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Cai um PCC vem outro no lugar

Fotomontagem com criminosos do Primeiro Comando da Capital presos em várias partes do mundo.

I – O DIÁLOGO

Ainda está escuro.

Marcel senta ao meu lado no beiral da escada, me entrega um copo com café que Sônia acabou de fazer. Mal dá para ver o marido dela ali perto cuidando dos animais, a escuridão da noite só não é mais profunda que o silêncio – ouve-se ao longe apenas um galo.

Não conversamos desde que entramos no carro em São Paulo, e nem o casal falou conosco quando chegamos noite passada naquele sítio em Marialva – o marido de Sônia apenas mostrou a cozinha e onde deveríamos dormir e se recolheu.

Desligamos nossos celulares antes de pegar a estrada, e ainda continuam desligados, o que aumenta o peso do silêncio. Marcel me diz, com olhar distante:

    — “Vou seguir. Para lá não volto”.

    — “A gente continua cuidando da sua família”, respondo.

    — “Só agradece”.

    — “Você sabe que te deixo aqui”.


Ele não responde. Me levanto e me despeço do casal com um aceno, mas eles também não respondem.

Entro no carro e sigo pela estradinha de terra vermelha uns dois quilômetros até a vicinal, e de lá uns cinco até a BR-369 – Marcel terá que caminhar muito, a menos que consiga uma carona.

II – POR TRÁS DO DIÁLOGO:

    — “Vou seguir. Para lá não volto”.
“Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule…” Apocalipse 13:18.
No dia 16 de março o Primeiro Comando da Capital determinou rebeliões e fugas em diversas unidades prisionais; no dia 17 de março o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou a Recomendação 62, que determina a soltura seletiva por conta do covid-19.

Encarcerados do grupo de risco e daqueles que não tenham sido julgados e que não estejam respondendo por crimes violentos devem ser soltos e aguardar o julgamento…

… e foi assim que Marcel ganhou sua a liberdade.

A Recomendação 62 não impede a liberação dos integrantes de facções, mas várias comarcas negam o benefício aos membros do Primeiro Comando da Capital, no entanto, no processo de Marcel não é mencionada a sua ligação com a facção.

Ele sabe que se ficasse em São Paulo não demoraria a ser preso novamente, por isso aceitou o convite para se juntar no Paraguai ao Richard, “el soldado más antiguo del PCC”, mas pouco antes de pegarmos a estrada ficamos sabendo de sua prisão em San Lorenzo.

Com a prisão de Richard, Marcel desistiu de ir para o Paraguai, e assim seguiria de Marialva no Paraná, para o noroeste (Bolívia, via Dourados). Há anos conversamos sobre essa alternativa quando caíram diversos PCCs aqui na região.

    — “A gente continua cuidando da sua família”.

Marcel sabe que a família de um irmão ou companheiro não é deixada de lado pela Família 1533 – desde sua prisão, sua mulher recebe parte do rendimento de uma biqueira, e assim continuará enquanto ele não se estabelecer.

Richard René Martínez Rojas recrutava novos PCCs entre aqueles que saíam do sistema prisional paraguaio, e as células criadas por ele planejavam e executavam meticulosamente grandes assaltos, assassinatos, sequestros e resgates de presos, assim raramente algum criminoso acabava preso ou morto, e os ganhos eram elevados.

Já no Mato Grosso do Sul e na Bolívia a conversa era outra, e por isso tentei assegurar a Marcel que ele poderia seguir sem medo, e que sua família estaria sendo cuidada.

    — “Só agradece”.

Marcel sabia que não tinha o que agradecer, ele deu o maior apoio a um chegado meu, além disso ele não estava fugindo ou abandonando o PCC 1533, pelo contrário, eu o estava colocando a caminho do olho do furacão:

Houve um debate onde se decidiu que eu deveria lhe oferecer ajuda, convencê-lo e levá-lo em segurança até aquele sítio – ele acha que eu fui procurá-lo apenas para ajudá-lo.

Há alguns dias Fuminho foi preso em Moçambique, mas era da Bolívia que comandava a distribuição das drogas no Brasil e as rotas do tráfico transcontinental, desde os produtores latinos-americanos, passando pelos distribuidores brasileiros e portos africanos, até os atacadistas europeus.

A prisão de Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, derruba parte dessa estrutura, e se Marcel conseguisse aproveitar essa oportunidade, encaixando-se nas lacunas ganharia mais dinheiro do que poderia gastar, mas, caso não conquistasse a confiança da liderança, morreria.

    — “Sabe que te deixo aqui”.

O acertado era levá-lo até aquele sítio, onde passaríamos a noite, e eu voltaria logo cedo. Após o almoço ele deveria esperar na BR-369, onde uma companheira passaria para pegá-lo e seguiria com ele como se fosse sua garota, para não chamar muita atenção.

Para atravessarem a fronteira com segurança, eles devem parar em Dourados para acertarem os contatos e rotas – mas sei o que o espera por lá, e não creio que ele chegará na Bolívia.

A minha parte da missão foi cumprida, e a garota, que é “cria do 15”, com aquele jeito que só elas têm, deverá convencer Marcel a entrar na guerra que o PCC trava no Mato Grosso do Sul para eliminar os inimigos do Comando Vermelho (CV).

Tudo ainda é incerto, mas Marcel talvez troque o seu sonho boliviano de riqueza, e decida assumir algumas missões de Walter Dantas Cabreira, conhecido como Xeque-mate, o assassino do PCC do MS que foi capturado essa semana quando planejava matar um agente público.

Seja no Paraguai, na Bolívia, no Mato Grosso do Sul ou na biqueira de qualquer bairro: uma peça cai, e outra entra em seu lugar e o jogo continua. Não é uma substituição, é um Roque, e todos nós somos apenas peças nesse tabuleiro: eu, a companheira, o casal e ele.

Na organização criminosa Primeiro Comando da Capital, a queda de um líder ou um membro não significa que outro o substituirá, mas seu espaço será ocupado de forma orgânica e imprevisível através das disputas internas e de acordo com os interesses e as escolhas de cada integrante.

Essa incerteza obriga que as forças que combatem a facção PCC 1533 recomecem suas investigações para entender o novo cenário criado e suas ramificações para, só então, tempos depois, lançar outro ataque – Roque!

Roque: no xadrez é a jogada que envolve a movimentação de duas peças em um único lance, usada para desarticular um ataque inimigo, obrigando-o a reorganizar outro ataque.

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