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O PCC, a pacificação e a eleição de 2018

A organização criminosa agirá nas eleições?

Há uma semana nada publico; não foi por desleixo, mas pela dúvida: será que eu poderia contar a você sobre a estratégia do Primeiro Comando da Capital para as eleições de 2018?

Você que já me conhece sabe que prefiro não me arriscar, ainda mais quando a vida de dezenas – senão de centenas – de pessoas estão em risco, mas Melina me convenceu a quebrar o silêncio.

Para você que não a conhece, eu a apresento: Melina Ingrid Risso é autora do trabalho Da prevenção à incriminação: os múltiplos sentidos da abordagem policial apresentado à EAESP-FGV.

Para relaxar depois de cumprir com minhas obrigações, dei uma lida no texto de Melina e garanto a você que valeu a pena. Ela apresenta e analisa a abordagem policial com dados inéditos, entrevistas e pesquisa de campo, e só então coloca em discussão a política de Segurança Pública e sua relação com a comunidade.


Conhecer o perigo pode poupar vidas


Você sabia que são feitas mais de 14 milhões de abordagens policiais por ano? Pois é, mas o trecho que me convenceu a apresentar a você a possível estratégia de ataque da facção paulista foi outro:

“O ‘Salve Geral’ dado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) em Maio de 2006, isso é, a ordem para que policiais fossem assassinatos [...] 23 policiais militares, 8 policiais civis, 8 agentes penitenciários, 3 guardas civis municipais e 1 bombeiro, além de 2 familiares de policiais – a noiva de um policial civil e o filho de outro [...] a cúpula do governo sabia que o PCC havia dado o ‘Salve Geral’ mas optou por não alertar os policiais.”

As escaramuças de maio de 2006 deixaram um saldo de mais de 600 mortos, vidas que talvez tivessem sido poupadas se as forças policiais fossem alertadas a tempo.


Aprendendo com o passado

Eu não sei onde você estava no dia 11 de Dezembro de 1989, mas sei que o empresário Abílio Diniz, do Grupo Pão de Açúcar, foi sequestrado em São Paulo nesse dia.

Eu não estava envolvido naquele sequestro, e pelo que me lembre, você também não, mas o que eu sei com certeza é que em 2018, assim como 1989, há uma eleição presidencial e que o sequestro de Abílio Diniz foi a pedra que fez Lula tropeçar e não ser eleito naquele ano.

Apenas alguns homens e o boato que estariam ligados ao partido de Lula fizeram com que ele tivesse que esperar a próxima eleição para poder ser eleito. O estado de São Paulo, hoje, apresenta o menor número de homicídios de sua história recente graças à pacificação imposta pelo PCC.


Os Catorze do PCC decidirão a eleição

Você, eu e os Catorze sabemos disso, mas são esses últimos que decidem dentro do Primeiro Comando da Capital até quando a pacificação do estado de São Paulo se manterá – e a que preço.

Márcio Sérgio Christino e a antropóloga Karina Biondi que me perdoem, mas não é possível entender a facção criminosa PCC estudando seus livros – a gangue evolui em nossa sociedade com a eficácia de um vírus, e enquanto se desenvolve uma vacina o imbróglio já evoluiu.

Ao contrário do ocorrido em 1989, hoje a facção entende que o termo comando da capital que traz em seu nome não é apenas um grito de guerra, mas uma realidade indubitável.

O PCC 1533 decidirá se Geraldo Alckmin e João Dória Júnior serão ou não eleitos – e a que preço. Não se iluda com os discursos da direita ou da esquerda que alegam que a negociação do PCC é com o PSDB: as melhores ofertas são daqueles que querem chegar ao poder derrubando o acordo tácito que atualmente mantém a pacificação – e ofertas não faltam.

A demonstração de poder será pontual


Quanto custaria e quanto valeria para um partido político comprar a instabilidade de São Paulo, mesmo que o preço fosse a morte de policiais e civis? Bem pouco para quem almeja conquistar os governos Federal e estaduais.

Ao contrário de 2006, a cúpula da Polícia não terá a oportunidade de omitir a informação da tropa, pois a facção recrutou voluntários entre criminosos sem ligação com a organização criminosa, cada um tendo se comprometido a matar cinco policiais, e não haverá um Salve Geral antecedendo o ataque.

A evolução dos métodos operacionais dentro da organização criminosa sempre me surpreendem, e desta feita o mecanismo de detonação não poderá ser rastreado: o irmão responsável pela ação irá ao local onde o ataque será ordenado e coordenará os voluntários que já têm seus alvos escolhidos por eles mesmos – não há listas, cada célula escolhe sua missão para cumprir a meta.

Sem aviso e sem rastros


Não pense que será feita alguma ameaça. Uma ação como essa, para ser efetiva, deve excluir qualquer chance de risco para a facção e para os políticos envolvidos na negociação, e, portanto, virá mascarada como vingança contra um ato de abuso de força policial que venha a acontecer, o que não é difícil. Um incidente que em outra situação não teria relevância servirá para justificar perante a sociedade a realização do ataque, mantendo as verdadeiras razões ocultas e restringindo a zona de vingança por parte dos agentes policiais.

Esse texto foi baseado no conto O barril de Amontillado, de Edgar Allan Poe.

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