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Garotos do tráfico: vagabundos ou trabalhadores?


A “Operação Jiboia” e meu “retiro espiritual”

Dizem que “homens ameaçados tem vida longa” – não sei se isso se aplica às organizações, o que eu sei é que as autoridades ameaçam acabar com a facção Primeiro Comando da Capital há mais de vinte anos, embora ela só tem se fortalecido.

Há alguns dias, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) mais uma vez ameaçou “sufocar a organização criminosa” com a “Operação Jiboia”. O resultado disso: pegou uma pacotada de dinheiro, prendeu vários integrantes e me incentivou a viajar.

Sem a operação do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) contra a facção PCC 1533, sem que durante minha viagem eu tivesse acompanhado um companheiro em seus corres e sem que eu tivesse conhecido Ana e Betina, eu não viria aqui te dizer que garotos do corre não são vagabundos, ou, pelo menos, eles mesmos não se consideram como tais.

Tudo começou assim…


O GAECO saiu à caça aos PCCs aqui da região de Sorocaba: a “Operação Jiboia” cumpriu 50 mandados de busca, apreendeu veículos, armas e dinheiro e prendeu suspeitos.

Eu, por coincidência ou não, na madrugada desse dia, deixei meu carro que é muito manjado em uma oficina mecânica de um conhecido e tomei um ônibus para uma cidade próxima, onde um companheiro me recebeu para esse meu “retiro espiritual”.

Assim, assisti pela televisão a ação da polícia, imaginando quem estaria assumindo as biqueiras e quanto teriam que pagar de aluguel para as famílias daqueles que foram presos. Eu conhecia algumas daquelas biqueiras… talvez uns dois mil por semana, quem sabe?

Encontrando um companheiro na rodoviária

Afastado das ruas e desse site, esperaria a poeira baixar, mesmo porque o fluxo continuaria como sempre, afinal, essa é a lógica do mercado em uma economia liberal: existindo demanda, haverá oferta, e todo vácuo é rapidamente preenchido.
“Enquanto houver consumidor haverá produção e comércio…” comentou o advogado Bruno Sobral quando a PM destruiu 18 mil pés de maconha em Várzea da Roça, e, assim como lá, aqui a lógica é a mesma e, sendo assim, resolvi relaxar e aproveitar minha viagem.
Quando cheguei na cidade, o companheiro já me esperava na rodoviária. Comemos pastéis em um dos boxes e ficamos conversando. Só lá pelas dez da manhã saímos da rodoviária, mas não fomos longe, paramos na praça em frente.

Um homem com uniforme de uma companhia intermunicipal de ônibus vem até nós e combina com o companheiro de trazer de Campinas um pacote em sua última viagem do dia – ele pega discretamente um maço de dinheiro para pagar o fornecedor e avisa para passarmos em sua casa à noite para pegar a mercadoria.

Conversa conosco sobre amenidades sempre de olho no relógio da rodoviária e, faltando dez minutos para dez da manhã, vai até a plataforma, abre o ônibus e começa a recolher as passagens. Pontualmente, às dez da manhã ele parte.

A realidade brasileira superando a ficção

Aquela cena em nada parecida com o que vemos na TV: sem aquelas figuras sinistras com problemas psicológicos e sociais ou negociações tensas.

Alguns dias depois, conheci melhor esse motorista, que sempre estava sorrindo e sua maior alegria era sua família, gente boa. De fato, ele entrou para o negócio porque era usuário – hoje nem sei se ainda usa, mas faz as entregas quando tem oportunidade de ganhar uns trocos.
“Há muito de humano em todos nós…” - Miss Marple
Qualquer um que visse aqueles dois conversando sossegadamente naquela praça jamais imaginaria que o abastecimento das biqueiras de parte da cidade estava sendo garantido ali, e confesso que até para mim isso foi uma grande surpresa.




Biqueira: um negócio altamente rentável

Depois do almoço, voltamos para a mesma praça em que estivemos de manhã. Ali ao lado havia o ponto final de algumas linhas urbanas, e dois motoristas vieram até nós e entregaram pacotinhos com dinheiro trocado – de certo recolhe de algumas biqueiras.

