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O gato preto, a facção PCC e a Seita Satânica

Pedindo transferência para tranca do PCC

Não nos conhecemos, e eu não preciso dar satisfação a você, e nem você para mim. Só vou contar para você o que está acontecendo para que você tente entender porque preciso ser transferido para uma tranca da facção Primeiro Comando da Capital.

Talvez você fique em dúvida se é verdade o que vou lhe contar, mas lembre que não tenho nenhum motivo para mentir, e não há, de fato, nada de incomum nessa história, apenas algumas coincidências — que para mim pareceram engendradas pelo próprio demônio

Essa é a razão pela qual quero voltar para um uma tranca do 15, para fugir do tinhoso, pois algo que as crias do PCC não toleram é essas coisas de satanismo. Não omitirei ou acrescentarei nada à história. Talvez você possa entender melhor que eu o que aconteceu, por estar de fora e ter mais esclarecimento, talvez me diga que não há nada de extraordinário na morte de minha mulher e nos acontecimentos vinculados ao gato.

O que falei nesse site sobre a satanismo → ۞

Hoje sou PCC, mas antes era um menino comum

Eu era um garoto quieto, ficava na minha, tanto na escola quanto na rua, nunca gostei de confusão, mas se precisasse entrar em briga para ajudar os amigos, eu sempre chegava junto.

Na escola eu ficava ouvindo histórias contadas pelos meus colegas, e na rua só saía para empinar pipa ou jogar futebol, pois o que eu gostava de verdade era ficar em casa ouvindo música e brincando com meu cão. Esse sim, verdadeiro e sincero amigo, e depois que cresci, me aproximei ainda mais pelo Bob.

Tive a sorte de arranjar uma garota que, assim como eu, gostava de animais. Ela mesma tinha um gato grande e preto. Quando fomos morar juntos, meu já envelhecido cão, me acompanhou, e o gato de imediato se achegou ao Bob.

Onde o cão estava o gato estava junto. Quando eu chegava do serviço, o Bob e o gato vinham me receber. À noite, o bichano não vinha para a cama conosco, se espremia com o cachorro em sua coberta junto à porta — nunca vi uma amizade como aquela.

Gatos pretos são seres das trevas

Eu nunca dei trela a essas lorotas, mas seguia o conselho de minha tia Ana: “é melhor prevenir (fechar os olhos, virar o rosto) do que remediar (fazer curativo nos joelhos e/ou escovar com força o solado do sapato).”

Saí do emprego para fazer transporte de cigarro e outras coisas do Paraguai para o interior de São Paulo. O pagamento era bom, a distribuição era suave, e com o dinheiro me mudei para uma casa melhor.

Tudo corria muito bem, apesar do gato se comportar de maneira estranha. Se eu acordava de madrugada, o gato sempre estava sentado com o meu velho cão, e me olhava profundamente.

Quando isso acontecia eu tentava dormir novamente, mas sabia que aqueles olhos continuavam fixos em mim. Com o tempo, não conseguia mais dormir, era só eu deitar e lembrava que o gato me olhava. Depois passei até a evitar de ir para casa.

As drogas proibidas pela facção

O Primeiro Comando da Capital e seu aliados proíbem que seus membros utilizem crack e loló, e mesmo outras drogas liberadas têm que ser usadas com moderação. Você é quem tem que controlar a droga, não ela você.
Dicionário Disciplinar Atualizado 2018 — PCC 1533 32º – USO DE DROGAS NÃO PERMITIDAS Quando é feito o uso do crack ou até mesmo do mesclado. → exclusão sem retorno
Por conta daquele gato eu estava perdendo o controle, e o dinheiro fácil era utilizado a rodo com bebidas e drogas — minha mulher, estava sofrendo com isso.

Meu velho cão e seu fiel gato agora eram os únicos que ainda vinham até mim quando chegava em casa. Minha garota já me evitava, e quando vinha falar era para criticar meu comportamento, pedir mais dinheiro e reclamar de meus amigos.

Ela, que sempre foi evangélica, passou a ser fanática, e isso me irritava profundamente. Era eu chegar em casa e começavam os sermões e louvores. Se em casa o clima era tenso, na rua não era melhor, e até o geral do estado me chamou para trocar umas ideias sobre meus excessos.

Tudo por culpa daquele gato preto. Para você pode parecer que não tem nada de mais em um gato olhar para você, mas é cabuloso e fica encucado na cabeça.

Perdi completamente o controle sobre mim

Numa madrugada ao chegar em casa, eu estava turbinado, misturei tudo, a mente estava nublada e só me lembro que o Bob e o gato foram até a porta me receber e que minha mulher veio me dar um sermão — bati nela e chutei o cão, só o gato foi poupado.

