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Policiais e PCCs seriam vasos de honra ou desonra?


 PCCs e policiais: dois lados da mesma moeda

Tanto você quanto eu já tivemos a experiência de estar dos dois lados de um mesmo balcão — por vezes somos consumidores de serviços e produtos que nós mesmos prestamos, comercializamos ou fabricamos.

Seguindo os caminhos que a vida traçou, tive a oportunidade de conhecer o mundo do crime: tanto no ambiente policial e judicial quanto na caminhada do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Acompanhei garotos sem ódio no coração começando a trilhar a profissão no mundo do crime e nas forças de segurança: alguns apenas buscavam sustentar seus próprios gastos, enquanto outros entravam nessa por ideologia.

Ler sobre o “Experimento de aprisionamento de Stanford” foi ler sobre coisas que eu mesmo vivenciei — as transformações de personalidade descritas por Philip Zimbardo foram aquelas que vivenciei na polícia e na facção PCC.


PCCs e policiais: agindo de forma nunca esperada

Eu não sei se uma pessoa nasce boa e a sociedade a corrompe, ou se nasce egoísta e má e a sociedade e as instituições colocam limites. O que sei é que os jovens que conheci eram, em sua maioria, gente boa, simples e honesta.
À luz do Experimento da Prisão de Stanford, foi argumentado que, em certos contextos, os comportamentos, bons ou ruins, são legitimados e aceitos pela Sociedade.
Esteja você em uma biqueira ou uma viatura, ou esteja em um presídio ou em um batalhão policial, estará em ambientes que propiciam que o comportamento de manada seja aceito, legitimado e definitivamente incorporado.

E em todos os ambientes que convivi, os indivíduos mudavam o seu comportamento rapidamente, adotando não apenas as gírias e o modo de se portar, mas também a forma de pensar, agir e sentir.

O efeito da adrenalina despejada no sangue do policial e do criminoso durante uma perseguição é o mesmo, assim como o modo como se relacionam entre si e com sua comunidade — Teoria do Efeito Dobradiça de Tarcília Flores.

Conheci gente boa, tanto de um lado quanto de outro, que mataram sem uma justificativa moral ou de legítima defesa, mas por pertencerem a esses grupos.

Philip certa vez me disse que “dependendo do tipo de situação em que nos encontramos, colocamos de lado nossas convicções pessoais, nossos valores morais e agimos de uma forma nunca imaginada”.

PCCs e policiais: agindo conforme esperado

Pelos bairros periféricos, durante a madrugada, desembarcávamos com armas em punho, intimidando quem quiséssemos, muitas vezes com violência, pois tínhamos apenas nossos próprios demônios como testemunhas — estando em uma equipe policial ou com nossos companheiros da quebrada.

acesse artigo do Nexo clicando na imagem

Inconscientemente, nós apenas desejamos aceitação e pertencimento quando estamos em ambientes homogêneos, como em uma igreja, uma festa de família, uma equipe policial, ou com os companheiros de quebrada.

O jovem, policial ou criminoso, age conforme o grupo, abandonando a busca pelo pertencimento na distante ideia de “sociedade” que condena a violência, e procura aceitação junto aos seus companheiros próximos de farda ou do crime.

Vi madrugada adentro nas ruas a Teoria da Conformidade Social de Solomon Asch se comprovando e gerações de jovens policiais e criminosos passarem de doutrinados para doutrinadores, perpetuando a cultura da violência.

Garotos que me diziam que de certo ponto não passariam, que estavam ali apenas para fazer seu trabalho e garantirem seu sustento, pouco tempo depois passavam a posição de defensores e garantidores de uma cultura violenta.
“Solomon Asch mostrou que ao se sentir pressionado por um grupo que sempre deu respostas erradas, uma pessoa pode ser induzida a escolher respostas erradas também. Stanley Milgram sugeriu que, em cada contexto, pessoas comuns trapaceariam ou mentiriam para seus pares.”


PCCs e policiais: não são grupos homogêneos


Aqueles que acompanham esse universo pelos noticiários e filmes veem erroneamente esses grupos antagônicos como homogêneos. Eles não o são.

Os policiais que atuam em viaturas de área ou policiamento escolar, em geral, são mais brandos que seus colegas das viaturas de duas rodas ou táticas; e no mundo do crime, aqueles que comercializam cigarros contrabandeados, drogas em festas ou os assaltantes, cada um deles, têm um perfil diferente.

A seleção é natural: tanto a hierarquia da polícia quanto a do mundo do crime separam os novatos por perfil, e se não o fazem, os grupos criam barreiras para se garantirem da conquista do pertencimento por alguém de fora, levando o próprio indivíduo a buscar outra área mais adequada ao seu perfil.

A seleção é natural, porém é violenta: tanto na polícia quanto no mundo do crime a pressão começa de maneira sutil, através de “zoeiras” e comentários, mas chegará à violência física e ao homicídio se necessário.

Quem acompanha esses universos pelos noticiários e filmes não conhece a realidade, pois “o que acontece na viatura, morre na viatura”, e o mesmo vale para a quebrada, onde “cagueta algo relacionado ao Comando será decretado”.
13º Decreto: Para confirmar um decreto a Sintonia tem que analisar com cautela, por se tratar de uma situação de vida. (…) Quando um decretado chegar em uma quebrada nossa tem que ser cobrado de bate pronto.— Regimento Disciplinar do PCC
Rodrigo Nogueira descreve como essa pressão se dá na Polícia Militar no livro Como Nascem os Monstros, e no ano passado, veio a público o caso do cabo da Rota Fernando Flávio Flores que teria sido morto por seus próprios colegas.

acesse o artigo no UOL clicando na imagem


PCCs e policiais: sob o Efeito Lúcifer

Essa seleção natural feita pelos policiais e pelos integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital não é um comportamento exclusivo desses grupos e, na verdade, replica o que ocorre em qualquer comunidade fechada quando recebe um novo membro — variando apenas o grau de violência.

Estudando esses grupos fechados como sendo sociedades com padrões de relações e interações sociais e cultura da vida cotidiana próprios, vemos que a relação “dos estabelecidos” (antigos membros) e “dos que vêm de fora” (novatos) seguem o padrão descrito por Norbert para descrever a violência, discriminação e exclusão social registradas em uma pequena vila inglesa da metade do século passado.

Ler sobre o “Experimento de aprisionamento de Stanford” foi ler sobre essas coisas que eu mesmo vivenciei e que descrevi para você neste texto — as transformações de personalidade, conforme descritas por Philip Zimbardo.

Seguindo os caminhos que a vida traçou, cada um dos jovens que ingressarem nas forças policiais e no mundo do crime conhecerão sentimentos, formas de pensar e agir, e, independentemente de sua índole, se adaptarão:
Quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? — Romanos 9:19-21

Esse texto foi baseado na introdução do artigo O “Efeito Lúcifer” e “Os Estabelecidos e os Forasteiros”: Diferentes práticas de poder ou facetas de um mesmo contrato? de Claudia Tania Picinin e outros, publicado no Brazilian Applied Science Review (DOI:10.34115/basrv5n1-013)

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