do militar? Quem é e onde está o meu ou o seu verdadeiro inimigo? Em casa, no trabalho ou nas esquinas?
“Você viu o que aconteceu lá com o homem?”, ouviu José Izabel logo que chegou ao cruzamento para vender água. A voz vinha de um carro às suas costas. Virou-se. Reconheceu o taxista, um ex-presidiário dos tempos do Carandiru. O ex-companheiro mais não disse, e seguiu viagem manhã adentro. “Como a vida é, hein? Ela dá, mas ela também tira”, comenta o ambulante José Izabel da Silva, que era conhecido como “Monarca” no maior presídio da América Latina.

E sendo assim, nem eu, nem você, nem Gabriel, nem Dorrit, nem o Coronel Ubiratan sabemos de fato quem é o nosso inimigo, e mesmo quando achamos que sabemos, não podemos provar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Estatuto do Primeiro Comando da Capital PCC 1533.

VEJA TAMBÉM O ESTATUTO PCC 1997
Revisto e atualizado em 2017.
A Sintonia Final comunica a todos os irmãos que foram feitas algumas mudanças necessárias em nosso Estatuto. O PCC foi fundado em 1993. Comemoramos esta data no dia 31 de agosto de todos os anos, mas 24 anos se passaram e enfrentamos várias guerras, falsos criminosos foram desmascarados, sofremos duros golpes, fomos traídos inúmeras vezes, perdemos vários irmãos, mas graças a nossa união conseguimos superar todos os obstáculos e continuamos crescendo.

Nós revolucionamos o crime impondo respeito através da nossa união e força que o certo prevalece acima de tudo com a nossa justiça, nós formamos a lei do crime e que todos nós respeitamos e acatamos por confiar na nossa justiça.

Nossa responsabilidade se torna cada vez maior porque somos exemplos a ser seguido.


Os tempos mudaram e se fez necessário adequar o Estatuto à realidade em que vivemos hoje, mas não mudaremos de forma alguma nossos princípios básicos e nossas diretrizes,…

Quem são e o que fazem os disciplinas do PCC 1533?

Houve um tempo em que eu acreditava em um mundo ideal, onde a polícia defenderia as pessoas com justiça, mas esse tempo acabou. A pesquisadora Deborah Rio Fromm Tinta também não acredita que a força policial deva impor pela força sua autoridade…
"Logo me dei conta que uma rodinha de disciplinas estava por ali também. Fiquei mais tranquila. ... Vários pontos de conflito que emergiram foram apaziguados graças à mediação dos disciplinas."O humorista Márcio Américo, que certa época da vida foi um assíduo frequentador do local concorda:
"A polícia e a prefeitura apenas fingem ter controle do local, completamente dominado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), por “propaganda superficial”Deborah Rio, durante o trabalho de campo que fez em 2015 bem na conturbada Cracolândia ela acompanhou de perto a ação dos “disciplinas” do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) que negociaram com traficantes, usuários de drogas, jornalistas, policiais, e autoridades públicas.



Os disciplinas …

Como se faz para entrar como membro do PCC.

Eu não concordei com o velho François-Marie Arouet ao dizer que se olharmos com os dois olhos, enxergaremos melhor: com um olho veríamos as coisas boas, com o outro as coisas ruins. Por isso, segundo ele, seria importante evitar fechar um para abrir bem o outro.

Meu velho François, leia com seus dois olhos bem abertos como se pode ingressar no Primeiro Comando e me diga: onde está o lado bom? Eu só conseguir ver o lado negro, mesmo sem ser caolho, por isso vou lhe contar o caso do irmão Cara de Bola.

Ele, que era torre do PCC e responsável pela distribuição das drogas na cidade de Indaiatuba, explicou com detalhes como se ingressa na facção, pois caiu em uma escuta ao ligar para o irmão Boquinha. Foi assim que ficamos sabendo de tudo:

Nepotismo

O irmão X tornou-se membro da facção por ser irmão de sangue do Tio, ou irmão M, um general na hierarquia do Primeiro Comando da Capital forte em em Indaiatuba, na época. Essa é uma das formas de ingresso: sendo parente de outros membros. Nem …

Como se faz para sair do PCC?