Eu nunca tinha presenciado um esquema como esse:

Os ônibus eram usados desde a chegada da droga na cidade até o recolhe do caixa, mas fora essa opção logística, a organização do comércio seguia o modelo tradicional: gerente, vendedores e aviõezinhos.

Saindo de lá, passamos em uma biqueira que ele havia comprado. Segundo ele, nesse momento sua presença ali era essencial, mas depois de pegar embalo era só manter o equilíbrio e fazer o controle.

Essa biqueira lhe custou 50 mil reais, e estava sendo paga em parcelas, mas já valia mais que o dobro e nem havia três meses da compra! Foi um bom negócio, e ele pretendia vender o ponto por 180 mil em mais alguns meses.

Para isso ele investia na qualidade das drogas entregues ao usuário, evitava o desabastecimento e mudou a forma com que gerenciava seus “colaboradores” depois que percebeu que estava gastando muito sem aumentar a rentabilidade.

Garotos buscando trabalho, respeito e dignidade

As pesquisadoras Ana Paula Motta Costa e Betina Warmling Barros, no artigo “Traficante não é vagabundo: trabalho e tráfico de drogas na perspectiva de adolescentes internados” , explicam melhor o que o companheiro constatou em sua quebrada: por vezes, o trabalho nas biqueiras é uma forma de ascensão e reconhecimento social.
Tem garoto que chega a tirar limpo seus mil reais no dia, mas não é tanto pela paga que ele e outros trabalham no tráfico, e sim pelo respeito e a dignidade que o tráfico confere.
“Respeito e dignidade” não são duas palavras muito vinculadas ao tráfico de drogas, mas “o mundo é diferente da ponte pra lá”, principalmente após profissionalização que ocorreu no setor a partir da década de noventa.

Com o crescimento e a padronização de procedimentos, o Primeiro Comando da Capital mudou o posicionamento na sociedade periférica dos traficantes e seus auxiliares: de vagabundos e drogados, eles passaram a ser vistos como integrantes de uma grande organização.

E o “patrão” nesse novo ambiente passou a ter de entender sua posição e de seus moleques na comunidade para ficar condizente com o discurso da facção e com a moral do mercado:
“… você tem de pagar os fornecedores, os empregados, a família de quem morre, a família de quem vai preso, festas e comemorações (…) e, claro, propina para a polícia.” – simples assim.
Ser vagabundo, nas favelas e nas comunidades, é não trabalhar, não ajudar no sustento do lar e explorar a própria família – esse não tem respeito. Por outro lado, aquele que tem uma renda constante em uma organização reconhecida é um trabalhador, seja ele um motorista de ônibus, um vendedor ou um gerente.

Você aceitará que um traficante, um palestrante ou um vendedor de chocolates sejam trabalhadores dignos, dependendo do lado da ponte em que estiver, ou talvez você seja como Torquato Jardim e Miss Marple, que acreditam que “a corrupção é da natureza humana” e “como há muito de humano em todos nós”


Bem, só tenho a agradecer ao GAECO que me deu a ideia desse meu período sabático, que me permitiu sair um pouco da rotina dos corres e do site e conhecer um pouco mais sobre como funciona a nossa sociedade. Agora, mãos à obra:

E para começar peço desculpas ao colega do (11) …99, que me perguntou sobre o destino do Capitão e de Mene, que foram retirados do condomínio para serem julgados pelo Tribunal do Crime do PCC e que eu disse a ele que estavam ambos mortos, mas não é verdade:



  • Capitão não mais foi encontrado. Há duas versões sobre o que pode ter acontecido: uma que diz que ele foi morto e outra que conta que ele estaria no Paraguai. A esposa continua morando no mesmo condomínio.




  • Mene foi deixado próximo ao condomínio, e a mulher foi informada para pegá-lo e conduzi-lo ao serviço médico. Ele sofreu lesões grave em ambas as pernas, quebrou braço esquerdo e teve um dedo da mão direita esmigalhado. Não está mais nos corres.



  • O Buguinho me mandou uma mensagem afirmando que na listagem das facções amigas e inimigas existe um erro, só que não posso alterar o texto pois ele foi passado por um Geral das Trancas em um grupo de WhatsApp da facção, então fica como está até que outra lista me chegue.

    Agora vou buscar o carro no mecânico e ver como está o clima por aqui. Fui.



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