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A facção PCC 1533 no nordeste do Paraguai


Estamos sozinhos: eu e ele.

Da porta do meu quarto o vejo em minha cama, deitado, com a roupa suja de sangue. Seu cheiro se espalha pela casa: uma mistura de suor, sangue, goró e crack. Será que esse é o verdadeiro cheiro do demônio, e não o enxofre?

Mesmo dormindo, seu rosto é puro ódio. As luzes estão apagadas, e com essa quarentena por causa do covid-19 a penumbra e o silêncio são ainda mais profundos.

Ele vira o rosto na minha direção, de olhos abertos. Eu gelo! Porra de susto! Ele está é dormindo com olhar noiado e respiração rápida e profunda – coisa do demônio!

Volto pelo corredor, esperando não vê-lo até a hora de ele ir embora.

Não o convidei.

Me ligaram avisando que alguém iria se mocozá aqui até amanhã.

Ninguém é obrigado a fazer nada na Família 1533, no entanto, a recusa é notada. Por outro lado, sempre rola um dinheirinho que ajuda pagar as contas.

Antes de amanhecer, ele seguirá para o departamento de San Pedro, no Paraguai, onde se juntará aos PCCs na escolta de um carregamento a ser entregue pelo Exército Popular do Paraguai (EPP), e depois reforçará a segurança dos galpões e fazendas da facção.

O corredor do quarto para a sala é pequeno, apenas alguns metros, mas essa noite o escuro, o silêncio e aquele visitante fazem-no parecer muito longo. Ando em direção à sala, que parece nunca chegar – não me lembro de ter bebido nada.

Sinto um arrepio.

Posso sentir o medo nos olhos dos “Cús Vermelhos”, como são chamados pelos PCCs os inimigos, integrantes da facção carioca Comando Vermelho (CV), quando estiverem na ponta da faca desse cara em Concepción, Amambay e Canindeyú.

Enfim chego na sala, e a luz da tela de descanso do note me acalma.

Ele seguirá para a fronteira nordeste do Paraguai em algumas horas – horas que não passam.

Quando eu ia para o Paraguai, era só contrabando inocente, videocassetes e câmeras. Isso mudou em 2008, quando o EPP começou a atuar entre o norte de San Pedro e o sul de Concepción, e os primeiros PCCs se instalaram na província Alto Paraguay. 


O Exército do Povo Paraguaio, para exigir uma mudança social, passou a agir com violência, atacando propriedades rurais e comerciais, queimando plantações, destruindo o que viam, envenenando o gado e sequestrando fazendeiros, políticos e comerciantes.

Eu nunca conversei com um soldado do EPP para poder afirmar se isso é verdade ou se alguém pintou o diabo mais feio do que ele realmente é – o povo fala demais, como naquela história do cheiro de enxofre.

Sinto que alguém me observa. Olho para o corredor escuro, mas não vejo ninguém. Uma correnteza de vento traz aquele “cheiro dos demônios” – a noite será longa.

No início, os PCCs que iam para o Paraguai fugindo das autoridades brasileiras chegavam com grama apenas para se esconder, mas hoje é diferente: quem chega já tem trabalho garantido:

“El Primer Comando Capital” é o maior grupo armado atuando naquele país, e possui infraestrutura, armas, muita grana, plantações de maconha, distribuidoras de cigarros, está presente em todas as prisões do país, e influência na política.

Não conseguirei dormir.

Vou até a cozinha, preparo um café e olho para o relógio que não anda. O tempo parou? O frio é intenso, mais forte que o normal. Tremo. Estou com febre?

Coloco um filme no note e deito no sofá da sala. Não vou até o quarto pegar um outro cobertor. Prefiro passar frio do que ver de novo aquele rosto, mesmo sabendo que o frio não me deixará pegar no sono.

Será fácil para ele atravessar a fronteira longa e porosa. Quase não há controle, e os que existem não passam de bases mal equipadas com dois ou três agentes, que só estão vivos porque não incomodam, ou melhor, só incomodam turistas e muambeiros.

Daqui do interior de São Paulo até Canindeyú, de lancha pelo rio Paraná, demora uma hora; de avião, 45 minutos; de carro, umas 10 horas. A viagem só será ao amanhecer, e o relógio não está colaborando.

Todos temos que ganhar nosso pão.

Gosto de mocozar companheiros que precisam de ajuda, ouvir suas histórias, aventuras, sonhos e amores – e geralmente rola umas moedinhas para meu lado.

Volto ao sofá. O filme já acabou e a tela entrou em descanso. Deixa assim mesmo.

Só posso estar sonhando…

Estou ao lado do Richard Rojas, “el paraguayo más antiguo del PCC”, conversando com um oficial da polícia em Assunção, pegando informações e acertando o transporte de uma carga que será despachada por avião para São Paulo.

Acordo ainda entorpecido, sem saber quanto tempo dormi. Estou consciente, mas não consigo me levantar. Aquele cara do inferno está passando pelo corredor olhando para mim e seguindo para a cozinha – ou foi minha imaginação?

Tem um barulho vindo de fora, talvez seja a polícia em busca do cara. Eu tenho que levantar para avisá-lo. Semiacordado, vou em direção ao corredor escuro, que agora parece tão distante. Não consigo acordar de vez – que diabo!

Chego ao corredor.

A luz da cozinha está acesa, e por ela vejo aquele homem infernal olhando para mim. Lux in tenebris: aponta a mão na minha direção, retira algo da mochila, deixa sobre a mesa e sai pela porta dos fundos.

Estou novamente sozinho e sobre a mesa ficou uma boa paga.

Baseado no conto “Coma” de Fernanda Rodrigues
Dados sobre a facção de Juan A. Martens em “Entre grupos armados, crimen organizado e ilegalismo”.

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