Se tá de sacanagem né, você acha que o Primeiro Comando da Capital é putaria? Entra quando quer, sai a hora que quer, de boa? Não é bem assim não, se virou crente e quer tirar a camisa, ou tem alguma coisa com tua família...

Vou falar pra você, essas são as perguntas que mais aparecem por aqui, e eu falo para procurar o sintonia e trocar ideia, é assim que se faz.

Mas por que não escrevi sobre isso antes? Por que eu fico na minha, só que agora fui cobrado, alguém leu no site do Terra que é putaria e acharam que fui eu:

Quando sair, tem que rasgar a camisa e ficar de boa", diz um homem por telefone, após ser retrucado por uma mulher investigada: "Não tem que rasgar a camisa, não; tem que arrancar a cabeça dele"

PCC decide permitir que integrantes deixem facção
Meu, quem falou essa idiotice foi o site Terra que começa mais ou menos assim:

"Pela primeira vez desde que surgiu nas prisões paulistas, no início da década de 1990, a organização criminosa Primeiro Comando da…

Ódio e rancor é o que passa pela mente de um preso

Para início de conversa vou esclarecer que Vania é uma assassina confessa, que nunca pertenceu ao Primeiro Comando da Capital (PCC 1533), cujo nome não tem acento mesmo. Na verdade não é só o nome que não tem acento, ela mesma não me pareceu muito assentada — e depois que ela matou uma velhinha acabei tendo certeza disso.

Você já passou por uma prisão? Seja como visitante ou ficando uns tempos por lá? Se sua resposta foi sim, bem, nem precisa ler esse texto, pois você já sabe por experiência própria o que é ouvir histórias de ódio e rancor de dezenas de pessoas todos os dias por anos a fio.

Foi a Lúcia quem me deu a ideia de contar para você o que a Vania contou para a Gisele, que recontou para mim, e que agora eu conto para você. — nossa, dito assim parece fofoca, deixa eu colocar isso de outra forma:

A Professora Lúcia Dammert afirmou no artigo Gang Violence in Latin America que o ambiente prisional acentua os problemas psicológicos, e Gisele Flôres apresentou em sua tese para a …

Assassinato no Portal do Éden - Polícia ou PCC?

A justiça é a busca constante do equilíbrio, podemos ver sua face de maneira clara quando dois ou mais lados de uma mesma contenda se unem para comemorar juntos um fato, e assim ocorreu com a brutal morte de Sérgio Pereira da Silva, o "Nei do Portal do Éden". A população do Portal do Éden temia e com razão aquele rapaz que gostava de provar sua coragem enfrentando a todos e querendo impor sua vontade como a única verdade. Mas o que poucos sabiam é que a cada dia que nascia ele perdia um pouco sua força. A comunidade onde o tráfico está enraizado pode dar a ele a segurança e a proteção da qual precisa para sobrepujar a lei, ocultando-se, transformando sua luta em uma questão social e fazendo que aqueles que são perseguidos pela lei passem a ser vistos como dignos de ajuda. Nei desprezava o apoio da população, era muito superior à ela, que se esconde em suas frágeis residências em busca de proteção como baratas que fogem da luz. Ele não, ele era a luz, ele era o poder, mas Nei nã…

Google Trends 2019: Facção PCC 1533

A facção PCC 1533 na era Bolsonaro Se até 2018 não se podia falar em “crime organizado” sem mencionar a facção PCC 1533, neste ano ela ficou somente em 14º lugar entre os “principais assuntos relacionados” e sequer apareceu no quadro das “principais pesquisas relacionadas”.

Além disso, os usuários do Google, pela primeira vez, não vincularam o nome da facção paulista ao termo “organização criminosa” ― em 2018 o PCC estava em 16º lugar nos “principais assuntos relacionados”.

