Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Abril, 2020

A facção PCC 1533 no nordeste do Paraguai

Estamos sozinhos: eu e ele. Da porta do meu quarto o vejo em minha cama, deitado, com a roupa suja de sangue. Seu cheiro se espalha pela casa: uma mistura de suor, sangue, goró e crack . Será que esse é o verdadeiro cheiro do demônio, e não o enxofre? Mesmo dormindo, seu rosto é puro ódio. As luzes estão apagadas, e com essa quarentena por causa do covid-19 a penumbra e o silêncio são ainda mais profundos. Ele vira o rosto na minha direção, de olhos abertos. Eu gelo! Porra de susto! Ele está é dormindo com olhar noiado e respiração rápida e profunda – coisa do demônio! Volto pelo corredor, esperando não vê-lo até a hora de ele ir embora. Não o convidei. Me ligaram avisando que alguém iria se mocozá aqui até amanhã. Ninguém é obrigado a fazer nada na Família 1533 , no entanto, a recusa é notada. Por outro lado, sempre rola um dinheirinho que ajuda pagar as contas. Antes de amanhecer, ele seguirá para o departamento de San Pedro, no Paraguai, onde se juntará aos PCCs na escolta

Cai um PCC vem outro no lugar

I – O DIÁLOGO Ainda está escuro. Marcel senta ao meu lado no beiral da escada, me entrega um copo com café que Sônia acabou de fazer. Mal dá para ver o marido dela ali perto cuidando dos animais, a escuridão da noite só não é mais profunda que o silêncio – ouve-se ao longe apenas um galo. Não conversamos desde que entramos no carro em São Paulo, e nem o casal falou conosco quando chegamos noite passada naquele sítio em Marialva – o marido de Sônia apenas mostrou a cozinha e onde deveríamos dormir e se recolheu. Desligamos nossos celulares antes de pegar a estrada, e ainda continuam desligados, o que aumenta o peso do silêncio. Marcel me diz, com olhar distante:      — “Vou seguir. Para lá não volto”.      — “A gente continua cuidando da sua família”, respondo.      — “Só agradece”.      — “Você sabe que te deixo aqui”. Ele não responde. Me levanto e me despeço do casal com um aceno, mas eles também não respondem. Entro no carro e sigo pela estradinha de terra vermelha uns d

Venda de drogas na escola, pode?

O Dri do PCC 1533, a escola e o estuprador Ao ler o conto “Mundo Novo” revivi o dia no qual Dri da Vertente garantiu seu lugar como companheiro da facção Primeiro Comando da Capital : A luz do sol não era muito intensa e a tarde já cedia lugar para a noite quando a primeira paulada lhe atingiu o ombro. Ele não gemeu, mas em um gesto que demonstrava dor levou a mão ao lugar atingido. Seu rosto expressava um medo intenso. Tentou fugir, mas o empurravam de volta… Jota Alves descreve tão bem a cena que parece que estava lá ao meu lado quando o Dri matou o homem acusado de ter estuprado uma menina da comunidade ─ Dri tem 13 anos de idade, mas é maior e mais forte que a maioria dos adultos. Ele não foi chamado para aquele Tribunal do Crime , mas chegou e pediu para ele mesmo fazer a justiça, o que só depois de muito debate com a liderança foi autorizado, mas o garoto se mostrou à altura da responsabilidade. Não foi bonito de se ver. Dri brincou com o cara que, apesar de ser adulto, n