Ao acordar de manhã ela não disse nada, o cão também se aquietou com o gato ao seu lado, e alguns dias depois o cachorro morreu — ele era muito velho, era de se esperar que partisse mais cedo ou mais tarde, sua morte não podia ter sido por causa de meu chute.

Enquanto ainda estava vivo, o cão olhava para mim triste, sem se levantar de seu cobertor — o gato também me olhava, mas agora com puro ódio, e quando eu acordava à noite, ele estava sentado na cama, bem ao meu lado olhando para mim.

Jurei que nunca mais me excederia, e evitei ir para casa, onde eu sabia que teria que enfrentar o olhar daquele animal demoníaco — eu precisava dar um tempo fora de casa, e a solução veio em forma de um serviço.

Fui para a Guerra do Acre — B13 PCC vs CV FDN

Em agosto de 2017 me chamaram para levar alguns equipamentos para o Acre, onde estava tendo uma guerra entre a facção Bonde dos 13 (B13) e o Comando Vermelho (CV).

Não ia ter pagamento para esse serviço, era para ajudar os aliados, e eu fui convidado. Era só ir para as proximidades de Aquidauana, esperar o carregamento que vinha da fronteira e seguir para Rio Branco.

A viagem correu tranquila, até que minha mulher me ligou perguntando pelo gato, ela achou que eu o havia matado, pois ele desaparecera desde o dia que saí para a viagem — a partir daquele momento, não mais consegui dormir.

Entreguei o material, e os irmãos que me receberam não me deixaram voltar. Fui recebido como rei, e acabei ficando uns dias, e mesmo não participando dos corres por lá, eu, que nunca deixei de ajudar os amigos em suas brigas, não fiquei fora da guerra.

O sangue infecta a alma

Não preciso aqui mentir, pois não estou sendo julgado por nenhum dos crimes que aconteceram em Rio Branco, Cruzeiro do Sul e Brasiléia, mas garanto que nunca vi em São Paulo o que presenciei por lá. Era outro nível, algo satânico.

Aquilo impregna o espírito do homem, mesmo o de um criminoso experiente como eu.

Não é fazer um assalto e esperar que as vítimas não reajam para que tudo termine bem: é ir pegar alguém sabendo que ela será torturada e esquartejada — já havia feito contenções em São Paulo e no Paraná, mas as mortes eram menos cruéis.

Fiquei feliz quando disseram que houve um acordo com o governo e que as ações nas ruas e nos presídios iriam parar, só sendo aceitos os acertos de contas autorizados, sem envolver a população — parti de volta para casa.

Ao chegar em casa, o gato estava no cobertor do cachorro, e de lá não saiu, só ficou me observando. Quando minha mulher chegou em casa disse que o animal ficou fora todos os dias enquanto eu viajava. Ela disse isso e começou a orar, o que me irritou. Enforquei o gato no quintal da casa.

Enforquei o gato no quintal de casa


Repito, não estou aqui para tentar dizer que tinha ou não alguma coisa demoníaca com aquele animal, apenas narrando os fatos na ordem dos acontecimentos e do jeito que aconteceram.

A viagem ao Acre me livrou das drogas, voltei limpo, mas as coisas que vi por lá mexeram com a minha cabeça. Eu não mais toleraria aquele gato, e no começo da noite o enforquei na goiabeira no quintal de casa — e naquela noite minha casa pegou fogo.

Vim direto do Acre para casa, sem parar no caminho para deixar as coisas que trouxe da Família 1533, e se elas queimassem eu teria que enfrentar o Tribunal do Crime — estava colocando no carro as armas e a droga quando a polícia chegou, atraída pelo incêndio.

Fui abordado e já estava algemado quando o policial perguntou se tinha alguém na casa. Minha mente ainda não estava funcionando direito, respondi que não, mas naquele momento, da casa ainda em chamas vieram gritos horríveis.

Minha mulher morreu e eu fui preso

Um dos que narraram o que lá se ouviu foi Carlos Eduardo Valente, um pelotense que havia se mudado para o estado de São Paulo:
“Santo Deus, apenas ecoou no silêncio um gemido, um soluço, um grito prolongado e alto, anormal e inumano, um urro, um guincho lamentoso, cheio de horror e triunfo, como só no inferno pode se erguer das gargantas dos danados a sua agonia, e dos demônios da danação.”
O sangue gelou e ninguém se mexeu enquanto aquele lamento diabólico não cessou, e aí os vizinhos se lembraram que na casa deviam estar minha mulher e o gato, não eu. Quando os bombeiros chegaram, já não restava mais nada a fazer do que o rescaldo.

O corpo dela foi encontrado ainda na cama e na parede queimada, uma mancha branca na parede agora negra. Todos se admiram daquela marca, não tinha como não ver claramente um gato enforcado.