Nada acontece por acaso, e essa invisibilidade e desinteresse do usuário do Google é consequência do amadurecimento da organização e da ascensão ao poder do presidente Jair Bolsonaro e do fortalecimento das milícias pelo Brasil.

Os links no decorrer deste texto encaminham para o gráfico Treds específicos; e os índices estão na escala de 0 a 100, mesmo que sejam fruto da análise de termos independentes que se completam, como: “guerra entre facções” e “PCC vs CV” ou “Primeiro Comando da Capital”, “PCC 1533” e “facção…

Prefeitos da cidade de Itu - 1948 à 2020.

1948 à 1951 - Waldomiro Correa de Camargo1952 à 1955 - Felipe Nagib Chebel1956 à 1960 - Galileu Bicudo1960 à 1964 - Waldomiro Correa de Camargo1964 à 1968 - João Machado de Medeiros Fonseca1969 - Galileu Bicudo - Eleito e cassado pelo Regime Militar1969 - Vereador Prof. Mário Macedo Júnior — interventor federal1970 - Gel. Agostinho Teixeira Lopes e Gel. João Paulo da Rocha Fragoso — interventores federais1971 à 1972 - Olavo Volpato — mandato tampão1973 à 1976 - Lázaro José Piunti1977 à 1982 - Olavo Volpato1983 à 1988 - Lázaro José Piunti1989 à 1992 - Sérgio Henrique Prévidi1993 à 1996 - Lázaro José Piunti1997 à 2000 - Leonel Salvador2001 à 2004 - Lázaro José Piunti2005 à 2012 - Herculano Castilho Passos Júnior2013 à 2016 - Antonio Luiz Carvalho GomesTuíze2017 à 2020 - Guilherme dos Reis Gazzola

Assassinato no Jardim Santa Laura em Itu.

Normalmente quando policiais prendem alguém, principalmente quando é o caso de um homem que acabou de matar a mulher com facada no peito, o clima é de comemoração e os comentários ficam por conta da façanha e da reação do criminoso, mas naquela madrugada de terça-feira dia 10 de abril de 2012 não era isso que estava acontecendo no plantão da DELPOL.

Até mesmos os policiais falavam com cautela a respeito do crime e sempre o comentário começava da mesma forma: “Ele era trabalhador, evangélico, calmo, não tinha nenhum vício, e ninguém esperava isso dele. Os vizinhos e parentes não entendem como é que ele pode fazer uma coisa dessas, não ele, jamais ele...” – e a conversa seguia só então para o crime e a prisão.

Aquele homem de trinta e um anos matou sim a mulher a facadas, crime passional e aparentemente sem grandes mistérios. A polícia militar chegou ao local faltando dez minutos para as duas da madrugada, pois um homem teria tentado matar a mulher à facadas na frente de sua filha de d…

Cartilha do Primeiro Comando da Capital PCC 1533.

PROCEDIMENTO PARA A LEITURA NOS GRUPOS.

Inicialmente o “sintonia” que for transmitir para os “irmãos” e “companheiros” deve com respeito lembrar a todos que só com a conscientização é possível alcançar a PAZ, mesmo que dentro das muralhas, dos difíceis ambientes e situações que os soldados da facção e suas famílias estejam.

Antes de começar a leitura deve lembrar que as famílias daqueles que estão privados de liberdade devem ser apresentados a Cartilha, para que tenham consciência e apoiem a luta, que a vida no recluso é penosa, e para superar esse momento os familiares devem estar ao lado com consciência, só assim os presos poderão

O “sintonia” deve lembrar que cada um deve ler, analisar, e discutir a Cartilha, para que haja uma constante evolução do entendimento e a disseminação aconteça dentro e fora de cada unidade prisional em todos os estados brasileiros e nos países onde a facção esteja presente.


CARTILHA DE CONSCIENTIZAÇÃO, UNIÃO, E FAMÍLIA. Para uma Geração Consciente

O que bus…