Os bombeiros encontraram e mostraram para o policial o corpo do animal ainda pendurado na árvore, e todos acharam que eu havia aproveitado que minha mulher dormia para matar o bicho, fazer a marca satânica na parede, por fogo na casa e fugir enquanto ela queimava — mas que o plano falhara.

Mesmo preso o gato me persegue

Não pense que fiquei triste com minha prisão, pensei que ia me livrar do pesadelo, pois na prisão ficaria livre daquele gato do diabo, mas não, fui mandado inicialmente para o CDP de Sorocaba, e lá levei muito “salve”, perdi uns dentes e tive um pulmão perfurado.

Acharam que eu tinha matado minha mulher — fui mandado para o seguro, e depois começaram minhas transferências sem fim.

Independente para onde eu ia, era só eu chegar que, durante a noite, aqueles gritos lamentosos e horripilantes começavam a ser ouvidos pelos corredores, e todos os atribuíam a minha presença.

A imprensa inventou muita coisa a meu respeito, dizendo que eu havia emparedado minha mulher com um gato, o que não foi verdade, mas a mídia comprou a ideia e o mito se colou em mim como o grito daquele gato preto.

Eu aguentei de tudo, mas, agora, que estou em uma tranca onde sou aceito, venho pedir pelo amor de Deus que você consiga minha transferência de volta para qualquer unidade prisional comandada pelo Primeiro.

O cheiro de carne humana queimada é um elixir para Lúcifer

Eu contei a você tudo o que aconteceu, você pode ver que não tenho nada com esse negócio de satanismo, foram apenas coisas que aconteceram, e aquele gato negro que entrou em minha vida.

Agora estou em uma das poucas unidades, se não a única do estado, onde ainda tem alguns membros da Seita Satânica (SS), e me colocaram com eles — ninguém mais me aceita por perto. Mas eu prefiro morrer nas mãos dos PCCs a continuar vivendo entre os SSs. Aqui é o inferno no inferno, eu mesmo não teria palavras para descrever o que acontece por aqui. É como Diorgeres de Assis Victorio contou para Guilherme Santana:

“Tenha um mau dia, que o demônio te acompanhe, e tudo de ruim para você.” — é assim que começamos o dia, mau. Nos dias bons, tem cheiro de churrasco, mas é carne de gente viva que é queimada dentro das celas — daqueles que são aceitos como irmãos.

As queimaduras são graves e acabam na enfermaria, eu sou um dos poucos que não aceitam participar dessa loucura, mas não posso negar que eles não tenham força, pois desde que estou aqui, nunca mais o gato maldito apareceu.

O estatuto só tem 3 linhas , mas já é o que basta

Achei que nada seria pior que o gato demoníaco, mas o cheiro de podridão da tranca da Seita Satânica, as paredes com símbolos de estrelas de cinco pontas e cruzes invertidas, tridentes e escrituras em uma língua estranha, as repetições do número 666 e desenhos de Baphomet e do olho de Lúcifer são muito mais difíceis de suportar que aqueles olhos acusadores ou gritos enlouquecedores.

Ninguém conta de onde vem o sangue que é guardado até muito depois de apodrecer dentro das celas dos SS, e não serei eu quem o farei, mas o segredo talvez esteja no livro “Alquimia, Satanismo e Cagliostro”.

Até agora, pelo menos, eu não consegui que me deixassem ver o livro. Ele fica enrolado em um pano preto junto com alguns charutos, mas as regras básicas são repetidas e por todos têm que ser decoradas:


  1. Que a verdadeira justiça infernal reine em nossos corações.
  2. Porque, na verdade, a justiça infernal é inviolável em toda a superfície do universo
  3. Nas profundezas do fogo, nas profundezas do inferno, em toda a superfície da terra, nas profundezas do mar e no espaço infinito, sempre para a glória infernal.
Diorgeres pode contar para você toda a história dessa facção, desde o seu início, passando pela difícil convivência com o Primeiro Comando da Capital no Carandiru, até o momento que praticamente foi riscada do mapa pelo PCC, eu não vim aqui para isso.

O gato não se atreveu a enfrentar os SSs

O que aconteceu para aquele maldito gato ter deixado de me atormentar todas as noites, aqui, e enquanto eu estava nos outras trancas ele continuar a me perseguir?

Fui condenado pelos homens pela morte de minha mulher, do gato, e pelo incêndio na casa, mas não mereço ir para o inferno, e por isso me recuso a ficar com essas crias de Lúcifer.

Matei sim, mas não minha mulher, trafiquei sim, mas nunca fui uma pessoa má. Sempre gostei de animais, de ajudar meus amigos e ficar com minha mulher.

Por isso, e pela última vez, peço-lhe que consiga minha transferência, pois prefiro que esse meu corpo morra pelas mãos de meus irmãos, mas minha alma seja salva e siga seu caminho para longe daqueles olhos acusadores daquele gato maldito.

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